28 de abril de 2015

Série Volume Vivo estreia em SP com nova narrativa sobre a crise hídrica

O diretor da série trocou uma ideia com a Vaidapé e falou sobre a falta de informação nos veículos de comunicação: “A mídia está mais confundindo a sociedade da real gravidade da crise do que esclarecendo”

Por Henrique Santana

Envolto no maior colapso hídrico da história da São Paulo, o diretor Caio Ferraz escolheu o mês de abril para estrear sua série, Volume Vivo. Com quatro episódios, a iniciativa visa construir uma narrativa de contraponto à cobertura superficial dos grandes veículos. Com o aprofundamento da discussão e mapeamento de causas e possíveis soluções para a crise.

O mês da estreia também marca o início do período de estiagem, que se estende até setembro. Passadas as águas de março, a terra da garoa iniciou abril com 34% menos água do que no ano passado. Ainda assim, as chuvas que fecharam o verão anestesiaram boa parte da mídia e pouco tem se falado sobre a crise nos últimos meses.

O primeiro episódio, “A negação da crise”, já está disponível no Youtube e traz um enfoque na resistência do governo paulista em admitir a situação. Além disso, aborda a falta de transparência da Sabesp na divulgação dos índices do sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de 49% da grande São Paulo.

Assista o episódio:

Caio teve a ideia de fazer a série em julho do ano passado, quando percebeu o tamanho e a gravidade da crise.“Infelizmente a gente tem uma falta de entendimento do funcionamento da gestão de recursos hídricos em São Paulo. Para entender a crise é necessário muito mais do que esses factoides que saem nos jornais. É uma coisa muito factual. A gente necessita de um entendimento mais sistêmico da coisa”, afirma.

O diretor já vem pesquisando o tema há algum tempo. Assim, percebeu que o problema ia além dos boicotes de São Pedro e se aprofundava em uma crise de cobertura, de governança, de gestão e de participação social.

“Um dia tem matéria falando que o Cantareira está ficando negativo. No outro, que a Sabesb (Conpanhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) está procurando uma solução. Um está falando da Billings e o outro da Guarapiranga. Os assuntos são entendidos de maneira pontual, quando na verdade estão todos interligados”, exemplifica.

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Em relação ao silêncio, que vigorou na mídia durante os últimos meses, o diretor afirma que a imprensa deu um passo atrás na cobertura. “É como se a gente tivesse superado. Como se as chuvas tivessem acabado com o problema. Mas nós começamos esse ano pior do que no ano passado. Estamos no negativo. Então, na verdade, a gente deveria estar mais preocupado”, explica.

Para o idealizador da série as soluções para a atual situação são complicados pois envolvem diversas áreas de atuação, como a preservação de mananciais, tratamento de esgoto e contenção de perdas. Ações que devem ser feitas em conjunto com a população.

Foto:André D'EliaNo sertão paulista, o chão seco do deserto do Cantareira
Foto:André D’Elia


“É um trabalho muito árduo. Ele só será possível se a sociedade civil tiver consciência do problema e entender essa crise de uma maneira mais complexa. E não deixar essas soluções para o governo. Acho que um dos grandes problemas que a gente tem no Brasil é a falta de consciência pública que acaba deixando as soluções para os gestores. Não se entende muito bem o que é democracia e ficamos nessa lógica de democracia representativa”, critica.

O diretor acredita que a transparência é uma saída para o problema da negação, uma forma de aproximar o governo e os órgãos gestores da população. “É esse diálogo entre Estado e sociedade civil. Enquanto isso não estiver claro e a Sabesp não der informações, acho difícil a gente caminhar para soluções realmente efetivas.”

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Foto:André D'Elia
Cacto aflora na represa do Atibainha (Foto:André D’Elia)

O próximo capítulo, “A água de dentro”, irá ao ar em cerca de um mês, abordando o funcionamento da gestão das águas e a lógica de transposição entre os reservatórios. ”São águas puxadas de outros sistemas em estado emergencial, mas que geram bastante conflito. É como se São Paulo fosse o irmão mais velho e sempre que ele quer alguma coisa ele pode ter.”

Depois é a vez do “De onde vem a água?”, falando da necessidade de preservação ambiental para o abastecimento das grandes metrópoles, explicando o ciclo das águas no país e o papel das florestas nisso.

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Por último, um episódio ainda não batizado que irá tratar da privatização dos recursos hídricos, trazendo prós e contras desse processo e explicando como a água foi se tornando uma mercadoria nas últimas décadas.

Na semana passada foi ao ar o site da série, nele será possível acompanhar as novidades e atualizações do projeto. Clique aqui para acessar o portal.

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