18 de maio de 2015

No extremo sul, uma ilha resiste com rap, educação e comunicação


Na zona sul de São Paulo surge a Casa Ecoativa. Lá, cultura, mídia independente e desenvolvimento sustentável coexistem em um espaço de aprendizagem e vivência nas margens da represa Billings  


Por Henrique Santana / Fotos: Victor Santos

No extremo sul de São Paulo, a estrada de Itaquaquecetuba apresenta muita arte urbana pelo caminho. Na beira da represa Billings, os transeuntes se deparam com uma balsa. É o “portal” para a Ilha de Bororé. Quem atravessa já avisa: “Do outro lado a vida é diferente, tem que ir com calma, não é essa correria toda”. De fato. Em contraste com o cotidiano difícil da zona sul, a mata verde e as águas que circundam a ilha transformam quem cruza para a outra margem.

Localizada em uma Área de Preservação Ambiental (APA), a aparência da região é pacata, mas Bororé pulsa. Um terreno movimentado com atividades culturais no passado, estava há oito anos inativo e sem nenhuma função. Hoje, o local se tornou um centro eco-cultural, ocupado pela Ecoativa, que funciona a todo vapor.

Vista aérea da Ilha de Booré – Foto: APA Bororé- Colônia

Tudo começou com um processo de mobilização comunitária que uniu grupos culturais e se consolidou em uma casa com vida própria. No fundo do terreno, o projeto de permacultura – técnica sustentável de agricultura – começa a ganhar seus moldes. Do lado direito da casa, uma cisterna foi construída para coleta de água da chuva.

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A arte da cisterna da casa Ecoativa ficou por conta do grafiteiro Mundano

A cultura também aflora com força. Todo mês tem sarau, com direito a fogueira, feira livre e oficinas. Mas a Ecoativa não para por aí.

MÍDIA LIVRE NA CASINHA

A comunicação é a mais nova iniciativa do caldeirão eco-cultural. Com dois meses de vida, o projeto Ecolab deu início a um novo ciclo nas diversas iniciativas do grupo, iniciando a formação de comunicadores na ilha de Bororé. A ideia é fazer com que jovens se empoderem das técnicas de comunicação e construam, a partir daí, suas próprias narrativas.

Dos 15 que começaram as atividades três ficaram. “A gente ficou com três jovens, mas a formação deles foi muito forte”, conta Thiago Ferreira, um dos idealizadores do projeto.

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A formação final resultou no trio: Wesley Teixeira, de 14 anos, Victoria Gama, 14 , e Guilherme Pontes, 16. O time teve aulas de edição de vídeo, fotografia, estêncil e ainda foi a campo para fazer reportagens e intervenções artísticas na região.

Os reporters do Ecolab - Foto: Victor Santos Os reporters do Ecolab - Foto: Victor Santos Os reporters do Ecolab - Foto: Victor Santos
Os reporters do Ecolab - Fotos: Victor Santos
Os reporters do Ecolab – Fotos: Victor Santos

Além das vivências, o bimestre de atividades rendeu a criação de uma fanzine, batizada de “MídiArt”, que circulou entre os estudantes da escola estadual que fica na ilha.

‘MAIS UMA VÍRGULA’

No final de abril (30), um grande evento de encerramento marcou o “fim” das atividades do Ecolab na ilha de Boreré. A iniciativa agora parte sentido Parelheiros, com atividades no Centro Educacional Unificado (CEU) da região.

Jaison Lara, também idealizador do projeto, nascido e criado em Bororé, abriu a festa. Na escola estadual, comunicou para as diversas alunas e alunos que se aglomeravam no pátio: “Esse momento é para vocês verem o que a gente está fazendo. E, principalmente, chamar mais. A gente está fazendo um convite para vocês colarem junto. Isso aqui é mais uma vírgula no que está sendo escrito. Vamos continuar. Aqui terminou? Não. Está só começando”.

Veja como foi: Ecolab vai ao Calçadão Cultural do Grajaú 

Mesmo indo para Parelheiros, a ideia é manter a conexão com a ilha, levando os jovens comunicadores para pautas que vão além das fronteiras do Grajaú.

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“Isso aqui é mais uma vírgula no que está sendo escrito”, afirma Jaison – Foto: Victor Santos

Depois das falas iniciais, Wesley, Victória e Guilherme contaram de suas impressões e dificuldades do primeiro bimestre de formação e responderam perguntas da platéia.

“Ecolab é um curso? Não, é uma vivência. Aprendemos desde editar um vídeo até fazer uma fanzine”, conta Victoria. Guilherme apontou para a expansão de horizontes que as atividades proporcionaram. “Esse projeto se destacou por ser completamente diferente dos outros. O Ecolab é chance de conhecer – apesar dos defeitos – as qualidades da nossa cidade”, afirma.

A fanzine MídiArt, produzida pelos jovens jornalistas do Ecolab
A fanzine MídiArt, produzida pelos jovens jornalistas do Ecolab

A professora Rose Silva também gostou da iniciativa e viu nela uma nova forma de cativar os alunos. “Esse tipo de evento só acrescenta no aprendizado do aluno. Mostra as diversas formas que ele tem de aprender”, disse.

Thiago falou que a ideia é ir além dos jovens e chegar nos pais e na própria escola. “O projeto é para impactar todo mundo. E o meio para isso é a informação. A informação alternativa. O que não é só Globo, o que não é só Veja. A gente vive um cenário hoje, principalmente na política, em que só um lado tem voz”, critica.

NA MÚSICA TAMBÉM SE APRENDE

Para fechar com chave de ouro, um show de rap de Robsoul abalou os corredores da escola. O rapper falou sobre importância de manter vivas a raízes culturais dos negros e chamou atenção para a violência policial e o genocídio contra a periferia.

E o rimador concluiu: “Fiquem vivos. Fiquem vivos! A única forma de se continuar lutando é se manter vivo”.

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Robsoul solta o verbo para a mulecada da escola estadual da ilha de Bororé Foto: Victor Santos

Veja Mais fotos:

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