03 de abril de 2015

A pedra no caminho da recuperação

Esquecidos pela mídia e poder público, usuários de crack continuam a sofrer com o preconceito em São Paulo

Por: Victória Candian, Bruna Mondeck, Patrícia Lo Turco e Daniela Guerra
Foto: Victória Candian

“Raspa da Canela do Capeta”. Assim era conhecido o crack na São Paulo dos anos 80. Sua composição original se resumia ao cloridrato da cocaína com bicarbonato de sódio e água. Com a mesma rapidez que corrompe o organismo,o crack se espalhou por todo o estado, desde as ruas do centro, até as luxuosas mansões dos jardins.

O ultimo levantamento realizado sobre o crack indica que aproximadamente 370 mil pessoas usam a droga regularmente no Brasil. A pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ligada ao Ministério da Saúde, em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça, consistiu em duas etapas: mapeamento dos locais de consumo de crack nas capitais, contabilizando o número aproximado de usuários, e um centro de aconselhamento e testagem de HIV para as pessoas que participaram da pesquisa.

O Nordeste é a região mais afetada. 148 mil pessoas consomem a droga, cerca de 40% dos usuários residem na região que, como colocou o poeta Luiz Gonzaga, tem o mapa no formato de coração.

O Sudeste é a segunda maior região consumidora com 113 mil usuários, seguida pelo Centro-Oeste com 51 mil, Sul com 37 mil e Norte com 33 mil.

O estudo mostra que dos 370 mil usuários, 80% são homens. A pesquisa ainda destaca que, para 80% dos entrevistados, a brisa da droga acontece nas beiras das calçadas e marquises, ainda que -contrariando o senso comum – metade desses tem uma casa para passar a noite.

A distribuição geográfica dos usuários se difere entre os centros urbanos e áreas mais rurais. Se no primeiro as “cracolândias” concentrem os usuários, nas regiões mais afastadas o consumo é diluído.

Na rua

LMR*, 30 anos, cresceu e viveu nas ruas de São Paulo; atualmente vive no cartão postal da cidade: a Avenida Paulista. Ele, que já fumou crack por quatro anos, conta que parou por conta própria. “É muito raro viver na rua e não experimentar nenhum tipo de droga, seja ela álcool ou crack. A revolta e o ódio são o caminho do vício. Não se vive na rua, se sobrevive nela, cada dia é uma luta, e a droga facilita nessa superação”.

LMR conta sobre a dificuldade de se conseguir um emprego: “Nós não temos oportunidades, a sociedade já nos esqueceu”. Segundo a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), 65% dos usuários de crack sobrevive apenas de “bicos”, e apenas 35% tem um emprego fixo.

Para L. M, as mídias não mostram a realidade vivida na rua. “Nunca ninguém entrou na região para conversar ou entrevistar, os fotógrafos apenas passam por aqui, tiram fotos, vão embora e publicam o que lhes convém”.

“O único colégio que frequentei foi durante a estadia na Fundação Casa (antiga Febém) e nos presídios”. L.M. afirma já ter furtado em diversas oportunidades, principalmente quando era usuário. “E é somente isso que a sociedade quer ler e acreditar, mas existe o outro lado também, o lado da miséria, aquele que é preciso roubar para se tomar um banho, ou para comer um pão com café e até mesmo para dormir.”

Separado por poucos quilômetros, Frans, 39 anos, também passa suas noites sob o céu nublado de São Paulo, na Praça Roosevelt, na região central. “Eu usava o tal do mesclado né, maconha com crack, mas eu usava conforme tinha o dinheiro”. Ele afirma que, entre os diferentes efeitos, tinha algo espiritual no uso da droga. “Parece que você está crescendo”. Para Frans, o crack foi uma consequência da rua. “Colocaram na minha vida. Me ofereceram a droga e colocaram essa ideia na minha cabeça, mas não sei se é o mal, não sei se o que eu fiz foi por raiva da minha pessoa. Talvez tenha sido uma fuga da realidade.”

Mesmo abandonando o crack, Frans nega que conseguiu se recuperar. “A melhora nunca ocorreu”, afirma fazendo referência ao uso do álcool. O catador de latinhas banca a bebida com suas vendas. Com as últimas cem vendidas, conseguiu uma garrafinha de Corote, que estava quase vazia após os goles que deu durante a entrevista.  Já viu a morte de perto em vários episódios, consequência do uso de cocaína e destilados, nenhum deles envolvendo o crack. “Querendo ou não isso aqui é legal né, está legalizado. Quantas vezes eu sai assim [sob efeito da droga] andando por aí pra entrar no comércio e comprar, isso aqui vai longe”

Programas

Há anos diversos programas são criados para a recuperação de usuários. Vinícius Lima, um dos organizadores do SP invisível, projeto que busca conscientizar a população do lado humano do morador de rua, afirma que o erro de muitosconsiste em achar que apenas com trabalho seria possível sair das drogas. “Com programas funcionais, existem cada vez menos diálogos; clínicas e pessoas perguntam a um usuário de droga o quanto ele mede, pesa e o que sabe fazer, mas não perguntam o que ele sente, do que tem vontade, do que tem saudade, o que ele pensa. Alguns programas esquecem que são seres humanos às vezes.”

Poucos programas se destacam no caminho da recuperação ao optarem pelo tratamento digno do usuário, como é o caso do “Braços Abertos”. O programa da Prefeitura de São Paulo, iniciado em janeiro de 2014, oferece vagas em oito hotéis da região central, três refeições diárias, participação em uma frente de trabalho, duas horas de capacitação e renda de R$ 15 por dia. Aos finais de semana, todos os beneficiários têm ainda a oportunidade de participar de oficinas de arte, música e cultura, além de aulas de esporte.

Para Vinícius, o programa é a melhor opção na cidade. “O problema é o vício de rua que o programa cria, o cara tem tudo na bandeja, por isso às vezes não quer sair. Isso os próprios moradores de rua dizem”.

Segundo dados da prefeitura de São Paulo, até Abril do ano passado, 16 participantes voltaram às suas famílias, 12 crianças foram matriculadas em creches, 138 pessoas conseguiram seus documentos e 18 foram atendidas pela Defensoria Pública da União.

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