08 de abril de 2015

Em pé de guerra, Jardim União resiste à reintegração

Ocupação de moradia na zona sul de SP sofre com descaso do Estado e pode sofrer reintegração de posse a qualquer momento

Por Patricia Iglecio
Fotos: André Zuccolo

A ocupação Jardim da União, no Grajaú, zona sul de São Paulo, conta hoje com 820 famílias, é organizada de forma autônoma e pode sofrer reintegração de posse a qualquer momento. Durante o ano passado, pedidos de reintegração do governo do estado foram negociados entre o movimento e promotores. A última solicitação, para que as famílias se retirassem do terreno, foi feita em dezembro do ano passado e negociada em 180 dias.

Entenda o funcionamento da ocupação: Jardim União: Na zona sul, uma pequena cidade autônoma

Foto: André Zuccolo

Com o fim do prazo, em março deste ano, as famílias da ocupação estão vulneráveis à autorização da juíza que permite operação da Polícia Militar e podem ser expulsas a qualquer momento.

Tanto secretarias ligadas ao governo estadual, como da prefeitura de São Paulo, alegam que a área é de manancial, por isso deve ser desocupada. O irônico é que o terreno pertence à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), empresa responsável pelo desenvolvimento de moradia para população de baixa renda.

Sandra de Moura, coordenadora da ocupação, aponta que existem promessas a “todos os momentos” por parte das autoridades. A maioria dos terrenos na região são do governo ou da prefeitura, estão ociosos e em processo de desapropriação por compreenderem áreas de manancial.

“Se a área é de manancial, eles tem como quebrar a lei. Está na mão deles [autoridades]. Toda área de Interlagos para cá (extremo sul) é de manancial e aqui tem um monte de prédios. Então, é fácil para as empreiteiras quebrarem a lei”, denuncia a coordenadora da ocupação.

‘Pé de guerra’

A situação de Sonia Santos representa um pouco da realidade das 820 famílias que vivem no Jardim da União. Há dois anos, a sua família, assim como outras 200, se mobilizaram para ocupar um terreno em Itajaí, também na área do Grajaú. A ocupação durou seis meses e sofreu cinco reintegrações de posse. A última, em setembro de 2013, foi muito violenta e destruiu os barracos.

Sonia denuncia que, durante a operação da Polícia Militar, sua neta de cinco anos, Ketly, se machucou e ficou 15 dias internada. “Correndo, enquanto meu filho a arrastava. Ela se machucou muito. Foi um susto. Cortou o pé, bateu a cabeça, desmaiou e foi um trauma”, diz.

IMG_4821

Muitas famílias perderam tudo o que tinham: documentos, móveis e roupas. Crianças e idosos se feriram e passaram mal com as bombas de gás lacrimogênio. Mesmo assim, o movimento permaneceu articulado, ocupou o terreno do Varginha e fundou o Jardim da União, onde vivem até hoje.

Atualmente, nas palavras de Sonia, a ocupação está em “pé de guerra” e pode sofrer reintegração de posse a qualquer momento.

Há um ano, a Vaidapé também colou na ocupação. Leia clicando aqui.

Maria Aparecida trabalha na reciclagem do Jardim da União e é conhecida como Cida, a “manda chuva da reciclagem”, brinca. Ela também foi vítima da violenta reintegração no Itajaí. “Era de bomba de borracha e de cassetete que a gente apanhou lá dentro. Temos medo que isso aconteça de novo. Afinal, aqui tem muita criança”, comenta.

IMG_4610

Cida conta, ainda, que a Tropa de Choque chegou cedo, por volta das 8h, e surpreendeu os moradores. Com um filho de oito meses no colo, ela teve que pular o muro do terreno.

Omissão

A gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) se comprometeu a lançar 55 mil habitações até o final do mandato. No entanto, até agora apenas 3 mil foram entregues à população.

No reintegrado terreno do Itajaí, a promessa era de construção de um parque. No entanto, Sandra conta que o terreno está as moscas e hoje serve como despejo de ossadas.

Manifestação

A ocupação conta com algumas hortas comunitárias, Mariano é um dos moradores da ocupação e cuida de uma delas. Ele relata que, no dia cinco de março, os moradores se mobilizaram e foram até o fórum tentar adiar a reintegração.

A marcha seguiu pacífica, no entanto, a polícia agiu com agressividade e tentou apreender um dos manifestantes que se dispersou do ato. “A PM achou que nóis ia esparramar, deixar o bagulho quieto. Mas não. Foi aí que o povo se uniu mais ainda, descemos até a delegacia e não saímos de lá até soltarem nosso companheiro”, afirma.

Mariano ressalta que o movimento não age com violência durante as mobilizações e que a ocupação quer ter o reconhecimento do governo. “Todo o morador tem direito a moradia. Isso é lei! Nóis só quer que o governo entenda isso!”, explica.

Confira a galeria de fotos:

 

A RUA GRITA

Volta Negra: a história do negro no Centro de São Paulo

Novo ciclo de caminhadas da Volta Negra começa neste sábado e tem atividades programadas para os próximos dois meses