15 de abril de 2015

Da Casa Grande aos apartamentos

Crônica sobre as empregadas domésticas — que ainda entram pela porta de serviço, usam aventais de babados, são quase todas negras e exercem a profissão pior remunerada do país 

Por Nós, mulheres da periferia

Saber o tempero que mais agrada, a dosagem do açúcar ou a preferência por adoçante. O jeito que se ajeita a cama, com ou sem travesseiro. Carregar a mochila da criança, segurar nos braços para atravessar a rua, empurrar o carrinho, curvar o corpo em forma de amparo durante a aprendizagem do caminhar. O cuidado com o quintal, com o cardápio, a feira, o mercado da semana, do mês, da ceia de Natal. Lavar a roupa, estender no varal, passar no dia seguinte. Segurar as sacolas no shopping.

Vão energia, carinho, amor e atenção. Deixam marcas nos joelhos, nas pernas, braços e no olhar. A porta de serviço existe até hoje. A cozinha ainda é o território permitido e os anúncios pedindo mulheres que aceitem “dormir no trabalho e tenham boas indicações” continuam. O quartinho permanece nos fundos, pequeno, estreito. Lá tem a cama, o armário e um banheiro. Normalmente, depois que casa virou apartamento, também é o lugar da máquina de lavar e do varal de teto.

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Clique para ampliar a foto (Levantamento: Nós, Mulheres da periferia)

 

Às vezes usando uniforme totalmente branco, outras vezes azul, bege ou preto com babadinhos. A cultura do trabalho doméstico (mal) remunerado no Brasil representa um conjunto de explorações que, historicamente, obriga mulheres pobres e – em sua maioria – negras a iniciarem a vida ativa do trabalho muito cedo, ainda na infância e na juventude.

Estudo publicado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), em agosto de 2013, revela que o trabalho doméstico abriga uma das maiores categorias de trabalhadores e também o menos valorizada: é a ocupação que apresenta o menor rendimento médio mensal (R$ 509,00) quando comparada a todos os grupos de atividades. A quantia representa 39% da média recebida entre os ocupados, em 2011.

Predominante feminina, a maioria são mulheres negras. Entre 2004 e 2011, a proporção de mulheres negras cresceu de 56,9% para 61% e para as mulheres não negras houve um decréscimo de 4,1%, representando um total de 39% entre as trabalhadoras.

O acúmulo de atividades é corriqueiro e, na maioria das vezes, a nomenclatura não significa limitação da função. Aliás, não mesmo. Nos anúncios: “procura-se babá que faça outras tarefas na casa”. Então, para tornar o termo amplo, definem como empregada doméstica ou “a moça que trabalha lá em casa”.

Em pleno processo de regulamentação total da PEC das Domésticas, quando a grande mídia prioriza discutir quanto o patrão perderá em cifras e não como fazer para se fazer cumprir a lei, refletiremos sobre a rotina, histórias e o que pensam as mulheres que levam as casas de quem ganha milhões nas costas e nas mãos. Mulheres como nossas mães. No mês da mulher, elas serão nossas homenageadas.

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