06 de agosto de 2015

A praga poética que devemos cultivar: entrevista com Victor Rodrigues

Vivemos um surto. Determinadas espécies estão destruindo a propriedade. Quando se proliferam, podem causar algum tipo de dano às pessoas ou à economia. São as pragas.

Por João Miranda

Além de escritor e educador, Victor Leite Rodrigues de Oliveira, 25, é um poeta ativo nas ruas e nas redes. Seus poemas, agora também em novo formato, reverberam na cabeça de milhares de pessoas que acompanham seu trabalho, que se prolifera e incomoda.

Sair do comodismo é bom e, como uma praga, o poder de destruição é forte. A destruição instiga o espectador a ver e pensar seu mundo com novos olhos.

“Era exatamente isso que eu queria: espalhar como praga, ser praga, explorar os formatos. Fazer a poesia viva além dos livros e, principalmente, botá-la onde não costuma estar”

Seu trampo como educador nas áreas de literatura e poesia, escrita criativa, educação social e empreendedorismo é extenso. Já trabalhou em diversas organizações, como o grupo Mesquiteiros, a ONG Ação Educativa, Mundo em Foco e na AlfaSol. Hoje, trabalha no Programa Vocacional, que acolhe jovens a partir de 14 anos, com a finalidade de promover a ação e reflexão sobre a prática artística, a cidadania e a ocupação dos espaços públicos da cidade de São Paulo. 

ASSISTA AO PRIMEIRO POEMA AUDIOVISUAL DE VICTOR:

Poema #1 – A revolução que faltava Autor: Victor RodriguesLivro: Aprender Menino (Vol III)>ASSISTA EM HDCurta a pá…

Posted by Praga de Poeta on Segunda, 27 de julho de 2015

CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA COM VICTOR RODRIGUES, AUTOR DO LIVRO PRAGA DE POETA:

Vaidapé: Quando começou o projeto Praga de Poeta?

Victor: É difícil resumir. A vontade começou a surgir depois que eu ouvi, à boca pequena, nas vozes de pessoas como Fernando Anitelli, Ricardo Gondim, Renan Inquérito e Criolo, que ainda existia quem pudesse gostar de poesia. Feito isso, comecei a procurar onde é que se escondia essa gente. Acabei encontrando o ZAP (Zona Autônoma da Palavra), os saraus e a Poesia Maloqueirista, além de referências de identificação imediata como Caco Pontes, Berimba de Jesus, Daniel Minchoni, Emerson Alcalde e Rodrigo Ciríaco. Conclusão: descobri que tinha poesia pra caramba e em muito lugar. Então resolvi ser parte disso, já que vi tanta gente parecida comigo fazendo também. Primeiro o Rodrigo me acolheu com os Mesquiteiros, me fazendo ver no meio do caos do ensino público uma molecada acreditando nessa parada. Depois veio Berimba e Caco, seguidos de Ju e Carol botando fogo de vez, me dizendo pra lançar as minhas no mundo, sendo Maloqueirista. Daí foi que foi. Reuni o que tinha de ideias e vontades na cabeça e parti pra cima. Tinha acabado de passar por uma cirurgia, largado trampo e faculdade. Não tinha nada a perder. Formulei o projeto, fui meu próprio financiador e dei as caras. Livro impresso, cara na rua falando os textos, troco no bolso, pesquisas e mais pesquisas de experimentações e mais experimentações buscando todos os formatos possíveis. Tentando fazer isso se espalhar. Eis o projeto do Praga de Poeta.

Como escolheu o nome?

O nome Praga de Poeta foi um parto. Estava, há meses, com o primeiro volume do livro quase finalizado e não achava título nenhum que me agradasse. Conheci o Marcelino Freire, que me acolheu e passou um monte de ensinamentos fundamentais. Foi então que eu entendi a dimensão de lançar um primeiro trabalho. Como ele mesmo disse, eu não estava só lançando um livro. Eu estava lançando um poeta. Me questionou sobre os conceitos e motivos e me fez resgatar todos esses porquês. Também pediu todo o material pra dar uma olhada e eu falei que estava com essa dificuldade do título. Até que um dia ele me devolveu as folhas, fez os comentários dele para os ajustes finais. Então, na última página, em uns negócios meio bobos que eu tinha escrito, falando pro leitor compartilhar os textos e passar o livro adiante, o Marcelino falou da expressão “praga de poeta”. Na hora, foi como se uma luz tivesse baixado. Algo que no fim das contas estava lá o tempo todo. Era exatamente isso que eu queria: espalhar como praga, ser praga, explorar os formatos, fazer a poesia viva além dos livros e, principalmente, botar onde ela não costuma estar.

“Eu estava em quase todo sarau, feito praga mesmo, circulando a cidade toda”

Porque buscou novos formatos para expor seus poemas?

Gosto muito de experimentar formatos, explorar possibilidades. Eu, hoje um escritor e educador, tive pouco contato com livros durante minha adolescência. Mas, em contrapartida, tive muito contato com a poesia por meio de letras de músicas e encartes de CD’s. Em um passado mais recente, passei a me informar muito por canais no Youtube, praticamente adotando a internet no lugar da televisão. Então, quando resolvi fazer meu próprio trampo, passar um pouco disso adiante. Além desse lance da experimentação, quis expandir ao máximo as possibilidades da minha arte. Se um livro não vai chegar direito na mão de quem anda na rua, eu mesmo vou pra lá recitar os textos e vender. Se curtas e videoclipes sempre me alcançaram e me encantaram, eu mesmo vou pesquisar e estudar pra fazer um também. No fundo, minha arte é isso: juntar referências, digerir e devolver pro mundo. Busco ampliar os espaços de acontecer.

ASSISTA AO SEGUNDO POEMA EM FORMATO AUDIOVISUAL

Poema #2 – do pai nossoAutor: Victor RodriguesLivro: Sinceros Insultos (Vol II)>ASSISTA EM HDCurta a página, ví…

Posted by Praga de Poeta on Segunda, 3 de agosto de 2015

Você teve referências ou inspirações que te ajudaram a bolar o projeto audiovisual?

Além das que citei como referência, para a poesia em si, tive algumas específicas sim. No lance experimental, o Caco, Berimba e Minchoni, além da Roberta Estrela D’alva (responsável pelo ZAP) sempre me inspiraram bastante. No formato audiovisual, minha principal referência foi o PC Siqueira, que acompanho desde o primeiro vídeo. Pensando no lance de fazer isso com poesia, fui juntando referências ao longo do tempo. Desde que comecei o projeto, a ideia sempre foi lançar um livro em três volumes (Praga de Poeta, Sinceros Insultos e Aprender Menino) e mais dez videoclipes (como saiu o primeiro, do poema Miniatura). Até hoje consegui lançar só um clipe, mesmo com os três livros já circulando, visto que clipe é uma coisa cara. Daí fiquei pensando em como poderia, mesmo assim, botar na rede os textos, ainda que sem a linguagem e toda a riqueza de roteiro que um clipe proporciona. Foi então que, vendo alguns parceiros e parceiras, como Filhos de Ururaí, Luiza Romão, Mariana Felix, Slam Resistência, simplesmente filmando seus textos recitados e soltando no Facebook. Me acendeu essa lanterna. Conheci também o projeto Alpiste de Gente, do Jairo, que trazia essa regularidade e vi que, por algum motivo, o Facebook recebia muito bem esse formato. Resolvi juntar todas essas referências, dos poetas, do Youtube e do Facebook, e começar meu próprio projeto.

Como você vê o impacto das redes sociais no trabalho dos poetas?

É fundamental para quem sabe e/ou consegue usar a seu favor. Foi um boom dos últimos anos que vem engolindo todo mundo. A gente ainda está descobrindo como usar [as redes sociais]. É só observar o tanto de empresa que tá investindo pesado nisso. Do lado dos poetas, tem gente que veicula quase que todo seu trampo por lá. Num fluxo insano. Elas trouxeram um novo conceito de fazer e vender literatura, principalmente poesia. Hoje, você encontra milhares e milhares de páginas nesse sentido. Teve o projeto “Tuíteratura” e a hashtag “Letras365”. Tem o Eu me chamo Antônio, que surgiu na internet para depois tomar outros meios. Tem meu parceiro Ni Brisant que posta que nem louco e faz o trampo dele chegar em todo canto do mundo, vendendo livro adoidado com isso; tem o próprio Alpiste de Gente que eu citei, outro projeto que começou na rede – até onde eu sei. Hoje, a rede aceita muito bem esse tipo de trabalho. No Facebook, por exemplo, as pessoas costumam compartilhar coisas que tenham relação com seu estado de espírito ou sua forma de pensar. A poesia vai muito ao encontro disso. É bastante cômodo pra alguém que se identifique replicar um texto seu. Já tive textos meus postados em páginas grandes, dessas com mais de um milhão de likes, e a repercussão foi insana. Insana mesmo. É um espaço que a gente tem cada vez mais que explorar.

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Victor criou, recentemente, uma estampa de camiseta com seu poema. O Renan Inquérito e Emicida curtiram. Se quiser uma, só mandar um salve pra página do Praga de Poeta ou comprar pelo site Poeme-se.

É possível viver da poesia?

Possível por possível, muita coisa é. Tenho o sonho de ir para a Lua desde moleque e isso sempre foi possível, mas nunca quis dizer que foi fácil ou algo perto da minha realidade. Mas pra não parecer que estou querendo desanimar, dá sim. É treta, muita treta, mas dá. E aí eu acho que entram dois fatores determinantes nisso: o que a pessoa pretende e qual a disposição em fazer. Pelo lado financeiro, ser artista no Brasil é quase um suicídio. É cachê que atrasa, é gente que tem dinheiro querendo que você trabalhe de graça com a desculpa de “divulgar sua arte”. A lista de obstáculos é imensa. Mas, se você sabe o que tá querendo e até onde aguenta ir, dá pra viver sim. Um caminho que eu sugiro é a rua. E quando eu digo rua, não é só no sentido literal da coisa, é no sentido de dar a cara a tapa, que é onde entra a internet também – praticamente uma extensão da rua hoje em dia. Escreveu uns negócios? Sai por aí falando seus textos. Faz um livro caprichado, investe um pouco e valoriza o seu trampo para partir para cima e fazer a moeda circular. Esquece, por enquanto, esse papo de editora, de livraria, que isso nunca rendeu grana pra escritor nenhum – a não ser que seja best-seller. O que vira é o boca-a-boca, que é onde a poesia se espalha mesmo. “Lugar de poesia é na calçada”, já disseram por aí. Se você escreveu e publicou é porque quer ser lido. A não ser que você esteja no Big Brother, ninguém vai bater na sua porta fazendo fila pra comprar livro seu. O negócio é fazer circular. Tipo o trabalho de um ambulante mesmo, que sai todo dia pra vender bala no trem. Se ele não vende, o dinheiro não vem.

Quem acompanha o seu trabalho pode esperar coisas novas?

Pode esperar coisas novas sim. Na página toda semana vai sair vídeo novo. A ideia é colocar todos os 40 textos dos três volumes do livro nesse formato recitado por mim na internet. Além disso, pretendo inaugurar uma sessão com vídeos contando as histórias por trás de alguns textos. Então, em breve, vão ser dois vídeos por semana lá. Agora, sobre os videoclipes talvez demorem um pouco mais, mas a intenção é ainda lançar de 7 a 10, e vai acontecer. Quem quiser acompanhar, é só curtir a página no Facebook.

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