07 de abril de 2015

Hipocrisia hemorrágica

Há sangue em minhas mãos,

por todas as vezes que fui cúmplice.

De crimes.

Do ódio.

Do mal.

 

Nunca matei um negro,

mas já ri de piadas racistas.

Nunca estuprei uma mulher,

mas objetifiquei algumas delas

Nunca agredi um homossexual,

Deus me livre!

Mas já torci várias vezes

Para o meu filho não ser gay.

 

Já vi injustiças acontecendo

E me calei;

Vi o mal nascendo

Nada fiz;

E enquanto ele era regado

Eu olhava para o lado

Mudava de assunto

E até de assento

E deixava pra lá.

 

Há sangue em minhas mãos

 

Sangue de gente inocente

Que por ser “diferente”

Era excluída

E não era vista

Como gente

Como a gente

É.

 

Vejo fantasmas

Daqueles que morreram

E que ainda vivem

No sangue

Que ainda corre

Em minhas mãos

 

E esse sangue

Não seca

Tal como a chaga

Que nunca se cura

Como a fenda

Que nunca se fecha

E como o bem

Que quando não feito

Volta

E te tortura.

 

Há sangue em minhas mãos

Meu próprio sangue jorra

Hipocrisia hemorrágica.

 

Pelos vãos dos meus dedos

O sangue que goteja

Beijando o chão

Avisa-me

Que estou pronto

Para nascer de novo

Um novo eu

Para o povo.

 

Por: Evandro Aranha

Ilustra: Felipe Machado Dutra

 

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