05 de abril de 2015

Rio de Janeiro tem Semana Santa regada a sangue e sem ressurreição

Ilustra: Vitor Teixeira 


No complexo do Alemão, a Semana Santa ficou marcada em sangue. 51 anos após o golpe de 64, a Polícia Militar segue matando na periferia

Por Henrique Santana

Na última quarta-feira, 1˚ de abril, o golpe de 64 completava 51 anos. Enquanto isso, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) cariocas protagonizavam um verdadeiro banho de sangue nas favelas do Rio de Janeiro. A data caiu em Samana Santa, mas o Complexo do Alemão não estava em clima de festa. O chão da comunidade foi pintado em vermelho: cinco mortos pela Polícia Militar em apenas dois dias.

Às 16h da quarta-feira, um tiroteio já havia deixado duas vítimas. Elizabeth Moura, moradora do Complexo, foi baleada após uma série de disparos contra sua residência. “Pelo amor de Deus, mano. Vem com um carro aqui que a minha mãe foi baleada. Por favor, não é mentira, irmão. Vem aqui de carro socorrer a minha mãe, pelo amor de Deus”, digitava um dos filhos de Elizabeth para um amigo pelo Whatsapp.

Sob a mesma chuva de balas, Rodrigo Farinni, 22 anos, também foi atingido pelas armas dos policiais quando saía de um beco. A perícia  apontou sinais de execução sumária, um tiro na parte de trás da cabeça à queima roupa. Sobre o leito do seu filho, o pai de Rodrigo ainda sofreu com agressões e insultos dos policiais. Em seguida, a população que se aglomerava entorno do corpo foi atingida por bombas de gás e spray de pimenta, disparados pela PM.

Algumas horas depois, mais dois jovens foram assassinados pela polícia carioca. Segundo relatos coletados pelo jornal “A Nova Democracia”, os dois meninos foram colocados no blindado da PM e retirados do local.

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A maratona de mortes não cessou. No dia seguinte, Eduardo Jesus Ferreira, de 10 anos, foi assassinado com um tiro de fuzil na porta de sua casa, também no Alemão. “Covarde! Covarde, desgraçado, maldito!”, berrava uma mulher para o policial que efetuou o disparo, em vídeo registrado logo após o assassinato.

“Foi tiro à queima roupa. Ele estava estudando com caderno na porta de casa. O policial atirou e ficou olhando. Está espalhando para todo mundo que o menino estava com pistola. É mentira. Era estudante. Depois que todos os moradores foram para cima do policial, ele fugiu pela mata”,  afirmou uma testemunha ao jornal “Extra”.

Povo na rua

Na tarde desse sexta-feira (3), moradores do Complexo do Alemão se organizaram em um protesto contra a rotina de terror – cortesia das UPPs – que assola a região.

A manifestação foi reprimida pela PM com balas de borracha e bombas de gás. Uma moradora, atingida por uma das bombas e sofreu graves ferimentos na perna. “Estourou tudo nas minhas pernas. Eu fiquei desesperada, gritando. Eu acho que o que está acontecendo está totalmente errado. Esses policiais vêm aqui só para matar filho dos outros”, afirmou.

Outro morador, que vive no Complexo desde 1979, contou que nunca viu uma situação igual. “Depois da pacificação que começou isso. É só truculência: pega o menor, bate em mulher, bate em todo mundo. Esculacha mesmo”.

O homem também falou da violência diária e denunciou outro assassinato: “Vai lá para cima para você ver. Eles que atiram. Mataram um compadre meu lá na alvorada. O cara era pedreiro, era meu compadre. 59 anos, deixou oito filhos. O cara não sabia nem o que era droga nem o que era arma”.

Outro protesto foi organizado pelos moradores nesse sábado (4), também fazendo críticas às UPPs e a violência policial. A mãe do menino Eduaro, Terezinha Maria de Jesus, ao se deparar com os policiais que faziam o cerco ao protesto, gritou: “Assassinos. Vocês mataram o meu filho”.

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O clima é de guerra nas favelas do Rio. 51 anos após o golpe de 1964, a juventude das periferias segue morrendo nas mãos do braço armado do Estado. Enquanto tramita o projeto de redução da maioridade penal na Câmara, a polícia brasileira se destaca pela sua eficiência em matar.

Segundo o último levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma media de 2.160 por ano. Números alarmantes se comparados a outras regiões. No Reino Unido, entre maio de 2012 e abril de 2013, as armas de policiais efetuaram apenas 3 disparos. Nenhuma morte foi computada.

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