08 de maio de 2015

‘A terra é para todos. Nenhum de vocês deve ter ciúme da terra’

Indígenas são reprimidos em protesto no planalto central em maio de 2014
Foto: Mídia Ninja

A data de reintegração de posse da aldeia Guarani de Itakupe, no Jaraguá, já está marcada: acontecerá entre 25 e 29 de maio se não houver decisão de suspensão da liminar cujo recurso tramita no Supremo Tribunal Federal ou assinatura do ministro Eduardo Cardozo na portaria que dá prosseguimento à demarcação das terras

Por Adriana Carvalho nos JornalistasLivres

Do lado de fora do 49 Batalhão da Polícia Militar de Vila Clarice, na região noroeste de São Paulo, um círculo de Guarani Mbya se forma. Começam a cantar ao som de violão e viola. Eles estão rezando. A Nhanderú, o “Deus Verdadeiro”, aquele que disse: “A terra é para todos. Nenhum de vocês deve ter ciúme da terra”. A fumaça dos petengua, o cachimbo tradicional, faz parte do ritual. Estão rezando porque lá dentro, em uma sala do batalhão, seus líderes estão reunidos com advogados, oficial de justiça, representantes da PM e com o homem que alega ser dono das terras onde eles vivem e plantam. É o ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Antonio Tito Costa, que chegou acompanhado de dois filhos. Está lá também o secretário dos Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy.

Enquanto os Guarani cantam, ouve-se das matas que cercam o batalhão o grito dos PMs que participam de um treinamento ali perto. Geni, sentada na grama aperta as mãos nervosa: “São meus filhos que estão aqui lutando ao lado do avô (o Cacique Ari) para não tirarem a nossa terra”. Ao lado dela, Richard, de apenas 12 anos, acompanha tudo com ar tranquilo. Mas só na aparência. Na primeira reunião realizada no Batalhão há duas semanas, era ele que esperava na aldeia e que perguntava ansioso: “Quando a PM vai vir tirar a gente daqui?”. Richard e Geni, para que fique bem claro, são seus “apelidos” em português. Todos os Guarani Mbya do Jaraguá tem seus nomes na cultura original, mas adotam os “apelidos” para facilitar a convivência com os “juruá”, como são chamados os não-indios.

Foto: Comissão Guarani Yvyrupa – CGY

Hoje veio a resposta para a pergunta de Richard. Os PMS irão a Itakupe — que para Antonio Tito Costa chama-se Gleba Jaraguá — entre 25 e 29 de maio para executar a ordem de reintegração de posse. O resultado da reunião desta terça-feira só muda se houver suspensão da liminar que autorizou a reintegração e a decisão para tanto está nas mãos do Ministro Ricardo Lewandowiski no Supremo Tribunal Federal. O resultado também muda se o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, assinar a portaria declaratória que dá prosseguimento à demarcação dos 532 hectares reconhecidos pela Funai como Terra Indígena (TI) tradicional dos guarani, fundamentada em um estudo de 10 mil páginas divulgado em 2013 depois de 11 anos de estudos. A “Gleba Jaraguá” , que inclui a área de moradias e plantação em Itakupe, se constitui de 72 hectares dentro da TI.

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Todos os Guarani, e não só os do Jaraguá, dizem que vão resistir à retomada das terras se a reintegração de fato acontecer. “Somos dois mil Guarani Mbya em São Paulo e vamos resistir”, diz David Martim, um dos líderes, ao sair da reunião. Enquanto David fala, Antonio Tito Costa vai saindo pela lateral, mas é parado pelos jornalistas. Repete o que disse na reunião anterior, que não pretende construir “condomínio de luxo” na região, que está fazendo estudos sobre o que fazer com as terras, talvez uma plantação de eucaliptos (um de seus filhos já é dono de uma empresa de cultivo de eucaliptos em Torrinha, cidade natal de Tito Costa, no interior paulista). “Mas os eucaliptos secam as nascentes e deixam as matas sem vida”, diz o ativista Adriano Sampaio. “Não vou ficar aqui discutindo com vocês”, diz Tito Costa, já de saída.

Eduardo Suplicy também sai para dar entrevista e diz que esteve tanto na aldeia conversando com o Cacique Ari quanto na casa de Antonio Tito Costa, buscando um entendimento. Disse que está em conversas com o ministro Eduardo Cardozo, procurando uma solução.

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 Mapa da Terra Indígena Jaraguá

 

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