26 de maio de 2015

Sem polícia não tem treta: Marcha da Maconha SP é a maior da história

Foto: André Zuccolo

Segundo os idelizadores, a Marcha da Maconha 2015 em SP é a maior da história do Brasil em número de participantes

por Talula Mel

Vinte e cinco minutos de câmera parada, na esquina da Paulista com a Augusta, filmando a manifestação passar. A Polícia Militar fala em 4 mil; já os organizadores estimam que 20 mil pessoas foram às ruas de São Paulo neste sábado, 23 de maio, marchar pela legalização da maconha.

Como disse o historiador Henrique Carneiro, professor da USP e membro do NEIP (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos), “são milhares que representam milhões”. O ato se concentrou no MASP e saiu, às 16h20, em direção ao Largo São Francisco, no centro da cidade.

Os manifestantes não paravam de chegar e a criatividade encontrou espaço no vão livre do museu, que se enfeitou de faixas, bandeiras, flores e cartazes. Também foi levado um boneco gigante em homenagem a Ras Geraldinho, preso em 2012 por cultivar maconha em sua igreja rastafári.

Durante o percurso, nenhum sinal de violência e repressão. A organização da Marcha escreveu uma carta aberta de “desconvite” à Polícia Militar, afirmando que o movimento poderia fazer sua própria segurança (ver aqui). Com famílias, crianças e até cachorros, a pluralidade e a diversidade marcaram o movimento que, afinal de contas, tem suas raízes na luta pelo pleno direito às liberdades individuais.

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Fotos: André Zuccolo

O coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR), um dos responsáveis pela construção e organização da Marcha, tem esse nome justamente por defender que somente uma razão entorpecida – pelo senso comum e ideologia dominante, construída à base de estereótipos – pode ser capaz de defender a proibição das drogas como solução para o problema da violência gerada por ela própria.

No Brasil, 56% dos homicídios têm ligação com o tráfico de drogas. No ano passado, 801 pessoas foram mortas por policiais militares em São Paulo, um aumento de 80% em relação ao ano anterior, segundo dados da Ouvidoria da Polícia do Estado. A nossa população carcerária chega a 700 mil, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Rússia. Pelo Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça, o número de presos por tráfico de drogas triplicou entre 2005 e 2013, passando de 50 para 150 mil.




Fotos: André Zuccolo

Analisando esses números, percebe-se que, nesta guerra, os alvos têm classe e cor da pele definidos: a grande maioria é formada por jovens pobres e negros, moradores das periferias de todo o país. O encarceramento em massa e a criminalização da pobreza são algumas das consequências decorrentes da atual política de drogas.

A quem interessa essas proibições?

Já passando pela avenida Consolação, mais precisamente em frente à ocupação artística da Casa Amarela, a marcha parou para repetir, em uma só voz, as palavras lidas por Gabi Moncau e Gigi Lousi, militantes do movimento feminista e antiproibicionista. Nesse momento, ficaram marcadas as pautas que levaram aquelas milhares de pessoas às ruas: “Não é só pela liberdade de consumo, pois nós já consumimos (…) é pelo fim da violência, é contra o racismo, homofobia e machismo, contra a militarização da polícia e pelo direito de decidir sobre nossos próprios corpos”.


Foto: André Zuccolo

Esse é o quarto ano do Bloco Feminista na Marcha da Maconha. Como afirmou uma das organizadoras, “é importante aproximar a luta antiproibicionista das lutas por igualdade e liberdade”. Dentre as pautas comuns, a proibição do aborto e sua ligação à proibição das drogas: “São, mais uma vez, as mulheres pobres, pretas e periféricas que sofrem as consequências mais duras. Pois morrem ou ficam estéreis todos os dias, em decorrência de abortos clandestinos. Ou são presas por ousarem decidir sobre seus corpos. Por isso nos agarramos à nossa autonomia e enxergamos as lutas feminista, antiproibicionista, LGBTTI e anti-racista como lutas inseparáveis”, afirmam coletivamente as integrantes da ala.







Fotos: André Zuccolo

Duas intervenções marcaram a chegada do movimento no centro: a projeção de imagens no prédio da Secretaria de Segurança Pública, com dados de mortes decorrentes do tráfico de drogas e da ação da polícia; e a transformação da estátua de José Bonifácio, na Praça do Patricarca, que ganhou uma saia de tecido e um grande baseado, produzidos pelo Bloco Feminista. Ao final da intervenção, o grito de guerra ecoou: “ventre livre, cabeça feita!”.

Intervenção do Bloco Feminista na estátua de José Bonifácio, na Praça do Patricarca – Foto: Talula Mel

O público da Marcha esse ano se superou em números e em diversidade. Os organizadores avaliam que havia mais gente de todas as zonas da cidade, sobretudo das periferias. Durante todo o resto do ano é feito um trabalho de formação por parte dos coletivos envolvidos, na intenção de fomentar a discussão e levar o debate da guerra às drogas a ocupar todos os espaços da sociedade. “A gente defende alternativas construídas pelo diálogo e pela mudança de mentalidade. Acreditamos que a luta social, a militância e a sociedade civil têm que pressionar nossos governantes para uma mudança na lei de drogas, e não o contrário”, afirma Gabi Moncau, integrante do Coletivo DAR.




Fotos: André Zuccolo

A chegada no Largo São Francisco, ponto final da manifestação, reuniu as milhares de pessoas em uma grande festa de encerramento. Ao som dos mcs Sombra, Caiuby e Flora Matos, os manifestantes confraternizaram até o último sinal de fumaça se esvair pelo centro da cidade.

Algumas Horas antes da Marcha, um ato contra a Monsanto também compôs com a manifestação pela verdinha. Veja algumas fotos.
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