03 de agosto de 2015

Trezentas famílias resistem na ocupação Zumbi dos Palmares

Ocupação em Diadema reivindica moradia para habitantes de bairros carentes do município

Por Lauana Aparecida
Fotos: André Zuccolo

“Colocamos o nome de uma pessoa que admiramos muito e fizemos nosso próprio quilombo”. É assim que Ricardo Feitosa, coordenador estadual do MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas), descreve o nome da ocupação Zumbi dos Palmares, em Diadema. Acampados desde o dia 28 de junho, cerca de 300 famílias reivindicam moradia no bairro Eldorado.

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Ricardo explica que o movimento ainda tem um núcleo com 150 famílias que chegaram um pouco depois de todos e não conseguiram entrar no acampamento. Os manifestantes são do próprio bairro e de outros lugares do município, como Cazuza, Inamar e Serraria. Sem condições de pagar aluguel, muitos moram de favor com familiares, ou em casas que já receberam ordem de despejo.

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O terreno é uma área de preservação ambiental e pertence à Amuhadi (Associação de Mutirão Habitacional de Diadema). Zumbi dos Palmares é a segunda ocupação no mesmo local: a primeira, em 2013, reivindicava a continuidade da desapropriação de uma área de 10 mil m², que a gestão anterior (Mário Reali – PT) vinha realizando.

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“Desde 2011, vínhamos negociando esse terreno com a Prefeitura, que transformou em área de interesse social e começou a desapropriar. Porém, a gestão atual parou a desapropriação e ocupamos em 2013 para nos manifestar”, conta Carolina Vigliar, uma das coordenadoras do MLB de Diadema.

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Segundo o movimento, um grileiro fez da área de 10 mil m² um estacionamento clandestino e entrou com uma ação por usucapião. “Nós alertamos a Prefeitura desse problema, porém sempre negavam, dizendo que isso era impossível. Hoje já não temos esperança em relação a esse terreno, que abrigaria pelo menos 350 famílias”, lamenta Ricardo.

Segundo o MLB, o atual prefeito de Diadema, Lauro Michels (PV) deu apenas uma sugestão para Zumbi dos Palmares: modificaria o Plano Diretor da cidade e propôs a utilização de uma área de manancial, próxima à Represa Billings.

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“Isso tem de passar por trâmites, demorando talvez 10, 15 anos, se conseguirmos. Em 2013, o prefeito se propôs em vídeo a construir as moradias e até agora ele não cumpriu. Então essa é a revolta das famílias, porque elas não têm mais condições. A situação está bem precária e por isso essa luta”, conta o coordenador do movimento.

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Coletivo Zumbi dos Palmares

Na cozinha improvisada de Zumbi, as três principais refeições são coletivas. “De vez em quando tem um lanche para as crianças, quando a gente consegue doações”, explica Ricardo. “O que um come, todo mundo come”.

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A ocupação tem diversos apoiadores, desde vizinhos solidários, que abastecem o acampamento com água e doam alimentos, até pessoas e organizações de outros estados, que manifestam apoio por meio das redes sociais. Ricardo ainda lembra o apoio de alguns estudantes ao movimento. “Os alunos da UFABC (Universidade Federal do ABC) fizeram uma campanha e conseguimos uma grande doação de alimentos”.

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Marlene Damasio, 43, ajuda na cozinha. É a primeira vez que participa de uma ocupação. “Tenho muito medo, de violência, da polícia. Minha mãe tem 65 anos e participou de uma ocupação no ano passado, em São Bernardo do Campo. Saiu machucada por bala de borracha”.

A manifestante é divorciada e tem um filho de 12 anos. Os dois estão de favor na casa da mãe. “Moro em cima da casa dela, com um cômodo e um banheiro que eu mesma construí. A Prefeitura sempre fica enrolando, mas estou confiante dessa vez”.

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Um dos organizadores do quilombo improvisado, Raimundo Pereira, 50, mora de favor na sede do MLB em Diadema, próxima ao local da ocupação. “A gente se reveza: eu trabalho durante o dia, fico aqui até às 23h e depois vou dormir na sede”.

O funcionário público sonha com a moradia própria. “De imediato é a casa. Mas nosso objetivo maior é mudar o sistema em que a gente vive, onde os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres mais pobres ainda”, conta Raimundo.

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Zumbi dos Palmares tem uma maneira própria de organização. O terreno é dividido em ruas espaçadas e cada barraco de lona tem seu número. Desde o começo houve uma preocupação dos próprios moradores com as crianças, e uma creche comunitária foi montada. A creche leva o nome de “Jhonatan de Oliveira” e homenageia um jovem de 18 anos, que faleceu há pouco tempo, filho de um dos manifestantes.

Direito à ocupação

Francisca Almeida e José Soares são casados há três anos. Desempregados e sem conseguir pagar o aluguel, tiveram de se mudar para a casa da mãe de Francisca. “Vai dar certo, a gente está torcendo. Saindo do aluguel é o que importa”, comentam, esperançosos.

José auxilia na segurança da ocupação e Francisca ajuda na creche quando necessário. A mãe apoia a luta do casal, que não desanima. “Onde mais longe a gente chegar, melhor. O prefeito vai ver e tem que fazer alguma coisa”.

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Desde o início da ocupação, os manifestantes pressionam a Prefeitura por uma solução. Zumbi dos Palmares vem organizando diversos atos no Centro da cidade, partindo do Terminal Municipal de Ônibus até a Câmara de Vereadores. “Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito”, lembram os manifestantes.

No dia 17 de julho, o movimento conseguiu uma reunião com a Prefeitura e o secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano, Eduardo Monteiro. Foram apresentadas possibilidades para os manifestantes, como uma reunião com a secretaria de habitação do Estado de São Paulo e outra com a Caixa Econômica Federal, na quarta-feira (22/07).

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A reintegração de posse estava marcada para o dia 19 de julho, mas ninguém foi ao acampamento para executar a ordem. “Era o último dia que a gente tinha para sair por livre e espontânea vontade, mas não saímos. Já esperamos demais, agora só com a polícia”, diz Carolina. Os coordenadores ainda contam que o MLB está se organizando para realizar outras lutas por moradia em Diadema: “os filhos da cidade vão continuar nascendo”.20089671646_95f4cd200c_k

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