12 de junho de 2015

Lambada punk


“Lambada Quente”, disco de estreia do duo alagoano Figueroas, presta uma homenagem ao ritmo paraense influenciado pela atitude “Do It Yorself”, típica do punk


Por Leonardo Fernandes
Fotos: Reprodução

Givly Simons se contorcia.  Num arremedo de sexy, o vocalista do Figueroas bailava sem sair do lugar. Passos pequenos e repetitivos, um dois, um dois, um dois. Os braços gingam com o microfone em punho, fazendo as vezes de par nessa dança solitária. A guitarra sola frenética, galopando (ou melhor, o playback de um som de guitarra), mas o músico permanece seguindo seu ritmo: desengonçado, estranho, único.

Foi assim nosso primeiro encontro com o lambadeiro alagoano, durante show no Bar Secreto, em São Paulo, no mês passado. Esperávamos um meme da internet e saímos convencidos após meia dúzia de músicas dubladas ao microfone: estava ali a definição do que é ser original, em pleno karaokê.

“Melô do Jonas/ Melô do Jonas/ É o melô que te deixa dançando por várias horas/ LAMBADA QUENTE, AAAAIII”, gritava, retesando cada músculo do corpo magro e tatuado. Puta que pariu, qual era a desse cara?


Foto: Alyona Gamm

Implicância ou não, a verdade é que a fama de viral nas redes sociais de Givly depunha contra a banda. Com apenas seis meses de formação, o duo de Maceió, que ainda conta com o tecladista e produtor Dinho Zampier, alcançou 150 mil visualizações no Youtube com .

O humor é um dos principais atrativos dupla. O jeito esdrúxulo de Givly garantiu visibilidade em sites como Kibe Loco e Não Salvo, além de uma participação como calouro no Programa do Ratinho, no qual Givly é nocauteado por uma gigantesca mão de gorila cenográfica. Ou seja, parecia que mais uma vez alguém estava tirando onda, como naquela propaganda engraçadinha de cerveja com o Beto Barbosa.

Sem contar que, guardada as devidas proporções, essa história soava familiar. Em 1989, a lambada – gênero que surgiu no Pará nos anos 1970, a partir da mistura do carimbó e ritmos caribenhos como a cúmbia, o zouk e o merengue – virou febre graças ao grupo franco-brasileiro Kaoma e seu one hit wonder “Chorando se foi”, que apresentou a moda à Europa e aos Estados Unidos. A partir daí, deixou sua marca na cultura pop na década de 1990: de tema de abertura da novela “Rainha da Sucata”, com “Me Chama Que Eu Vou” de Sidney Magal, até os péssimos filmes americanos “The Forbidden Dance” e “Lambada”. Entretanto, para os músicos paraenses só sobrou ostracismo.

ENTRE O CAFAJESTE E O ABSURDO

“Eu amo a lambada, o que eu tento fazer com o meu trabalho é uma grande homenagem. Não acho que o que eu estou fazendo é muito diferente do que o pessoal que criou a lambada fazia. O humor sempre esteve presente. O Pinduca de sombreiro, as letras de putaria do Alípio Martins. O Alípio até tocou num programa dos Trapalhões”, enumera Givly Simons.

O disco de estreia do Figueroas, batizado de “Lambada Quente”, não tenta reinventar a roda. Na verdade, se esforça ao máximo para seguir a fórmula que consagrou o estilo: a guitarra solo em destaque, à frente do som; acrescida dos teclados sintetizados, uma herança da época da Jovem Guarda; e a percussão típica do carimbó, ritmo regional paraense de matriz africana e indígena. Em resumo, música dançante, sem pretensão além da pista.

A faixa de abertura “Gatinha Gatinha” praticamente resume o espírito do disco. É uma melodia chiclete, extremamente pop, acompanhada de uma letra que oscila entre o cafajeste e o absurdo. “Vem gatinha no meu ouvido, me faz miau/ vem gatinha no meu ouvido que eu faço au au”, diz o refrão.

“Eu não escrevo uma letra porque ela é engraçada, o lance é mais psicodélico, da sonoridade das palavras. Eu componho as músicas com letras pequenininhas, quase um bordão. Elas são um mero detalhe. Meu sonho sempre foi botar a lambada com órgão, metais, como se fazia antigamente. É um resgate de como os ‘tiozões’ faziam”, afirma Simons, sempre num tom nostálgico, apesar dos 21 anos idade.

Também há surpresas. É o caso de “Bangladesh”, no qual o nome do país asiático é repetido à exaustão durante o decorrer da música, como em um mantra. A faixa flerta com a psicodelia, vide as guitarras distorcidas e o vocal espacial, e ganhou um clipe tão estranho quanto: é basicamente Givly dançando à la ‘Coisinha de Jesus’ em um campo de futebol.

O que o Figueroas traz de novo não reside exatamente no som, mas na atitude. Lançado pelo selo de hardcore capixaba Läjä Records, “Lambada Quente” é um trabalho produzido sob o ethos Do It Yorself do punk.

Gravado em meros quatro dias no mês de fevereiro, no estúdio Costella, em São Paulo, o álbum segue em ritmo frenético por meia hora, engatando as onze músicas sem muito tempo pra respirar. “Gatinha Gatinha”, por exemplo, é de Fábio Mozine, integrante dos grupos Merda e Mukeka di Rato; Chuck Hipolitho, ex-VJ da MTV e membro do grupo Vespas Mandarinas, é responsável pela coprodução do disco.

“Eu não escrevo uma letra porque ela é engraçada, o lance é mais psicodélico, da sonoridade das palavras. Eu componho as músicas com letras pequenininhas, quase um bordão. Elas são um mero detalhe”

Uma banda foi reunida exclusivamente para a produção do disco, composta pelos músicos alagoanos Rafa Moraes (guitarra), Raphael Coelho (bateria e percussão), Felipe Barros (baixo) e Natan Oliveira (sopros). O trabalho ainda conta com a participação de Wado, Cris Braun, João Jones e Alvinho Cabral. Os músicos foram arregimentados, em grande parte, entre os amigos de Dinho Zampier, que também integra a banda do Wado. Mais um dos inúmeros encontros inusitados da lista do Figueroas, que pra completar, ainda pegou o nome da banda emprestado do uruguaio Jesús Figueroa, lenda local do rock e do blues.

Foto: Reprodução/ Facebook

“Lambada Quente” foi lançado em abril sem muita pompa em formato CD-R e com encartes impressos a jato de tinta, no melhor estilo CD pirata. No próximo mês, o álbum vai ganhar uma versão em LP, com prensagem limitada de 300 exemplares. Nada mal pra uma banda que foi formada há apenas seis meses.

‘É OK SER BREGA’

Apesar da adolescência roqueira como integrante das bandas Stick Garden e Gatinhas e Sorvetes, Givly Simons se reinventou em 2013. “Foi meu ano sabático, totalmente recluso. Eu estava na fossa e a lambada foi minha fiel companheira. Acabei impregnado. Percebi que meu lance não era o rock, aceitei a minha porção brega”, define, entre risos, aproveitando pra revelar num muque a tatuagem no braço: a palavra BREGA em caixa alta e ornamentada por corações.

A transformação foi tão profunda que ele até assumiu uma nova identidade. Nascido Gabriel Cavalcanti Passos, o nome artístico veio num sonho. “Tive esse sonho estranho aos nove anos. Numa vitrine de loja, avistava a capa do ‘Tug of War’do do Paul McCartney, só que o com nome Givly Simons escrito. Acordei assustado, cara. Mas aquele nome ficou martelando, até que resolvi assumir de vez. Hoje, até minha mãe me chama assim”.

Contudo, a mudança de carreira não é tão drástica quanto parece. Givly é primo de segundo grau de outra figura peculiar da música brasileira, o pernambucano Edson Wander – cuja carreira despontou nos anos 1960 na Jovem Guarda até se estabelecer como artista de brega em Belém do Pará, na década de 1980, conhecido pela alcunha de “Roqueiro do brega”­.

“O Edson é o meu mentor. Ele me influenciou no jeito de se vestir, de se portar no palco, como tratar os fãs. Até a dar autógrafo ele me ensinou. Foi ele que me fez perceber que é ‘ok’ ser brega. Que a linha entre o legal e o ridículo é muito tênue. E que o cara tem que ter orgulho do que faz. Ele sim é o cara mais punk que já conheci”, exalta.

“Eu estava na fossa e a lambada foi minha fiel companheira. Acabei impregnado. Percebi que meu lance não era o rock, aceitei a minha porção brega”

Givly retribuiu o carinho ao parente famoso em forma de música. Em “Graças a Aldo Sena e Edson Wander”, o Figueroas homenageia suas maiores influências – entre elas Aldo Sena, artista paraense precursor da lambada que integrou o Mestres da Guitarrada ao lado de Vieira e Curica. Em um tom de reverência, a versão transforma a escrachada “Melô de Tetris”, dos alagoanos do Dezcomunal, em algo que lembra uma oração.  “Eu nunca tive problema grande/ Graças a Aldo Sena e Edson Wander”, repete o refrão.

“A primeira lambada que eu me lembro de ter escutado na vida foi uma versão do Chimbinha pra ‘Lambada Complicada’, de Aldo Sena. E hoje, tanto ele quanto o Edson, estão esquecidos pela grande mídia. O Brasil precisa saber quem é o Aldo Sena. O mundo precisa saber, bicho”, almeja Givly.

Ele conta, num misto de apreensão e excitação, que a banda se prepara para uma visita a Belém, no mês de setembro. “Vai ser melhor que ir pra Disney, cara”. Diz que quer encontrar Vieira, João Gonsalves. Aumentar ainda mais sua coleção de discos. Perguntamos: qual você acha que vai ser a reação deles em relação à sua música?

“Não sei. Se eles não gostarem, vou entender. Eles são os meus ídolos, nada vai mudar minha admiração”, reflete.

Bem, nem Jesús Figueroa agradou a todos.

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