24 de setembro de 2015

Cripta Djan: ‘Pixo é a retomada da cidade por parte dos excluídos’


Pixador desde 1996, Cripta Djan trocou uma ideia com a Vaidapé sobre a cena do pixo em São Paulo, discutindo a violência policial nas periferias e a relação da pixação com o graffiti


Por Iuri Salles e Henrique Sanatna
Fotos e ilustrações cedidas por Cripta Djan*

Cripta Djan é um dos pixadores mais respeitados de São Paulo. Começou na pichação nos anos 90, com apenas 12 anos. Com a experiência de quem participa há quase duas décadas do movimento, após anos de escalada, Djan se dedicou a documentar a pixação no Estado. Hoje, produz o 100Comédia, série de vídeos sobre pixação, e teve grande participação no documentário Pixo, de João Wainer. É também um dos idealizadores do MAPU (Movimento Artístico Periférico Urbano), grupo que se organiza para promoção de eventos em prol dos pixadores.

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Surfista de trem: Djan em gravação de documentário produzido pela finlandesa Helsink-Filmes. “Na falta de praias e ondas, surfanos no mar de aço e pedras” – Foto: Amir Arsames Escandari

“Quando um moleque da periferia teria a chance de colocar o seu nome no topo de um edifício no centro da cidade? Se ele fosse uma empresa, ele conseguiria”


“Desde quando eu comecei a pixar, em 1996, eu só vi a pixação aumentar. E é incrível, parece uma bola de neve”, afirma o pixador que já viajou o Brasil pixando e documentando a cena do pixo em diversos estados.

PIXO: ARTE LIBERTÁRIA


Com quase 20 anos acompanhando o movimento, Djan conta como vê a pixação e como ela expõem os contrastes sociais: “Pixo é a retomada da cidade por parte dos excluídos. O centro da cidade é um lugar que não foi feito para pessoas da periferia morar. E a gente vai lá ocupar a cidade, é um uso público que a gente faz. Já que a cidade é negada a nós, a gente ocupa na marra”, define. “É o que eu falo: quando um moleque da periferia teria a chance de colocar o seu nome no topo de um edifício no centro da cidade? Se ele fosse uma empresa, ele conseguiria isso facilmente. Então, o que vale é o capital. Você vale o que você tem”, completa.

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“Nós temos o controle da cidade na mão, agente tem um domínio estético sobre a cidade” – Fotos: As duas primeiras são de João Brito e Miguel Ferraz Araújo, respectivamente. A última é da Mídia Ninja. Nas outras não constam créditos

“Nós somos criminalizados por uma estética. Uma estética que foi marginalizada e criminalizada pela sociedade por ser feita por pessoas da periferia”


Para ele, o pixador é um interventor urbano, “artista, anarquista e vândalo”, um pouco de cada coisa. “Nós somos criminalizados por uma estética. Uma estética que foi marginalizada e criminalizada pela sociedade por ser feita por pessoas da periferia”, afirma. No entanto, a relevância da pixação vai muito além da estética. Segundo Djan, não interessa se o pixo é feio ou bonito, o importante é que a marca esteja ocupando a cidade.

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Fotos: Miguel Ferraz Araujo


“O pixo não precisa respeitar nada que é privado. Se o graffiti se tornar algo privado o pixo não é obrigado a respeitar”


Existem algumas modalidades na pixação, desde os que se destacam na parte radical com as escaladas, até os que ganham visibilidade pela quantidade de pixações na cidade. Para ele, “cada modalidade se acha melhor do que a outra, mas , na realidade, todo mundo tem o seu valor no pixo. A pixação é uma valorização individual muito grande. Então, por mais que você queira comparar pixadores, cada pixador tem o seu valor”. “A gente costuma dizer que ‘a pixaçao apaga mais a amizade fica’. Eu acho que essa frase simboliza bem o pixo. E realmente, é uma rede social”, completa.

TRETAS DA RUA


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Djan conta que os conflitos internos na pixação se apaziguaram. “Hoje, até pessoas que não se gostam e tiveram brigas no passado, conseguem conviver no mesmo espaço. Isso ja é legal. Existe um respeito. Até porque a galera está mais velha e não quer ficar de briguinha por causa de pixação. E a molecada mais nova vê isso e já entra neste ritmo. Eu costumo dizer que hoje a gente vive a era da paz no pixo em vista do que era nos anos 90. Na época era muita briga, guerra.Eu já fui jurado de morte por causa de pixação”.

As tretas entre pixadores e grafiteiros também são conhecidas nas ruas. Segundo ele, “de 2008 para cá, depois que houve uma série de atropelos [nos muros] e ataques às galerias, muito grafiteiro repensou na hora de fechar com o Estado para ser usado como uma vassoura. O pixo não precisa respeitar nada que é privado. Se o graffite se tornar algo privado o pixo não é obrigado a respeitar”.

Morador da periferia de Osasco, Djan conhece bem a realidade da juventude periférica frente a violência policial e não se esquivou do papo reto. Em oposição ao governador do estado, Geraldo Alckmin (PSDB), que vangloria a gestão pela drástica queda no número de homicídios em São Paulo, o pixador acredita que “quem reduziu os homicídios foi o crime, não o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa)”. Djan também apontou para os assassinatos protagonizados pela polícia: “Hoje, quando morre alguém em uma comunidade, fica claro quem foi. A gente não precisa nem falar”.


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