24 de abril de 2015

Rapadura e a construção de um rap com chapéu de couro e sanfona

Por Victor Santos

“Oxente, se oriente” é o que dizia a camiseta de Rapadura. Suas influências vão de Luiz Gonzaga, o rei do baião, aos percursores do rap nacional, como Thaíde e DJ Hum. O rapentista, como gosta de ser chamado, é conhecido pela mistura entre o gênero oriundo dos guetos norte-americanos e os ritmos regionais mais tradicionais do Brasil, como o forró.

Nessa sexta-feira (24), o músico sobe ao palco do Jongo Reverendo, na Vila Madalena (SP), onde convida Zinho Trindade e Marcus Veja Luz. “Falo que vai ser sempre a melhor celebração da minha vida (o show)”, comenta. Encontrou a equipe da Vaidapé no beco do grafite e, durante a conversa, vários transeuntes e os grafiteiros, que pintavam uma das paredes do local, pediram uma rima e mostraram admiração por seu trabalho.

Francisco Igor Almeida do Santos, 30, é Rapadura Xique-Chico. Nascido em Fortaleza, se mudou para o Distrito Federal aos 13 anos, onde vive até hoje. Nesse meio tempo morou em Salvador por 5 anos. Começou no hip hop, dançando break e depois foi rimar. Trabalhou por cerca de 5 anos como apoio vocal de GOG e, em 2007, começou a tocar sua carreira solo.

“Das primeiras músicas que lancei, tem ‘Amor Popular’, com sampler de Luiz Gonzaga, e ‘Partitura de Gravuras Mortas’, um rap underground mais sujo. As duas foram lançadas sem mixagem e masterização”, conta. Seu som foi descoberto e multiplicado na internet. Desde 2009, colhe frutos de seu álbum “Fita Embolada do Engenho”, que conta com grandes sucessos do músico como “Norte Nordeste Me Veste”.

 

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Foto: Victor Santos

No começo de 2015, o cabra lançou “O Terror Parte II”, que faz uma forte crítica ao cenário musical. Atualmente, trabalhou em parcerias e gravou com grandes músicos, como Sombra e MV Bill. Também participou de um projeto com o grupo de rap norte-americano Army Of The Pharaos. Promovido pela gravadora Espelho dos Deuses, o registro une um produtor de Lisboa (Portugal), com outro de Olinda (PE), e deve sair em breve na mixtape do DJ Caique.

Sempre na mistura de rap com repente, Rapadura segue compondo e fazendo shows. No momento trabalha em seu novo disco, valorizando suas raízes.

Leia a entrevista completa:

Vaidapé – Como foi sua primeira interação com o rap?

Rapadura Xique-Chico – Em Fortaleza não tinha esse negócio de rap. Naquela época, era rap brasil, o funk. Esse funk mais antigo, com conteúdo, ‘eu só quero é ser feliz’. Fui conhecer o hip hop no Distrito Federal. Minha família se mudou pra lá em 1997/98. Comecei dançando break, depois fui para o rap. Vi que não tinha muita habilidade com o break e, inspirado por caras como Thaíde e DJ Hum, Câmbio Negro, comecei, a fazer rap. Com 13 anos, ganhei meu primeiro concurso. Eu era a única criança que fazia rap no bairro. Depois não parei mais.

Fala dessa mistura do rap com o repente, que tem até uma origem árabe, né?

Eu fui reparar a semelhança do repente com a música árabe e depois que fui entender a música no todo. Quando eu ouvia música nordestina, aquilo me remetia a outro ambiente. Apesar de falar do sertão e tudo. Depois que eu comecei a ouvir música árabe, vi que as escalas musicais são bem parecidas. Até o canto do aboio tem a ver com o cântico árabe. Nossa cultura tem muita influência dos árabes e da Europa também.

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Foto: Victor Santos

Sobre o som que você faz, qual a relação do rap e do repente, além da rima?

Eu não me intitulo nem repentista e nem MC. Sou rapentista, uma mistura dos dois. A gente se acostumou a ver uma batalha do rap contra o repente na mídia. Sou a favor da união dos dois. Na verdade, o repente é nosso rap desde sempre. O Jackson do Pandeiro, que o pessoal identifica como coco, tem muito do rap. Na minha música, sempre busquei a escrita perfeita, algo que o cordel e o repente procuram. Tem regras de sílabas e de rima, tanto na escrita quanto na sonoridade. A rigidez é tão grande que “alma” e “trauma” não rimam no repente e no cordel, porque trauma é com “u” e alma é com “l”. Na música “Norte Nordeste me Veste”, por exemplo, eu falo ‘ao extremo venho ao terreno me empenho e trampo/ agrônomo/ espremo tudo o que tenho do engenho ao campo /autônomo’.

Eu comecei a colocar o cordel em cima do rap de forma inconsciente. Recentemente, em Brasília, eu e o Chico de Assis, um repentista de lá, fizemos a primeira oficina de rap e repente. Pra quebrar um pouco desse preconceito, porque os mais antigos do repente e do forró não engoliam o rap. Diziam que o rap não é música porque é falado, não tem melodia. Estamos mostrando que, no rap, a gente mexe com a métrica, fazemos crítica política, abordamos ciência e bíblia, várias paradas. Tem que caminhar junto. Hoje em dia eu colo com sanfoneiro, repentista, e esse pessoal tem chegado em evento de rap da molecada mais nova. Acho que o intuito é unir o coco, a embolada e o repente com o rap.

Veja o vídeo clipe de “Norte Nordeste Me Veste”:

O rap, que nasceu com DJ e MC, já vem mudando faz tempo. Muita gente toca com instrumentos. Como você vê esse movimento?

Eu sempre tive vontade de fazer meu trampo com instrumentos vivos. No meu primeiro trabalho, o “Fita Embolada de Engenho”, eu não tive nenhum recurso. Fiz tudo no meu quarto. Peguei sampler da Marinês, do Luiz Gonzaga, verso do Zé Bezerra e juntei com as batidas do rap. Na época, eu não tinha recurso pra chamar sanfoneiro, tocador de pífano. Nem conhecia muita gente da área. Hoje, tenho a oportunidade de trabalhar da maneira que eu sempre quis. Levo quinteto de forró pro palco, junto com DJ, chamo amigos da música pra tocar uma flauta, violoncelo. Com o instrumento tocado você vivifica a música. Humaniza o rap também. É importante ter uma continuidade, mostrar outros trabalhos e não parar em um artista. Trazer gente de Volta Redonda, interior do Rio, outro da Paraíba, um da Bahia e vai juntando. Até porque o público pode não conhecer o som. No palco, eu falo da Marinês, Heleno Ramalho, Banda de Pau e Corda. Eu mesmo participei de dois shows do Criolo. Nisso, o público dele me conheceu. Essa parada tem que estar sempre girando.

Como foi pra se tornar um músico?

Até hoje, posso dizer que fui um artista completamente independente. No meu disco, eu produzi, gravei e mandei para a fábrica. Meu LP e o vídeo clipe também. Hoje tem outras pessoas dando força, mas a construção da casa fui eu mesmo. Carregando nas costas. Enfrentei muito preconceito e muitas portas fechadas. Em 1998, um nordestino fazendo rap era, no mínimo, estranho. Ninguém aceitava um cara de sandália e chapéu de couro fazendo rap na metrópole. Era mais o boné e tênis. A gente trouxe uma nova imagem. Nós, nordestinos, podemos mostrar da onde a gente vem. Trazer o sotaque, a raiz, a essência. No Brasil, cada lugar tem uma identidade, um sotaque, uma vestimenta, um estilo musical. Goiás tem a catira, porque não o rap com catira? Belém tem o carimbó, porque não o rap com o carimbó? Amapá tem o marabachi, porque não o rap com marabachi? Quando fiz meu primeiro disco minha ideia era falar ‘oh! Vamos acordar! Nossa cultura tá morrendo e a gente querendo ser americano, paulista e carioca, enquanto somos nordestinos’.

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Foto: Victor Santos

E o espaço na mídia hoje? Tem espaço para novos MC’s?

As redes sociais e a internet quebraram um pouco do monopólio. Qualquer um pode fazer um vídeo clipe e meter no Youtube. Antes, todo mundo queria ser MC ou DJ. Hoje, o pessoal quer ser repórter, fazer vídeos e fotos. Isso ajuda muito. Também tá muito mais barato, fácil e amplo. Antigamente, a gente não tinha acesso ao que rolava. Perdia shows porque não sabia onde, nem quando. Os shows eram sempre no sudeste também, no nordeste não tinha quase nada.

Você falou do preconceito de ser um nordestino que fazia rap. Como você se insere no meio disso?

Eu fui empurrando meu trabalho goela abaixo, na marra mesmo. Ninguém aceitava. O novo sempre causa estranhamento. Antes de entender uma parada é normal achar estranho. É que nem olhar um grafite e não entender, pode achar que é um monte de letra embolada e não pegar o sentido. A partir do momento que você entende aquela arte, começa a fazer parte daquilo também. Quando as pessoas foram sentindo a minha arte viram que falava de cultura, Brasil, preconceito. Nisso, as portas vão se abrir. Isso também acontece pelo desempenho, dedicação, responsabilidade e o compromisso com o que você faz. Bater de frente não adianta, tem que responder com resultado e trabalho. Graças a Deus, consegui rodar até hoje com o meu trabalho de 2009 e agora estou fazendo um novo projeto, o “Rasga Chão”.

Se fala muito do Brasil como um país dividido, como você enxerga essa questão?

Existem muitas opiniões fragmentadas. Se você for buscar a opinião das pessoas mesmo, vai ver que não tem a ver esse papo de divisão. Ela é mais das pessoas envolvidas com a política do que da população. O pessoal falava muito do preconceito no sul, eu fui para lá algumas vezes e não senti isso, as pessoas me receberam muito bem. Falo do sul porque tem a fama de querer se separar do resto do país. Atualmente, até o pessoal do nordeste fez brincadeira que ia se separar. Mas não tem sentido. Estamos juntos sempre. Se o sul precisar de ajuda o resto do Brasil vai ajudar e com o nordeste é da mesma maneira. Não vejo essa história de divisão com os brasileiros, muito pelo contrário. As pessoas querem se unir e se ajudar.

Veja o vídeo clipe de “Amor Popular”:

Mas nas próprias redes sociais, na época das eleições, por exemplo, foi um festival de preconceito.

Tanto o bem como o mal, a rede social multiplica muito rápido. Quando eu lancei o clipe de “Norte Nordeste Me Veste”, que bate de frente com todo esse preconceito, houve um comentário de um cara arrependido. Ele pedia perdão, dizia entender que tinha sido preconceituoso desde sempre e, aquele clipe, mudou a opinião do cara. Aquilo me emocionou muito. Mudar a opinião de uma pessoa xenofóbica. Fazer entender o preconceito que ela pesava em um semelhante, fazer mudar de ideia e trabalhar pela causa. Da mesma maneira que a gente pode multiplicar o mal, podemos multiplicar o bem. Tem muito fake, muita gente querendo multiplicar coisa ruim que nem existe. Se for buscar mesmo a fundo, vai ver que é gente rica que não sabe o que o povo passa. Muitos falam de protesto, mas não saem do sofá. Nego tomando porrada na rua e o outro no sofá falando de protesto. Na internet, muitas coisas nem se deve levar em consideração.

Considerações finais?

É válido dizer que toda vez que eu toco no nome desses artistas antigos, como Marinês, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Banda de Pau e Corda, eu não estou resgatando a cultura. Cultura não se resgata, ela está sempre viva. É uma maneira minha de manter vivo o trabalho desses pioneiros entre os jovens, para que eles mantenham acesa essa chama. Pra usar um boné na cabeça hoje, muita gente apanhou no passado. É necessário lembrar dessas pessoas, que botaram pedras para que a gente pudesse caminhar. É isso. Oxente, arrente!

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Foto: Victor Santos
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