14 de abril de 2015

Terra Livre, Venceremos!

A Vaidapé esteve com as famílias desde a entrada no prédio. Marretas e picaretas deram o tom do início da ocupação que, algumas horas mais tarde, foi desmantelada pela Polícia Militar

Por Iuri Salles e Bel Harari
Fotos: Terra Livre

Na madrugada do último domingo (12), o movimento Terra Livre encabeçou uma tentativa de ocupação em um prédio abandonado no bairro da Liberdade, centro de São Paulo. As bandeiras levantadas são claras: “Luta pela reforma agrária, pela reforma urbana e pela produção sob o controle dos trabalhadores”. O grupo integra uma frente que reivindica moradia digna, do campo às cidades, e atua em sete estados do Brasil.

Pouco depois das 23h, a equipe da Vaidapé se encontrou com os ocupantes, nos arredores do metrô Liberdade. O alvo localizava-se nas proximidades: a Rua Conselheiro Furtado, 648. Um prédio de doze andares, sem uma alma viva dentro. Algumas dezenas de pessoas procuravam chegar rápido ao prédio sem serem notadas. Conseguiram.

Do lado de dentro

Ao entrar no prédio, os ocupantes se dividiram em dois grupos. Um menor, que fez a “vistoria”, para garantir que não havia ninguém dentro do prédio, outro maior, que preparou a barricada, para resistir a iminente chegada da Polícia Militar. Vasos, sofás e pedaços de madeira compunham a barreira que, mais tarde, iria separar os ocupantes dos policiais. As máquinas de uma serralheria, que possivelmente funcionava lá dentro, não foram usadas.

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Mulheres na luta

As mulheres não ficaram de fora do serviço braçal. Carregaram peso, e rápido, até a barricada. “Vai pegar outra coisa, deixa que isso eu levo” me disse uma das ocupantes enquanto descia um sofá, sozinha, escada a baixo.

“A vida da minha filha está no centro, ela precisa de remédios. Morar no centro para mim será ótimo, eu trabalho aqui, e posso conseguir escola mais fácil para ela”, completou a ocupante, que defendia um teto para abrigar suas crianças.

Em poucos minutos de ocupação uma viatura da Força Tática chegou à porta do prédio, afirmando que a ação estava caracterizada como invasão à propriedade e todos teriam de sair. O policial responsável pela operação foi totalmente autoritário e não levou em consideração nenhum dos argumentos expostos pelos ocupantes. Resultado: a barricada foi reforçada e os militantes prometeram mais resistência.

Com a chegada da PM, o clima de euforia foi se dissipando e dando lugar à insegurança. Os idosos foram os que mais sentiram a presença dos policias. Um senhor, que aparentava ter uns 70 anos, me perguntava com certa freqüência: “Se eles conseguirem entrar, eles não vão bater na gente, né? A gente vai poder sair numa boa? Eles não tem esse direito”.

Depois algumas tentativas fracassadas da polícia em arrombar o portão, o Corpo de Bombeiros foi acionado. Quando os bombeiros começaram a tentar derrubá-lo, a primeira reação dos ocupantes foi de resistir como fosse possível, no entanto, após uma rápida assembleia, ficou decidido que a resistência seria pacífica, em respeito as crianças e idosos que também estavam presentes.

Às 4h, a porta havia sido removida. Os PMs carregaram os objetos para o lado de fora, derrubando, lentamente, a barricada. O grupo começou a desocupar o prédio, não sem antes passar pela revista. Jornalistas, ocupantes, militantes; nem mesmo as crianças escaparam da abordagem da PM.

“Ao menos 100 famílias poderiam morar ali no prédio. Tinha gente de outras ocupações, gente que mora no centro e não aguenta mais pagar aluguel”, disse Luciano, um dos que lideravam a tentativa de ocupação.

Segundo dados do Secovi (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais), o aluguel de um imóvel no centro de São Paulo, de dois cômodos, com 55 m², custa em média R$1.600. Vale ressaltar que o preço da moradia no centro da cidade é muito maior que o próprio salário mínimo, e não é justo que a classe trabalhadora seja forçada a ficar afastada dos seus postos de trabalhos, pela especulação imobiliária. O levantamento do jornal O Estado de São Paulo, aponta que trabalhadores de zonas periféricas demoram até 163% mais para chegar do trabalho até a residência do que moradores das partes ricas da cidade.

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Do lado de fora

A equipe da Vaidapé também acompanhou a empreitada policial do lado de fora do prédio. Feita a ocupação, pouco tempo se passou e se ouvia o barulho das viaturas: um, dois, quatro carros se aglomeraram em frente ao número 648 da rua Conselheiro Furtado.

Os policiais tentaram forçar o cadeado com um alicate de ferro. A tensão do lado de fora do edifício aumentava proporcionalmente às tentativas frustradas da PM de abrir a porta. Um ou outro, mais exaltado, forçava com as próprias mãos, num esforço débil em entrar no prédio ocupado.

“Trás um alicate maior!”, disse um PM. E nada da porta abrir. “Sai daí, não pode filmar perto”, gritou o comandante para uma das integrantes da equipe da Vaidapé. Um policial de quase dois metros de altura joga todo o peso do corpo sobre a haste do cadeado, que não cedeu. “Para de filmar porra! Sai daí que você vai se machucar!”, insistiu. “Não vou sair, estou trabalhando”, respondeu a jornalista

Pouco tempo depois, chegou o carro dos bombeiros, que levaram o encarcerador, instrumento usado pra cortar lataria de automóvel. De nada adiantava alegar a falta de mandato judicial para operação, a PM ia entrar de qualquer jeito. Cinco, seis, nove viaturas se acumularam na beirada da calçada. “Tem criança lá dentro, tem trabalhador”, denunciava uma mulher. “Olha moça, a gente tem que tirar. Vocês podem facilitar o nosso trabalho e falar para eles abrirem a porta”, insistia o PM. “Ninguém vai abrir, se quiser entrar vai ter que arrombar”, resistia a ocupante.

“Vagabundos, saiam do meu prédio!”, gritava um homem de branco enquanto esmurrava a porta. Sérgio, que ora se identificou como proprietário do imóvel e ora como zelador, era o único civil a furar o cordão de isolamento, colocado pela PM, entorno da entrada do prédio. Quando o advogado do movimento se aproximou pra conversar, Sérgio avançou e lhe deu um soco na cara. “Que advogado porra nenhuma, quem você pensa que é?”, dizia.

Após ser agredido, o advogado deu voz de prisão para Sérgio, no entanto, o comandante responsável se recusou a detê-lo, o que caracteriza crime de prevaricação ou condescendência criminosa.

AO invés de ser colocado em uma viatura rumo à delegacia, Sérgio foi levado para um canto por policiais que tentavam acalmá-lo. “O que você está filmando, porra? Não sabe que jornalista tem que respeitar um perímetro para filmar?”, impôs o policial, novamente, à jornalista da Vaidapé. “Olha senhor, eu nunca ouvi isso na minha vida, estou aqui fazendo o meu trabalho”, respondeu. Mais uma vez, o PM ordenou: “Tem isso sim, eu sei. Sai daqui já se não vai se arrepender”.

Sérgio fumava um cigarro depois do outro. “Vou tirar eles de lá na força, se a polícia não tirar eu tiro”, dizia. Os policiais aguardavam a ordem do comandante pra abrir a porta. Mais viaturas, mais policiais, alguns deles se posicionam na frente da porta com seus escudos, outros exibiam os cassetetes e armas. “Quer filmar a minha cara? A minha identificação? Filma aí”, ameaça avançar pra câmera.

Já com o “encarcerador”, os PMs forçaram o cadeado, que cedeu. A barricada construída pelos ocupantes do prédio impediu, pelo menos por hora, que a polícia invadisse o edifício. A porta emperrou nos objetos, foi necessário tirar coisa por coisa: sofá, pedaço de madeira, vaso. Rapidamente, os objetos da barricada, componentes da tal propriedade privada, foram jogados ao lado da entrada do prédio.

Depois, os integrantes do movimento foram retirados um a um, de mãos dadas, e cantando palavras de ordem. Mesmo tirados a força, não resistiram. O comandante bateu com o cassetete para que os dois primeiros da fila soltassem as mãos. Começou a revista. Advogados e jornalistas impedidos de se aproximar.

Uma mulher é arrastada por resistir, “Segura ela! Pega a algema!”, foi detida e encaminhada para a delegacia junto com um integrante do movimento. Denúncias de agressão verbal são relatadas aos gritos e os ocupantes pediam para que os jornalistas filmassem. “Sai daí, jornalista não pode passar pelo cordão”, gritavam os PMs durante a operação. Uma mãe se retirou do prédio com seu filho no colo e um dos policiais ordenou que ela passasse a criança para outra pessoa para que eles pudessem revistá-la.

Fazia frio e uma menina de dez anos estava sem casaco. “Passa essa blusa para ela policial, por favor”, pediu um dos militantes. Só depois de muita insistência, o PM cede e entrega o agasalho. Duas mulheres passam mal e ainda sim demoram para ser liberadas. “Ela tem problema cardíaco moço, e se tiver tendo um infarto?”, denunciavam.

Aos poucos, são liberados, não sem antes entregar o número de identidade pra serem contabilizados na lista do polícia. “Nunca passei por isso, estou cansada, quanta violência”, desabafa uma senhora.

Por volta das 5h, o grupo foi liberado, em sua maioria voltaram para outra ocupação perto da Marginal Pinheiros, apesar da tristeza, todos saíram com a certeza que a luta continua!

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