27 de julho de 2015

Complexo da Maré: a pacificação aos olhos da comunidade

Moradores contam como é a realidade das operações de pacificação no interior de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro

Por Victória Martins Damasceno

As Forças de Pacificação no Complexo da Maré, iniciadas em abril de 2014, finalizaram a ocupação militar no dia 30 de junho de 2015, o que para os moradores é um alívio. A moradora Darlene Alves, declara que a paz está longe de chegar à Maré. Conta que a entrada dos policiais na favela não representou nenhum tipo de segurança, pois se depara com tiroteios quase todo dia. “Agora, além da favela ser dominada por traficantes, é dominada por policiais também”, denuncia.

O objetivo da pacificação nas favelas do Rio de Janeiro é proteger as pessoas e o patrimônio, preservar a ordem pública, mas principalmente recuperar os territórios ocupados por traficantes e milicianos. Segundo o Coronel Amauri Silvestre, assessor de imprensa do Exército Brasileiro, eles visam também “buscar a estabilidade da área em condição de estabelecer as Unidades de Polícia Pacificadoras”, as UPPs.

O plano de estabelecimento das UPPs é baseado em quatro etapas: a retomada, que consiste na entrada da polícia nas comunidades; a estabilização, que visa obter o controle do Estado sobre a comunidade; a ocupação definitiva, quando são instaladas as UPPs; e, por fim, a pós-ocupação, que busca integrar a comunidade à sociedade por meio de ações políticas e sociais. Este plano é o mesmo usado em todas as favelas que passam pela pacificação.

Para o morador e universitário, Diogo Silva, utilizar a mesma estratégia de pacificação para todas as favelas é um erro. “A formação do policial para a entrada nos morros não muda, e cada comunidade tem sua peculiaridade. Elas se organizam de uma forma totalmente diferente da outra, porque a favela foi criada pelo favelado para ser sua forma de existência e de moradia. Então, como é possível o mesmo tipo de UPP em todos os tipos de favela? É óbvio que ia dar errado.”

Repressão. Silva diz ainda que a pacificação não mudou a lógica da favela: “eles tiraram o Comando Vermelho mas permaneceu o Comando Azul, pois a arma e a militarização continuam como símbolo da favela.”

A falta de segurança e o medo da polícia são sentimentos constantes para os moradores da Maré. O morador conta que a polícia sempre será vista pelo favelado como “um braço opressor do Estado”, pois crê que o governo não quer melhorar as condições de vida dentro da comunidade. “O único pensamento que é feito sobre essa estrutura é oprimir e manter os desiguais na suas regiões desiguais, e aí, deles se saírem. Porque se saírem eles agem da forma mais truculenta possível. Era essa a visão que a favela tinha do policial e é essa visão que o favelado continua tendo.”

Silva afirma que quando ele critica a pacificação, a imagem que as pessoas tem é de que ele está defendendo o traficante, enquanto na realidade não se sente seguro com nenhum dos lados. “O favelado não se vê reconhecido na opressão do traficante e nem na opressão do Estado. E aí irmão, a gente quer um terceiro que nos garanta um direito à vida, porque a opressão que se tinha antes não me garantia e a opressão que se tem agora também não me garante.”

Ação militar

O propósito operacional com a entrada das Forças Armadas Brasileiras no Complexo da Maré é servir de apoio a outros agentes de segurança para que ocorra a pacificação. Ou seja, sua ação na operação não é prioritária. O Coronel Amauri Silvestre afirma que a instituição tem seus objetivos bem definidos na operação: “A nossa missão na força de pacificação não é caçar bandido. Nossa missão é criar condições de segurança para que outros agentes das sociedade possam atuar. A nossa missão é não combater até que se elimine todos os traficantes, todos os agentes perturbadores da ordem ou todos os criminosos”.

Os abusos cometidos pelas forças armadas também não passaram despercebidos. O morador relatou que muitas vezes os moradores são agredidos, e que ele mesmo já foi agredido por soldados enquanto estes faziam “perímetros” com os tanques de guerra. “Já chegaram gritando e falando ‘Abre a mochila e coloca a mão no tanque’, e eu respondi ‘Que isso, calma, eu tô chegando da universidade agora’. Quando eu tirei a mochila e fui abrir pra mostrar que não tinha nada já apanhei, tomei um tapa: ‘não falei pra você colocar a mão no tanque?’ Aí eu já larguei minha coisas e já fui colocar.”

As regras de engajamento das Forças Armadas colocadas pelo Ministério de Defesa prevêem que os soldados que atuam na pacificação não devem realizar revistas sem a presença de um policial, e que só poderão empregar a força se forem ameaçados por um “oponente”.

Clima de guerra

A presença desses pesados armamentos militares mostra a ideia de que o local está num permanente conflito. Silva diz que os tanques de guerra além de “intimidar os favelados” causavam muitos danos para todos os moradores. “Teve um tanque que fazia perímetro na frente da minha casa, aquilo fazia um barulho infernal. Quando andava, ele ia comendo o asfalto. Canos eram estourados e os caras nem sequer remodelavam para a população”. Já o Coronel Silvestre defende que o uso dos tanques de guerra é necessário pois em um operação como esta, em que os oponentes estão “misturados aos cidadãos de bem”, o veículo blindado impede ataques surpresas e garante a integridade física dos militares.

Pacificação de fachada

Para os dois moradores, a pacificação da Maré é falsa, pois embora ela esteja ocorrendo, nunca houve paz. Depois da operação, os embates tem sido maiores. Darlene Alves nega que haja pacificação no local. “Colocam suas viaturas na entrada da favela para que as pessoas que passam pela Avenida Brasil ou pela Linha Vermelha acreditem que está tudo em paz. Quando na verdade não se importam com a segurança e o bem estar dos moradores.”

*O nome Darlene Alves e Diogo Silva são fictícios. Os entrevistados solicitaram a troca por medo de retaliações.

A RUA GRITA

Volta Negra: a história do negro no Centro de São Paulo

Novo ciclo de caminhadas da Volta Negra começa neste sábado e tem atividades programadas para os próximos dois meses

A RUA GRITA

Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

Criado pela Cia. Nada Pensativo, peça Cora Primavera aborda questões como transfobia e violência contra … Continuar lendo Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!