06 de maio de 2015

“A vida piora para depois melhorar”, afirma universitário sobre se assumir homem trans

Por Neto Lucon do NLucon

Theo Barreto é um carioca sangue bom. Tem 22 anos, é estudante de serviço social na UFF e trabalha como assistente administrativo na Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. E, sim, ele é um homem trans.

Recentemente, Theo publicou fotos da cirurgia de mastectomia masculinizadora (a retirada dos “intrusos” ou seios). Recebeu inúmeros comentários positivos e mostrou estar completamente feliz com mais uma etapa de sua transição.

Bonito, sarado e cheio de tatuagens pelo corpo, o universitário ainda estava em recuperação quando foi convidado para relatar aos leitores do NLUCON detalhes da experiência de transição. Aceitou na hora, a fim de retribuir a contribuição que um dia teve das experiências de outros trans.

Veja também: Vaidapé no Quintal convida: Laerte Coutinho

Com muita sinceridade e tocando em pontos importantes sobre a trajetória, ele fala sobre a identidade masculina, o contato com a mãe, a ajuda de amigos, experiências na rua e cirurgias.

Abaixo, mais exemplo positivo para todos os meninos e meninas que buscam a auto aceitação.

“Começar a transição foi a coisa mais fiel que eu já fiz por mim. Tratava-se de me perceber, de me escutar e de me entender. De outro jeito, pois do jeito que os outros sempre disseram para eu ser não ajudava em nada. Minha mãe esperava que eu usasse um vestido. Eu esperava crescer e usar as roupas do meu irmão e dos meus primos, para parecer mais com eles.

Todos os dias ela encrencava com minhas roupas, mas de alguma forma ela vislumbrava o que acontecia, talvez até antes de mim. ‘Daqui a uns dias vocês vai estar coçando o saco’, ela dizia, ‘Qual é o próximo passo? Colocar uma meia nas calças?’… Enfim, ela sabia. Ela se mantinha cega pra isso e lutava contra, sempre tentando me feminilizar.

E eu não tinha nome para dar ao meu sentimento de não pertencimento ao gênero feminino, às roupas que ela me impunha, ao comportamento das garotas…

Isso me deixava bastante sozinho e deslocado. Nunca me apresentaram a opção ‘trans’. Quer dizer, eu NUNCA fui uma mulher, isso é bem claro pra mim, mas não sabia o que fazer com esse tal inquietamento.

Até que um dia uma amiga me mostrou o blog de um cara trans [o polonês Oliwer, leia entrevista com ele clicando aqui]. Esse blog era seu diário (t journal) e todas as pastagens eram sobre a transição dele. Eu entendi tudo desde a primeira vez. Entendi que eu era como ele. Ver o blog dele me dava esperança.

Desde o verão de 2013 eu sabia que as coisas não precisavam ser como sempre foram, eu soube que eu podia ser feliz, como aquele cara do blog. Tudo que eu precisava fazer era ‘ser’. Só que SER desse jeito que eu queria me dava muito medo, tinham muitas coisas envolvidas…

MINHA MÃE VAI MORRER QUANDO SOUBER

‘As pessoas vao achar que eu estou maluco. Muita gente vai deixar de falar comigo. Será que eu tô maluco? Minha mãe vai morrer quando souber. Nunca vou poder fazer isso antes dela morrer. Como vai ser no trabalho? Na faculdade?’ A maioria desse grilos eu consegui eliminar fácil.

Melhor mesmo não ter por perto quem não quiser falar comigo por eu assumir minha identidade trans. No trabalho, na faculdade, em qualquer espaço, é só eu me impor e pronto. As pessoas não tem que escolher se elas querem me respeitar ou não, eu exijo e mereço respeito como qualquer ser humano.”

Confira a entrevista completa no site NLucon