18 de março de 2015

Whiplash: O ‘Tropa de Elite’ do jazz

Filme Whiplash e Tropa de Elite “flertam” com  fascismo

Por Otávio Silvares

“Whiplash” é um desses filmes que tem efeito magnético sobre nosso olhar. O trabalho de direção magistral e a montagem dinâmica imprimem um realismo notável. As atuações de Miles Teller – interpretando um jovem e ambicioso baterista de jazz, recém ingresso em um dos melhores conservatórios dos Estados Unidos – e J. K. Simmons – seu professor de métodos pouco ortodoxos – são impecáveis. A tensão entre os dois personagens cria uma camada densa entre a tela e o espectador, que o fazem revirar na poltrona do cinema (eu me revirei muito!). Existem ali seqüências muito bem construídas, como a do início em que Terence Fletcher (Simmons) conhece seu futuro pupilo Andrew Newman (Teller). A sequencia final – resolução do conflito introduzido no início – também não fica nem um pouco atrás, quando Andrew supera as expectativas do público (e de Fletcher) executando uma impressionante e virtuosa performance à bateria. A sessão costuma se inflamar e não segurar os aplausos.

Enfim! “Whiplash” é excelente em sua forma! Diversão garantida! Mas meu intuito aqui não é tratar desses méritos técnicos. Por debaixo deles jaz uma questão de cunho ideológico – não tão oculta assim – que acredito ser muito mais relevante quando o assunto é cultura de massas. Fato é que o filme – espero que não intencionalmente – acaba sendo, se não um elogio, no mínimo um flerte malicioso com o fascismo (#prontofalei). Algo muito semelhante ao que ocorreu com nosso já consagrado “Tropa de Elite 1” (e nesse caso é importante que seja o 1).

A comparação com o filme nacional pode parecer forçada, reconheço. Mas isso porque ela não se encontra em um nível estilístico e temático, mas notadamente nas características do personagem coadjuvante. Tal qual o capitão Nascimento, Fletcher – maestro da principal Big Band do conservatório – é ambíguo, desperta reações variadas no público. Mas acaba por impor sua perigosa perspectiva de mundo como correta e ganhar a adesão inconsciente do espectador.

Sua conduta como professor é da mesma implacável rigidez. Submetendo seus alunos a uma verdadeira disciplina militar, com berros, ofensas e até agressões físicas (equivalentes ao famoso “pede pra sair”), Fletcher se equipara ao personagem brasileiro tornando-se uma espécie de capitão Nascimento do Jazz. Tais métodos instauram um clima de competição atroz entre os músicos da banda e um embrutecimento do protagonista Andrew, que se auto-multila praticando incessantemente seu instrumento; desenvolve uma soberba agressiva a ponto de criar rusgas com familiares e terminar seu namoro com Nicole (sob o pretexto de que a bateria era objetivo maior do que um relacionamento). Seu orgulho se inflama de tal forma que – após um fiasco em uma apresentação – acaba tendo um acesso de fúria e atacando Fletcher em pleno palco.

Até aqui nossa simpatia pelo enérgico professor (ou capitão) e sua pedagogia está profundamente abalada. A angústia que causou em seu aluno – agora expulso do conservatório – é compartilhada por todos na sala de projeção. A notícia de que um outro ex-aluno de Fletcher teria desenvolvido uma forte depressão após conhecê-lo – o que o levou ao suicídio – reforça essa repulsa.

Até que, tempos depois, os dois se reencontram. Em clima bem mais amistoso, Fletcher – também expulso de seu cargo de docente – busca a compreensão de Andrew recontando a história de Charlie Parker, consagrado saxofonista norte-americano. Humilhado e escorraçado de uma apresentação fracassada, o jovem Parker não se deu por derrotado, mas deu a volta por cima tornando-se um dos maiores solistas que o jazz já conheceu. Esse conto serve, além de justificativa pedagógica do mestre, como uma parábola, um eixo moralizante do filme. Somente sendo levado ao limite é que nasce o verdadeiro gênio, a verdadeira perfeição se manifesta. Questionado sobre os limites de seu método tão radical, Fletcher é categórico: “O novo Charlie Parker jamais desanimaria”, e completa: “nunca pedirei desculpas por ter tentado encontrar o novo Parker”.

E eis que a história do ícone do jazz se repete na de Andrew. Convidado pelo ex-professor a tocar em sua nova Big Band, na abertura de um grande festival de jazz, Andrew sofre outro vexame ainda pior, dessa vez por obra deliberada do próprio Fletcher. Sai do palco sob parcos aplausos, olhares odientos dos colegas e o sorriso de escárnio do sádico maestro. Mas retorna em uma reação heróica, retomando a esperança do desolado espectador do cinema. De forma desafiadora, começa a tocar a introdução da música seguinte, despertando a ira de Fletcher. A banda o acompanha em performance igualmente impecável e observa embasbacada seu impressionante solo ao final da música. Fletcher, antes possesso de ódio, agora sorri e deleita-se com a técnica do jovem; passa a regê-lo com as mãos e os olhares, em um jogo de planos e contra-planos que mostram uma interação harmônica entre os dois, como se tivessem feito as pazes.

Até que o solo se acaba e a moral da parábola de Charlie Parker se concretiza. Levado ao limite, Andrew ainda encontra as condições para reagir e mostrar que é o escolhido, o “übermensch” da bateria. Isso não se dá, no entanto, por um rompimento mas por um restabelecimento da relação mestre/aprendiz. É através dela – e somente através dela – que o protagonista cumpre sua função no filme: realizar o ideal faraônico de perfeição que Fletcher buscado violentamente. Assim como em “Tropa de Elite 1”, esse objetivo é alcançado por métodos extremamente questionáveis, mas colocados pelo filme como corretos, como eficientes. Em “Whiplash” alguns ovos são quebrados – uns enlouquecendo de ódio, outros fugindo aterrorizados, outros se suicidando. Mas o método funciona! Eis o gosto que o público, sem saber, leva pra casa.

Se você pensa que tudo isso foi uma contra-propaganda do filme, está enganado. Assista! Usufrua de suas atuações magníficas e sua beleza formal! Repare se, ao final, não terá ímpetos de levantar e aplaudir efusivamente! Só peço que se pergunte o que, afinal, está aplaudindo.

A RUA GRITA

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