14 de agosto de 2015

‘Estamos vivendo em um Narcoestado’: O cotidiano de lutas na Cidade do México


Na Cidade do México, acampamento resiste e denuncia os 43 desaparecidos do estado de Guerrero


Texto e fotos por
Thiago Gabriel, da Cidade do México

A desaparição de 43 estudantes normalistas na cidade de Iguala, no México, em 26 de setembro de 2014, mobilizou a população e escancarou graves problemas estruturais no país. Questões como a violência do Estado, a relação promíscua das autoridades com o Narcotráfico e a perseguição política de manifestantes vieram à tona após o caso.

mexicoxei-11

Os jovens frequentavam a Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos de Ayotzinapa, Guerrero, uma comunidade no sul do país com histórico de conscientização política e lutas. Na noite de 26 de setembro, eles foram de ônibus a cidade de Iguala, arrecadar fundos para a escola, quando foram surpreendidos por uma ação policial contra os ônibus em que viajavam. A operação desencadeou um confronto entre os grupos, resultando na morte de 6 pessoas, 25 feridos e no desaparecimento dos 43 estudantes.

A responsabilidade e cumplicidade de políticos e da força policial no caso, revoltaram a população do país, que foi tomado por manifestações, impulsionadas principalmente pelos pais dos 43 desaparecidos. Os protestos foram reprimidos violentamente, e levaram centenas de milhares de cidadãos às ruas para exigir justiça e responsabilização do Estado e dos envolvidos no caso, que segue sem qualquer explicação oficial sobre o paradeiro dos estudantes.

ENTENDA MELHOR O CASO DOS 43 DESAPARECIDOS NESTA REPORTAGEM DA AGÊNCIA PÚBLICA

Desde então, o clima de instabilidade política tomou conta do México. Em maio (época em que a Vaidapé esteve no país), as manifestações ocorriam diariamente na capital, com o intuito de pressionar os políticos às vésperas das eleições legislativas e de nove governadores, marcadas para 7 de junho.

mexicoxei-24

Eram marchas que relembravam os 43 estudantes desaparecidos. Atacavam os políticos e suas promessas, que vinham acompanhadas da sujeira nas ruas, provocada por panfletos de propaganda eleitoral. Em outras movimentações pela cidade, era possível ver cidadãos nas ruas criticando projetos de privatização da água e taxistas demandando a retirada da empresa Uber do país, em uma sequência de protestos durante toda a semana.

Por diversas pautas, os mexicanos estavam nas ruas, e não apenas através das marchas. Era comum observar espaços de luta criados pela população para organizar o movimento, unificar as demandas e promover debates sobre a situação política atual. Sindicatos, muros, casas e até mesmo estabelecimentos comerciais invariavelmente demostravam apoio à busca dos pais dos Normalistas por seus filhos, com frases como “Nos Faltan 43”, ou “Fue el Estado” (Foi o Estado).

mexicoxei-27

Em um destes esforços por mudanças estruturais e mais autonomia popular, um acampamento organizado por uma dezena de cidadãos incomoda e instiga quem passa por uma das avenidas mais movimentadas da capital. Este grupo de manifestantes ocupou o local dois meses depois do desaparecimento dos normalistas e, desde então, segue recebendo e conscientizando transeuntes curiosos, abrindo o espaço para debates, reunindo e organizando as forças de movimentos sociais e autônomos para potencializar a luta.

Os integrantes do acampamento, Paola Piña e Hector Octavio, falaram  com a Vaidapé sobre a ocupação, a situação que envolve a desaparição dos jovens, as manifestações que tomaram o país, o processo de militarização e a relação do narcotráfico com as esferas de poder.

LEIA A ENTREVISTA:


VAIDAPÉ: Para explicar a situação, por que vocês estão aqui hoje, e há 148 dias?

PAOLA PIÑA: Começamos aqui no acampamento dois meses depois da desaparição, em 26 de Setembro, dos nossos companheiros normalistas. O acampamento surgiu como apoio aos pais [dos desaparecidos] do Distrito Federal, uma forma de reunir e organizar as forças de diferentes organizações no Distrito Federal e não deixar, principalmente, os pais dos Normalistas sozinhos. Estamos aqui para recordar a todos que nós não nos esquecemos. Que iremos continuar aqui até a aparição de nossos companheiros Normalistas. Até que libertem nossos presos políticos. Até que seja feita justiça para os que já não estão com nós.

mexicoxei-16

VDP: Quais os rumos do movimento hoje? Vocês conseguem observar um horizonte de mobilizações e mudanças maiores? A população está cansada?

PAOLA PIÑA: Muitos mexicanos, não só nós que estamos nos manifestando aqui, estão cansados. A diferença é que muitos tem medo e, por causa deste medo, permanecem em suas casas. Pensam que se estão em suas casas nada lhes vai acontecer. Mas nos damos conta de que, às vezes, mesmo que permaneçamos passivos, algo pode acontecer com pessoas próximas. E esse é o problema. Até que as pessoas sintam na pele, muitos não se levantam. Nós estamos fazendo o chamado para que essas pessoas se somem [à luta] antes que algo lhes aconteça.

Além da aparição dos Normalistas e da liberdade dos nossos presos políticos, estamos fazendo um chamado à sociedade. Para que somem à luta, mesmo que não lhes tenha acontecido algo. A soberania reside no povo e juntos temos a força. Então estamos tratando de despertar [a sociedade], mas cada um tem um processo. Não podemos despertar os que estão ao nosso lado à força. Tem que ser um processo que a mesma sociedade vá buscando, que a mesma sociedade vá se organizando, que a mesma sociedade vá processando pouco a pouco.


“É preciso se dar conta de que a esquerda se corrompeu faz anos”


VDP: Como está o momento político institucional no México hoje? Como enxergam a atuação de partidos historicamente de esquerda quando chegam ao poder?

HECTOR OCTAVIOPara começar, o governo que tinham no estado de Guerrero era do PRD [Ángel Aguirre, do partido de esquerda mexicano], porém, o governador tinha 93 familiares na folha de pagamento. É preciso se dar conta de que a esquerda se corrompeu faz anos. As esquerdas que estão tratando de sair à tona também não são opções, mas sim a consciência de que o povo necessita despertar. Dele emana a força e o poder de decidir por si próprio. E é um processo difícil, longo e às vezes tortuoso.

mexicoxei-34mexicoxei-19
mexicoxei-30mexicoxei-29

Agora o que interessa a todos os partidos políticos é posicionar-se inundando as ruas de propaganda eleitoral. O povo se deu conta pois estão em marchas diárias. Estamos tendo algo como 10 marchas, ou até mais, por mês. São marchas que mostram que o povo está cansado. Queremos transcender o processo eleitoral, mas também sabemos que a repressão virá. Nesse sentido, se as pessoas não querem se somar por medo, temos que incomodá-las com estes tipos de ações [como o acampamento]. É uma referência para fazer as pessoas verem. Quando passam, te olham. E não te olham com desprezo, mas sim com curiosidade de saber o que estamos fazendo. Isso é um grande avanço. Temos companheiros de diferentes organizações que vão ao metrô para fazer a dinâmica de conscientização. Isso é algo muito bonito, já que realmente toca as pessoas.

Para criar uma conscientização no México, independentemente das pessoas quererem votar ou não quererem votar, é preciso fazer a conscientização de que podemos nos organizar. Podemos formar uma base e não necessariamente um partido político hierarquizado pelas diferentes estruturas do que consideramos um partido político. Essa é a postura, esse é o propósito do plantão. Transcender isso, mas não só isso, queremos também libertar nossos presos políticos.

mexicoxei-13

VDP: Como ocorre a repressão do Estado no México? Tanto através do braço policial em protestos, quanto em outras frentes, como midiática?

PAOLA PIÑA: Hoje, o Estado tem um pensamento e uma dinâmica de criminalização, sobretudo de jovens que passaram a se mobilizar. Agora nos damos conta de que, a partir da posse na presidência de Peña Nieto [atual presidente mexicano], em dezembro de 2012, passamos a ter em cada marcha, sistematicamente, presos políticos. São pessoas que se manifestavam pacificamente e foram violentadas em seus direitos humanos, encarceradas. Muitas pessoas, inclusive, continuam com processos abertos, outras continuam presas. Percebemos que é algo bem orquestrado por parte do sistema, pois sempre são jovens, com uma média de idade de 18 a 25 anos, que estão se manifestando. O centro da criminalização dos protestos é a juventude.

E os meios de comunicação também estão neste jogo. Os meios de comunicação no México estão a serviço do Estado. Ou seja, estão sendo coagidos pelo Estado. Se não dizem o que [o Estado] quer, fecham ou tem sua liberdade de expressão limitada. Como é o caso de Carmen Aristegui, uma jornalista que expunha muitos problemas a nível nacional e teve o programa de rádio cortado. Não é o único caso, mas um dos mais falados. E era um programa que possuía os mais altos índices de audiência a nível nacional.

mexicoxei-22

VDP: Um caso de censura?

PAOLA PIÑA: Sim.

VDP: A população que se manifesta tem buscado meios de autodefesa do movimento para fazer frente a repressão policial nas manifestações que se iniciaram em todo o país após o desaparecimento dos 43 Normalistas? E como a polícia tem agido nessas manifestações, especificamente?

HECTOR OCTAVIO: A polícia anti-motim busca te intimidar só com sua presença. Quando fazemos ações de conscientização no metrô a polícia está lá para reprimir. E temos que fazer frente a isto. Em uma situação que os policiais vêm que o povo se amedronta, pensam que podem te levar preso a qualquer momento. Quando se iniciaram os protestos por Ayotzinapa, 11 companheiros foram encarcerados em prisões de segurança máxima. Isso foi difundido nos meios de comunicação que os tachavam como vândalos. Como estudantes de pós-graduação estão presos em prisões de segurança máxima e não te explicam o porquê? São prisões feitas para narcotraficantes. Existe um medo implícito, que acaba inibindo nossa rebeldia. Mas não vamos permitir essas questões. Contra todo o autoritarismo e toda opressão.

Outro dia, pegávamos uns cobertores aqui atrás [do acampamento] e os policiais disseram para os deixarmos ali. Quando dissemos não, começaram a nos filmar. Então eles passam a te investigar, apagam páginas de Facebook. Isso é a verdade.


Os meios de comunicação no México estão a serviço do Estado”


VDP: Agem como uma polícia política?

HECTOR OCTAVIO: Sim. A repressão é sistemática. Se espalhou de forma sistemática. Tanto midiática, como direta. Mas não há por que se amedrontar. Os pais dos Normalistas nos diziam: nos tiraram tanto, que nos tiraram até o medo. E de todos. Pode parecer que estou caindo em uma contradição. Se de um lado muitos mexicanos não saem [às ruas] por medo, nossos próprios pais nos incentivam a fazer marchas. E nessas marchas [pelos 43 desaparecidos] nos sentíamos seguros. Muito seguros de otimismo, de todas as questões. Ainda assim, a polícia agarrava muitos que estavam na rua e os levava para dentro [do camburão].

VDP: O povo também se insurgia então?

HECTOR OCTAVIO: Sim. Quando se decidiu, entre todas as universidades do Distrito Federal, que iria-se tomar o aeroporto, realmente começou a repressão. Ali já estava a polícia anti-motim, tratando de nos afastar e agredindo com cassetetes, golpes, alguns com bombas de gás lacrimogênio. Tínhamos que nos auto-defender. Se ficássemos com os braços cruzados teriamos o dobro de encarcerados, ou uma questão mais delicada e sinistra, que são as mortes. Tratamos de evitar esses tipos de questões [ações violentas]. Mas se te dão uma cacetada, você não vai dar o outro lado da cara para levar outro tapa. A rebeldia se mostra tanto no intelecto como nas ações, tanto na forma de saber se expressar em um momento dado politicamente, quanto quando você está sendo agredido e não pode responder.

mexicoxei-15

No aeroporto a polícia chegou para não nos deixar passar e partiram para a agressão. Realmente, se não fosse por centenas de companheiros que reagiram frente a esta situação, teríamos lamentado por mais encarceramentos e feridos gravemente.

VDP: Como vocês enxergam a Guerra ao Narcotráfico e a relação dessas organizações com o poder? O aumento da repressão passa também por uma maior autonomia reservada as forças policias com a Guerra ao Narcotráfico?

HECTOR OCTAVIO: Quando Calderón [Felipe Calderón, ex-presidente mexicano]começou a guerra contra o narcotráfico chamou os militares. E a ideologia dos militares é de aniquilar e acabar com a população. Não é como uma polícia comum. Vemos o caso da Itália: que usou parte do exército, mas treinou-os para questões policiais. Aqui não. A Polícia Militar age como o exército. Hoje em dia, vemos que o país foi militarizado de propósito, com a finalidade de realizar reformas. Reformas que abalariam a soberania nacional. E destas [os governantes] estavam muito conscientes. Então, Calderón queria dar um golpe firme e se eximiu de toda responsabilidade. Isso não é certo porque a bomba já estava ali. Foi questão de tempo e no mandato atual, de Peña Nieto, a bomba estourou. O ideal seria o governo separar e sacrificar, se fosse necessário, parte do exército. Seria treinar os policiais de investigação para que fizessem as detenções sob argumentações jurídicas que são necessárias para processar constitucionalmente e de acordo com os direitos humanos. Isso não foi o que ocorreu, desde o Calderonato [governo de Calderón] até o Peña Nietismo [governo de Peña Nieto].


“Os pais dos normalistas nos diziam: nos tiraram tanto, que nos tiraram até o medo”


PAOLA PIÑA: Como comentava meu companheiro, durante o mandato de Calderón colocou-se os militares nas ruas. Na melhor das intenções, para eliminar o narcotráfico. Mas pensamos que o ato de colocar os militares foi, precisamente, para que o povo se acostumasse a sentir medo. Assim, os governantes poderiam passar por baixo dos panos, e sem enfrentar tanta resistência por consequência do medo que se estava criando, todas as reformas estruturais que estão matando o país de fome. No fim, conseguiram desmobilizar boa parte da população, que já vinha se organizando, e passaram as reformas estruturais.

mexicoxei-4

Mas não só isso, nos demos conta de que o monstro que se supunha estar combatendo – que é o narcotráfico – não era o foco das ações. Percebemos que, na realidade, estamos vivendo em um Narcoestado. Esta prática está tão enraizada, não apenas na venda de drogas para os EUA e no aumento do consumo dentro do [nosso] próprio país, como também já conseguiu se infiltrar em todos os tipos de instituições, não só militar e marinha, como no próprio governo. Então já se fala de um Narcoestado.


“Hoje em dia, vemos que o país foi militarizado de propósito, com a finalidade de realizar reformas. Reformas que abalariam a soberania nacional”


VDP: Há uma perspectiva de esperança para o futuro do movimento?

PAOLA PIÑA: Eu creio que algo que não podemos perder, não só como mexicanos mas como pessoas e como humanidade, é a esperança. Eu penso que se não tivéssemos esperança não estaríamos aqui lutando – e falo isso também pelos meus companheiros, porque os conheço e estamos juntos. Temos a consciência de que, provavelmente, a mudança que estamos buscando não será vista por esta geração que está lutando. Mas se tivéssemos deixado de lutar não teríamos o pouco que se ganhou. Se pessoas antes de nós não tivessem lutado, estaríamos pior do que estamos. Então estamos em dívida com as gerações que virão bem como com as gerações que vieram antes de nós. Também devemos a elas nossa luta.


Mais fotos:


mexicoxei-9 mexicoxei-5 mexicoxei-17 mexicoxei-26 mexicoxei-33 mexicoxei-28 mexicoxei-12 mexicoxei-36
A RUA GRITA

Como Dória pode legislar sobre o que é lindo?

Por: Gabriel Kerhart É possível legislar sobre o belo? Talvez um professor de estética consiga … Continuar lendo Como Dória pode legislar sobre o que é lindo?

A RUA GRITA

Em família: a resistência LGBT na periferia da zona sul

“Há momentos de tristeza, mas há momentos de alegria também. Ninguém é 100% uma coisa. … Continuar lendo Em família: a resistência LGBT na periferia da zona sul

A RUA GRITA

Como o hospital da USP ficou à beira do abandono

Faculdade que gerencia o hospital alega falta de recursos. Coletivos e população lutam para que … Continuar lendo Como o hospital da USP ficou à beira do abandono