24 de agosto de 2015

‘O governo tem políticas que estão à direita dos manifestantes’, afirma professor da USP

Após pesquisa realizada nos atos contra a presidenta Dilma Rousseff, Pablo Ortellado traça uma análise da conjuntura política atual no país


Infografia:
Jay Viegas

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Texto e fotos por
Henrique Santana

No último domingo, 16 de maio, mais de 100 mil pessoas tomaram as ruas da Avenida Paulista em outro ato contra a presidenta Dilma Rousseff (PT). Essa foi a terceira manifestação organizada no ano e teve adesão de pelo menos 200 cidades do país. Em resposta, movimentos sociais como a CUT (Central Única dos Trabalhadores), UNE (União Nacional dos Estudantes) e o MTST (Moviento dos Trabalhadores sem Teto), organizaram um protesto no largo da batata, zona oeste paulistana, em apoio ao governo e contra as medidas de ajuste fiscal nessa quita-feira (20). Aconteceram atos em cerca de 40 cidades.

Meio ao clima de polarização, o professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, Pablo Ortellado, organizou uma pesquisa no ato do dia 16 com o intuito de fazer uma análise mais minuciosa sobre o fenômeno. A Vaidapé trocou uma ideia com o professor, que falou sobre suas percepções após o levantamento, relacionou o ato com as manifestações de junho de 2013 e pontuou contradições nos movimentos e partidos que puxaram os dois atos.

Confira a entrevista completa:


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VAIDAPÉ: Sua pesquisa indica que boa parte dos manifestantes se aproxima de pautas levantas pela esquerda: não descriminam relações homoafetivas, são a favor da legalização das drogas e não acreditam que mulheres que usam roupas curtas incitam o estupro. Por outro lado, a maioria é contra medidas como as cotas raciais nas universidades e o programa mais médicos. O que está diferenciação aponta?

PABLO ORTELLADO: Até mais importantes do que isso é o compromisso com saúde e educação universal e gratuita. Quando houveram os protestos em junho e foram feitas as pesquisas de opinião sobre qual era o conteúdo reivindicatório dos manifestantes, em todas as pesquisas que foram feitas – São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e no território brasileiro – o resultado foi sempre o mesmo: rejeição do sistema representativo e melhorias nos serviços públicos. Em particular, saúde, educação e transporte.

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Quando a gente desenhou o questionário, a ideia era testar se essa agenda ainda estava ecoando nos manifestantes, mesmo quando estão sendo convocados por grupos no outro lado do espectro político em relação aos atos de 2013. E eu acho que foi uma surpresa quando se vê o grau de compromisso dos manifestantes, por exemplo, com uma saúde e educação universal e gratuita. Algo muito próximo do 100%. Até a tarifa zero, que é uma demanda meio nova, meio heterodoxa, tem 50% de apoio. Isso sugere que essa indignação que foi despertada em junho ficou meio órfã. Ela foi acolhida e está sendo trabalhada pelos grupos de direita. Então começam a aparecer vários elementos de direita.

Mas eu acho que a agenda dos grupos de direita tem muito eco nos manifestantes, que não parecem ser exatamente de direita, mas incorporam alguns elementos. Por exemplo, as reivindicações por redução dos impostos – que inclusive é contraditória com a demanda por mais serviços públicos – e essas questões no trato com outras classes sociais, com uma abordagem muito punitivista no que diz respeito à criminalidade, no que diz respeito às cotas raciais. Todas essas relações entre as classes tem uma abordagem muito dura.


“A indignação que foi despertada em junho ficou órfã. Ela foi acolhida e está sendo trabalhada pelos grupos de direita”



Esta seria uma diferença em relação aos protestos de junho de 2013?

Eu acho que são fenômenos diferentes. Mas a gente encontra ecos de junho nesses [protestos de agora]. Isso é uma surpresa, porque esses grupos tem uma outra composição social: são mais velhos, mais ricos, são chamados pela direita, tem um histórico de votação na direita. Apesar disso, a gente encontra ecos daquelas reivindicações de junho. Isso é um pouco surpreendente e embaralha o cenário político, que a gente tendia a ver como governo de um lado e oposição do outro. Liberais de um lado e gente que defende mais o papel do Estado de outro. Acho que os elementos são mais misturados.

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“A gente encontra ecos de junho nos protestos de agora”


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Essa polarização e estigmas que são colocados, na sua opinião, não existem?

A oposição política existe. Mas, quando a gente vai ver o conteúdo real de quem está nos dois lados, as coisas ficam mais embaralhadas. Por exemplo, a gente vê que os manifestantes que estão na oposição ao governo Dilma têm conteúdo para esquerda: são contra o financiamento empresarial de campanha, são a favor dos direitos sociais, das liberdades individuais. Isso é um pouco surpreendente. Por outro lado, quando a gente olha para o governo, a gente vê políticas que estão à direita dos manifestantes.

Fábio Ostermann, do MBL (Movimento Brasil Livre), afirmou recentemente ao El País que o movimento era contra o SUS (Sistema Único de Saúde). As lideranças não estão conseguindo passar seus ideais aos manifestantes?

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Eu acho que tem um desacordo entre o que pensam os manifestantes e o que pensam as lideranças. Quando você tem uma insatisfação assim, você precisa de alguém que organize a insatisfação. Que convoque, que faça as alianças políticas, que desenhe as estratégias. E quem está fazendo isso são os grupos de direita. Só que eles tem uma agenda divergente das pessoas que estão nas ruas.


“Quando a gente olha para o governo, a gente vê políticas que estão à direita dos manifestantes”


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Os movimentos de esquerda perderam espaço nas ruas desde de 2013? Esse ato que está sendo convocado para o dia 20 faz oposição à agenda que os movimentos de direita estão trazendo?

Você vê que é uma situação confusa. O governo federal está com uma agenda claramente liberal: Agenda Brasil [que prevê medidas como a cobrança para alguns usuários do SUS, mudança nas regras de desapropriação de áreas para criação de territórios indígenas e regulamentação da terceirização de serviços], corte de direitos sociais, Joaquim Levy no Ministério da Fazenda etc.


“Você tem um governo de esquerda com uma agenda liberal e manifestantes em oposição, porém com uma agenda mais progressista do que as práticas desse governo”


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Então você tem um governo de esquerda com uma agenda liberal; manifestantes em oposição, porém com uma agenda mais progressista do que as práticas desse governo; e você tem os grupos de esquerda, indo em uma atitude meio ambígua, contra o golpe e contra as tentativas de deposição da presidente mas, ao mesmo tempo, opondo também as políticas da esquerda.

É um cenário muito complicado, porque parece que essa polarização marca campos que tem conteúdos concretos – progressista de um lado e reacionários de outro – mas não é exatamente verdade. É só um jogo de polarização e, quando a gente vai ver por conteúdo, os campos estão embaralhados. Tem gente na esquerda com conteúdo progressista. Tem gente na oposição com conteúdo progressista. Tem gente no campo governista com conteúdo liberal e conservador. Então é uma situação muito embaralhada. Eu acho que a polarização política simplifica falsamente. Porque, no fundo, ela marca só os campos dos grupos institucionais que disputam o poder político.


“No fundo, a polarização política marca só os campos dos grupos institucionais que disputam o poder”


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Você acha que o Movimento Passe Livre tem uma parcela de culpa pela perda de espaço da esquerda nas ruas?

Eu não sei se ele tem culpa. O Movimento Passe Livre tem uma característica que é ser um movimento de uma pauta única, um movimento de transporte. Se você olhar em termos concretos, quem teve uma vitória em junho foi o Movimento Passe Livre, com a redução do preço das passagens em quase todas as grandes cidades brasileiras. Por outro lado, essa pauta única impediu ele de abraçar e receber essa indignação que ele mesmo despertou. Ela ficou um pouco órfã, porque os grupos que poderiam fazer isso eram os grupos ligados aos partidos políticos, que estavam sendo rejeitados por aquela onda de indignação. Então essa orfandade tem sido, desde então, explorada por grupos de direita. Alguns grupos de esquerda também tentaram, mas acho que com menos sucesso do que a direita.

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“O PT é uma espécie de símbolo máximo da falência do sistema politico. Se associar com ele é pedir para perder sua capacidade de mobilização”


Isso se atribui a essas marchas serem puxadas por grupos como a CUT e a UNE, que tem certo vínculo estabelecido com o governo federal? Isso compromete a popularidade deles?

Claro. Por exemplo, essa marcha [do dia 20 de agosto] está comprometida pelo apoio desses movimentos com vínculos muito diretos com o governo. Muito diretos com o PT, no caso da CUT e da UNE, por exemplo. Eu acho que você desestimula as pessoas que não estão vinculadas e que estão insatisfeitas com o sistema político de participar [dos atos]. A gente não tem uma iniciativa, hoje, que esteja desvinculada dos partidos políticos. Em particular desvinculada do PT. O grande problema da esquerda é que ela, de uma maneira direta ou indireta, ainda tem vínculos muito fortes com o Partido dos Trabalhadores e, como o Partido dos Trabalhadores é uma espécie de símbolo máximo da falência do sistema politico, se associar com ele é pedir para perder sua capacidade de mobilização.


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