09 de junho de 2015

Após morte de jovem, PM instaura lei do silêncio no Sucupira, zona sul de SP

Após o assassinato do jovem Lucas Custódio, de 16 anos, no meio tarde do dia 27 de maio, o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) intimou pessoas da comunidade para depor. Isso porque qualquer um que estava no local onde o menino jogava futebol com amigos, e viu os policiais executando Lucas, é testemunha chave para investigação.

por Iuri Salles

As ameaças começaram quando alguns policiais mandaram recados por terceiros, avisando que quem fosse depor morreria. Na última terça-feira foram até a porta de uma testemunha ocular da execução. O jovem conseguiu fugir um pouco antes da chegada da PM, e teve de ir embora da própria casa para evitar represálias. Os policiais ainda circulam com fotos de pessoas que participaram da tentativa de manifestação em repúdio à ação desastrosa da PM, perguntando aos comerciantes se conhecem as pessoas e onde elas moram.

No sábado, 30 de maio, a equipe da Vaidapé foi até a comunidade do Sucupira, distrito do Grajaú, buscar informações sobre o caso e conversou com diversas pessoas da comunidade.  Ficou acertado que na terça-feira, 2 de junho, voltaríamos e gravaríamos com todas as pessoas que tinham algo a dizer sobre a morte do Lucas.

Mas na terça-feira, fomos recebidos na entrada da comunidade com a informação que ninguém mais falaria com a imprensa sobre o caso. Segundo testemunhas, a polícia havia ameaçado qualquer um do Sucupira que comentasse o caso, principalmente quem fosse chamado a depor no DHPP.

Em nossa primeira visita, praticamente todos os moradores tinham alguma queixa sobre a PM. Três dias depois, o ambiente era completamente diferente. As pessoas pareciam receosas em falar, e a presença da câmera parecia inibir ainda mais quem poderia dar seu depoimento. O medo era nítido. “Meu filho, eu gostaria muito de ajudar, mas olha onde estamos. Estamos indefesos aqui, nem armas nós temos”, comenta uma moradora que, antes das ameaças policiais, falaria com a Vaidapé.

A repressão policial no Sucupira, segundo os próprios moradores, é frequente. O cabo Aparecido Domingues Vieira, da Força Tática, do 27o BPM (Batalhão de Polícia Militar) que está ligado ao caso do Lucas, já possui cinco ocorrências com resistência seguida de morte, uma inclusive no mesmo local onde o jovem foi assassinado.

Trecho do boletim de ocorrência – crédito: Ponte Jornalismo

Como a única entrada na comunidade é a pé pela Avenida Belmira Marin, o contato entre polícias e moradores é constante. “Eles entram aqui mandando todo mundo voltar para casa. Eu não posso mais deixar minha filha aqui fora. O policial me falou que vai entrar atirando mesmo, e não tá nem ai se acertar minha filha, porque lugar de criança de família é dentro de casa”, relata uma moradora.

A morte

As testemunhas alegam que Lucas não estava fazendo nada ilegal, apenas jogando futebol com amigos. No entanto, um homem que havia cometido um assalto correu para terreno baldio onde eles jogavam. A polícia atirou e todos correram, mas Lucas que levou a pior e foi pego por policiais da Força Tática, um dos grupos mais violentos do estado. Testemunhas afirmam que o jovem foi algemado dizendo que não havia necessidade de ser morto.

Alteração na cena do crime

Lucas já havia falecido quando foi retirado do local pelo SAMU, alterando a cena do crime, como mostra o vídeo que a Vaidapé teve acesso.

Demora dos policiais

Os policiais demoraram mais de cinco horas para apresentar a ocorrência no DHPP, e mais de duas horas para levar o caso até o DP. A família acredita que nesse tempo os policiai forjaram provas, como um revólver e um carro roubado. Segundo amigos, Lucas, de 16 anos, ainda não sabia dirigir.

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