03 de agosto de 2015

Crise hídrica guia musical cômico de 2001 adaptado para a realidade paulistana

Por Gabriel Castanho Oliveira

Em “Urinal – O Musical”, uma cidadepassa por uma grave crise hídrica, falta de água e saneamento básico. Dominada por uma empresa monopolista, em que o lema é: “Pra mijar, tem que pagar.” Alguma coincidência com a nossa realidade? Sim e não.

A primeira temporada do espetáculo, de abril à junho, teve seus ingressos esgotados. Mas com a extensão das apresentações, o público ainda pode assistir o musical até o dia 12 de outubro, de quinta a domingo, na sede do núcleo teatral: Rua Barra Funda, 637, em São Paulo.

As apresentações acontecem sextas, sábados e segundas, às 21h, e aos domingos às 19h. A entrada vai até R$ 40, exceto às sextas, quando a entrada é gratuita, mas é necessário chegar 2 ou 3 horas antes do espetáculo.

No enredo, uma cidade fictícia tem a Companhia da Boa Urina (CBU) como responsável por manter não só a água nos reservatórios, mas também um equilíbrio entre o estado de calamidade e a sobrevivência da população. Baseado na Teoria Populacional Malthusiana, o plano de fundo do espetáculo é baseado em conceitos do inglês Thomas Malthus (1766 – 1834) e expõe questões como o crescimento demográfico, bem estar da população e até mesmo a miséria. Mas vai além.

A trama retrata a iniciativa da população, guiada por um líder, no combate ao monopólio, procurando socializar a utilização das conveniências públicas (banheiros), sem a necessidade do pagamento das altas taxas. Tudo começa quando uma articulação entre a CBU e o Congresso resulta no aumento das tarifas – já abusivas – e que promovem uma revolução de iniciativa popular. “A falta de água. Esses tempos difíceis. A seca. Uma falta de água tão terrível que banheiros particulares deixaram de existir.” (Personagem: A Garotinha).

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No decorrer da peça, citações, alusões e frases como: “Hoje é um novo dia, de um novo tempo”, dão um tom cômico ao espetáculo. O humor cínico é um respiro necessário aos temas que são tratados. Além disso, o enredo trás também uma história de amor entre os protagonistas, permeado pelas ligações entre o poder público, privado e popular.

A revolução, manifestações, confrontos ideológicos e conflitos da própria natureza humana fazem parte de um roteiro inteligente e absolutamente crítico. Atuações brilhantes do elenco, apoiados por uma produção musical e músicos igualmente talentosos.

O espetáculo foi originalmente montado, em 2001, na Broadway. Em São Paulo, foi adaptado pelo Núcleo Experimental: “Um grupo de artistas que se dedica a explorar novos autores e repensar os clássicos. Com o objetivo de brindar entretenimento aliado à inteligência, debate de ideias aliado ao prazer, experiência estética aliada a uma responsabilidade social.”

Coincidência com a realidade vivida pela capital paulista durante a crise de abastecimento? Com a palavra, o diretor do espetáculo, Zé Henrique de Paula:

Vaidapé – No processo para a escolha da montagem do espetáculo no contexto da crise hídrica em São Paulo (e no Brasil). Até que ponto a escolha foi intencional?

Zé Henrique de Paula – Conhecemos esse texto há dez anos e, desde então, houve uma forte inclinação a montá-lo com o Núcleo Experimental. Naquela época, meados de 2004, já se falava da iminência de restrição (e eventual escassez) de recursos hídricos em escala global. Mas obviamente não com a contundência dos dias atuais e muito menos com a vivência prática dessa restrição num grande centro urbano como São Paulo. No início do ano passado, quando a situação começou a se agravar, tomar conta dos veículos de comunicação e alcançou o epicentro dos debates sociais e políticos, percebemos que o Zeitgeist (o espírito de uma época, no termo alemão amplamente utilizado) era o ideal e que a peça reverberaria o cotidiano do paulistano. Mas, acima de tudo, poderia funcionar como algo mais além do mero entretenimento oferecido pelo gênero musical – ela poderia atualizar e incrementar um debate sobre sustentabilidade e utilização dos recursos naturais numa grande metrópole, nos dias de hoje. Enfim, não daria para passar essa oportunidade. Nesse sentido, foi intencional sim. Fomos atrás dos recursos e decidimos por montar a peça, fossem quais fossem as dificuldades (e sempre são muitas).

Apesar de um distanciamento ético e natural, mas considerando que o espetáculo é crítico, em diversos aspectos, em que medida as críticas expressam também uma visão do diretor e do elenco? 

Costumamos dizer que, ao montar um espetáculo, via de regra nos alinhamos com os ideais e o modo de pensamento de seu autor. Num certo sentido, montar uma peça é assinar embaixo daqueles valores e corroborar aquelas ideias expressas pelo texto. Acreditamos que a potência do texto se expressa de maneira mais contundente quando há essa sintonia. Sendo assim, Urinal abre um leque de críticas de natureza sócio-políticas com as quais nos sentimos alinhados. São assuntos dos quais queremos tratar: o modo de vida capitalista e seu resíduo de desigualdade, destruição e polarização; a corrupção como modus operandi habitual e corriqueiro na gestão das grandes instituições públicas e privadas (e especialmente a malfadada interação entre esses dois âmbitos); a ingenuidade das esquerdas que se corrompem ou sucumbem ao poder; a tragédia ambiental à qual estamos submetidos e a inabilidade em reconhecê-la e lidar com seus efeitos; a violência dos aparatos policiais numa era de supressão dos direitos individuais e de massificação. Todos esses temas fazem parte da pauta diária das nossas vidas como cidadãos e ao Núcleo Experimental interessa explorá-los em forma de teatro, sempre atentos à qualidade artística e ao entretenimento ligado à inteligência.

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Ficou curioso? O que é Urinal? Um lugar? Urinal, a princípio, é o musical. Mas Urinal, o lugar, é uma espécie de lugar mítico, entende? Cheio de simbolismo e coisas do tipo.

– Policial, o senhor disse Urinal? Foi Urinal? Mesmo?

– Foi.

– Que tipo de peça é essa?

– Urinal. Bom, tudo o que você precisa saber, Garotinha, é que é o tipo de musical que platéias e críticos adoram, cheio de ciência, comédia, amor e pessoas cantando. Afinal de contas, é um musical. Daqueles musicais que fazem você rir, chorar, depois rir de novo. Bom, isso é Urinal.

Serviço: Urinal – O Musical

Até 12 de outubro

Sexta, 21h, grátis

Sábado e domingo às 21h, segunda às 19h, R$ 40 ou R$ 20 (meia).

A RUA GRITA

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