17 de abril de 2015

Em entrevista à Vaidapé, Natiruts fala sobre campanha de preservação da Chapada dos Veadeiros

Na foto, Luís Maurício, baixista do Natiruts e Alexandre Carlo, vocalista da banda
(Foto: Paulo Bico)


“O reggae desde o princípio trouxe mensagens de conscientização e questionamentos ao sistema predatório em que vivemos”, afirmou Kiko Peres, guitarrista da banda

Por Henrique Santana

A banda de reggae Natiruts e o Instituto Mais Cerrado, uniram forças para a campanha “o berço das águas corre perigo”. Sem fins lucrativos, a ação visa a recuperação da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A bela região da Chapada, com suas serras e  cachoeiras exuberantes, está inserida no bioma mais antigo do país, o cerrado. A área abriga reservas indígenas e comunidades quilombolas, além do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

A região reúne quase 20 mil nascentes e abastece oito das 12 regiões hidrográficas do Brasil. De fato, é o berço hídrico das terras tupiniquins.

A campanha proposta pela banda, busca fazer um contraponto ao ritmo de devastação imposto no cerrado, que não conta com nenhuma lei de proteção da área. A ação convida artistas sensíveis à causa para participar gravando vídeos como forma de protesto e solidariedade ao bioma mais antigo do país. Os resultados podem ser vistos nas redes do Instituto Mais Cerrado.

Com exclusividade, a equipe da Vaidapé conseguiu trocar uma ideia com o guitarrista da banda, Kiko Peres, que falou sobre a ideia do projeto e a importância do reggae na luta por preservação ambiental.

Leia a entrevista:

Foto: Arquivo Pessoal
Da esqueda para a direita, Luís, Kiko e Alexandre (Foto: Arquivo Pessoal)

Vaidapé: Como foi feita essa parceria da banda com o Instituto Mais Cerrado?

Kiko Peres: Um amigo nosso de longa data, o Paulo Fiúza, que está envolvido na causa, nos procurou pedindo apoio para divulgar uma manifestação que ocorreria no Jardim Botânico, de Brasília, para colher assinaturas visando barrar o plano de manejo “funerário” que estavam querendo aprovar para a APA (Área de Proteção Ambiental) de Pouso Alto, que engloba toda Chapada dos Veadeiros e o Parque Nacional. De imediato abraçamos a causa, não só dessa manifestação mas de todo o movimento que visa preservar a Chapada e recuperar o Cerrado. Sugerirmos usar nossos contatos no meio artístico para convidar todos que conhecemos para ajudar a alertar a opinião pública sobre o que está acontecendo e assim impedir mais destruição!

Como você vê a importância da preservação da Chapada dos Veadeiros?

O Cerrado é considerado o berço das águas, onde nascem 3 das 4 grandes bacias hidrográficas do nosso país, e a Chapada dos Veadeiros, em especial, é considerada como uma caixa d’àgua, pois é um dos lugares mais altos e de onde a água escorre para o resto do Cerrado e outras regiões do Brasil.

Como que o reggae se insere nesse contexto?

O reggae desde o princípio trouxe mensagens de conscientização e questionamentos ao sistema predatório em que vivemos. E o reggae do Natiruts sempre fez referências ao Cerrado, nossa terra natal, então é uma música que leva à reflexão e vai além do simples entretenimento.

De que forma o Natiruts pode dar força para essa causa?

O Natiruts atualmente é uma banda respeitada no cenário nacional e até internacional, exercendo influência nos jovens e até em outros artistas. Então, por abraçar uma causa desse tipo, pode abrir os olhos da população e da opinião pública, para que, na calada da noite, não aconteçam atrocidades que afetarão a vida de todos nós!

Perigo no cerrado

O pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Jorge Inoch Werneck Lima, informou à Carta Maior que “ 70% da água que sai na foz do rio Tocantins-Araguaia vem do cerrado, 90% do que sai na foz do rio São Francisco também vem do cerrado e 50% do que sai na foz do rio Paraná, inclusive da água que chega a Itaipu. Toda água que abastece a represa de Três Marias (MG) é do cerrado, 90% das águas que abastecem a represa de Xingó e 70% das águas que chegam a Tucuruí são do cerrado”.

Ainda assim, as águas que afloram do chão seco da região estão sobre iminente perigo – cortesia  da chegada do mórbido “progresso” do agronegócio. O clima estável, as planícies e a desvalorização das terras criaram um terreno propício para a implantação da pecuária e agricultura extensiva.

A invasão dos grandes latifúndios, acompanhada do desmatamento, dizimaram as veias d’água do cerrado. As profundas raízes das plantas retorcidas, deram lugar ao pasto, impossibilitando a chegada de água que abastece os lençóis freáticos e alimenta os aquíferos. O ritmo do agronegócio só cresce e as últimas previsões alertam para a destruição do bioma em menos de 20 anos.

Leia também: Morte e vida pantaneira: Uma denúncia às ameaças à integridade do grande Pantanal

Como complemento, o governo de Goiás encabeça agora um plano de manejo que acelera o processo de definhamento da região. O projeto, que tramita no legislativo, tem entre seus pontos mais polêmicos a permissão para pulverização aérea de agrotóxicos e o aval para implantação de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). O alvo das novas normas é a APA Pouso Alto, com 872 mil hectares – mais de 2% do território do estado. Coincidência ou não, das 19 cadeiras que compõem o conselho responsável pelo plano de manejo, 17 são ocupadas por ruralistas.

Atualmente, 22 PCHs estão previstas para a região da Chapada. O projeto visa a construção de usinas no Rio Tocantinzinho, que alimenta diversas cachoeiras da região.

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Cataratas dos Couros, uma das áreas visada para construção da PCH – Foto: Thiago Gabriel

Enquanto o sudoeste se afunda na maior crise de abastecimento hídrico de sua história, o berço das águas do país corre perigo. Difícil sugar em um canudinho o líquido de um copo vazio.

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