25 de setembro de 2015

‘Temos que normalizar o uso da maconha’, afirma Profeta Verde, advogado e ativista


O programa de rádio, Vaidapé na Rua, recebeu o Profeta Verde, advogado e ativista pelo fim da Guerra às Drogas


Por Thiago Gabriel


PAPO COM PROFETA VERDE: OUÇA O PROGRAMA NO PLAYER


“A maconha foi uma paixão”, assim o Profeta Verde define o início de sua luta pela normalização da cannabis. A normalização, ele explica, é um processo que expande a legalidade ou não da erva: “Mais do que descriminalizar ou legalizar a maconha, é normalizar o uso dela. É tornar ela uma coisa tão normal como você colocar açúcar no café, que são duas drogas”.

“A partir de um momento, eu já tava na faculdade estudando direito, eu olhei e falei ‘cara, essa planta já me deu tanta coisa daora, tá na hora de retribuir um pouco”. Foi então que Fernando Silva criou o personagem Profeta Verde e passou a compor a luta como um dos organizadores da Marcha da Maconha e membro da Associação Cultural Cannabica, além de fazer uso de sua formação como advogado para defender os usuários que são considerados traficantes.


“Mais do que descriminalizar ou legalizar a maconha, é normalizar o uso dela. É tornar ela uma coisa tão normal como você colocar açúcar no café, que são duas drogas”


A ideia de utilizar o personagem para a luta foi uma forma encontrada ao acaso, e que agradou: “Foi mais um dos insights da erva que a gente nem sabe da onde vem, daí que eu vou acreditando em uma espiritualidade canábica”.  Em 2011, durante a Marcha da Maconha que foi duramente reprimida pela polícia, a fantasia era uma forma de não ser identificado ou sofrer processos por participar do evento. “Naquela época, eu descolei um manto verde, uns dreads, um óculos escuro e saí pra marcha sem pensar em nada. E aquilo fez o maior sucesso. Eu pensei: ‘por que não levar adiante?’. E para pensar no nome eu pensei: ‘a maconha vai ser a erva do próximo milênio’. Então, é o Profeta Verde que vai trazer essa mensagem de que a maconha é a cura do século XXI. Depois eu descobri que isso facilita a comunicação com as pessoas, elas lembram com mais facilidade”.


“A partir de um momento, eu já tava na faculdade estudando direito, eu olhei e falei ‘cara, essa planta já me deu tanta coisa daora, tá na hora de retribuir um pouco”


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Entre os dias 24 de agosto e 6 de setembro, o Profeta organizou o Connabis, o primeiro congresso online sobre maconha no Brasil, trazendo debates e entrevistas para a internet sobre a legalização, uso medicinal e questões sociais relacionadas à ganja. “A resistência [à legalização] é o medo. Embora as drogas tenham aspectos positivos e negativos, a gente é guiado pelo medo do que ela pode fazer de mal. E o discurso sobre as drogas foi muito em cima do medo”, explica.

No Vaidapé na Rua, o Profeta trocou uma idéia sobre proibicionismo, guerra às drogas, o panorama da luta pela legalização no Brasil, o projeto no STF que prevê a descriminalização do usuário e muito mais. Confira os principais pontos da conversa nas linhas abaixo.


PROJETO DE DESCRIMINALIZAÇÃO DO USO NO STF


“Você tem direito a fazer suas escolhas ainda que elas façam mal para você mesmo. Se eu quiser sair hoje e encher a pança de McDonalds, e isso me dá uma baita dor de barriga, o Estado não pode me incriminar porque eu decidi fazer algo ruim. É uma opção moral talvez, mas não legal.”

“O que pode acontecer é eles declararem a inconstitucionalidade da criminalização do uso, do porte para uso. Mas não muda nada em relação a venda e o tráfico. Então, o que a gente vai ter, talvez, é um agravamento de um quadro que é ezquizofrênico. Em que você pode, teoricamente, usar, você pode comprar, pode ter a sua droga. Mas ninguém pode vender, ou melhor, alguém vai vender, porque as pessoas vão usar. E essas pessoas que vão vender que são pessoas vulneráveis, geralmente pretos, pobres, que estão nas regiões mais periféricas da cidade ou nas biqueiras, essas pessoas vão ser presas. Então eu tenho muito medo dessa discriminalização chegar e falar assim: ‘legal, ganhamos, demos um passo de que consideramos legítimo o uso’. Mas e aí? Não tem como vender, as mesmas pessoas que tão vendendo vão continuar sendo presas por vender.”


“O discurso sobre as drogas foi feito muito em cima do medo”


“O grande produtor, o cara que trás de caminhão, a polícia que se corrompe e deixa esse cara entrar, nenhum desses vai preso. O cara que pega essa grana e lava no banco, muito menos. E a distinção não é clara. Tem muitos usuários que passam um pouco pros seus amigos, pra sustentar o seu próprio uso. Tem outros pequenos vendedores que são usuários também. Então é muito tênue essa fronteira e quem está na zona cinzenta e que vai ser preso. Então, de fato, a coisa pode agravar assim. E é um pouco como já é. Hoje em dia, se o cara é pego com uma quantidade um pouco maior no lugar certo ele não é preso, mas em compensação, outro cara que tá na quebrada usando o dele, o policial vai olhar e falar: ‘poxa, agora eu num posso mais prender ele, levar pra delegacia por conta de uso, então vou colocar como traficante e ele que se vire depois para arranjar um advogado e explicar que não é’.”


ATUAÇÃO DA POLÍCIA MILITAR


“A polícia militar é um resquício de uma época negra do nosso país, da ditadura. E ela tem o método militar de funcionar, que é uma instituição que se auto-protege, que se reforça. Então não é fácil você ir contra a polícia, ela é uma corporação enorme com milhares de soldados. É muito improvável que a polícia vai se punir, se auto-moderar. A gente precisa de uma moderação externa, e eu acho que essa moderação passa pela extinção da Polícia Militar.”


ASSOCIAÇÃO CULTURAL CANNABICA


“[A ideia é] trabalhar no sutil, no plano da cultura. O nosso objetivo é encontrar um policial militar que não concorde com isso [guerra às drogas] e que venha conversar com a gente. Mudando a cultura com a nossa família, com os nossos professores, com o nosso chefe no trabalho, pra que, aí sim, isso chegue lá nos que estão no poder.”


“A polícia militar é um resquício de uma época negra do nosso país, da ditadura”


“Mais do que descriminalizar ou legalizar a maconha, é normalizar o uso dela. É tornar ela uma coisa tão normal como você colocar açúcar no café, que são duas drogas.”

“A gente vai demorar um pouquinho. Eu acredito que vão ser pequenos passos. O primeira passo ainda vai demorar alguns anos. E para legalizar legal, ‘grandão’, vai levar mais de dez anos.”


MERCADO DA LEGALIZAÇÃO


“Eu acredito que vão ser etapas. Essa primeira etapa, de mudança gradual, vai favorecer que a gente disperse um pouco essa grana que vai vir com um mercado muito poderoso. Se a gente tem medo do monopólio a gente tem que ter medo do monopólio do PCC, que dominam esse mercado e só eles ganham dinheiro com isso. Eu acredito que a legalização, ainda que de uma maneira um pouco torta, vai trazer dinheiro para a mão de pessoas bacanas, que pesquisam a maconha, que são apaixonadas pelo tema. Então eu acho que é um belo mercado que tá nascendo aí. E no Brasil a gente tem que tentar aproveitar, porque, como a coisa aqui está sendo demorada, é capaz que quando legalize já tenham empresas de fora preparadas para esse mercado. Então se a gente conseguir, no limite, ir criando as nossas iniciativas e bolando algum jeito de estar por dentro desse mercado também.”


OUTRAS DROGAS


“O profeta é verde mas ele gosta de todas as cores do arco-íris. Quando a gente tem uma experiência que é bacana e vive ela, a gente fala que ela foi bacana e que foi interessante em algum aspecto. O mais importante é a gente encarar e falar honestamente.”


“O profeta é verde mas ele gosta de todas as cores do arco-íris”


“Em primeiro lugar, a liberdade do indivíduo, a autonomia. A gente dar informação, suporte, subsídio para que cada cidadão possa fazer suas escolhas e saber o que é melhor para si. E depois dessas informações boas serem oferecidas, que cada um escolha a droga que quer usar e como usar. O que eu defendo é uma regulamentação de cada uma delas. Cada droga precisa ser cuidada de uma maneira diferente. A gente não vai dar pro Rivotril o mesmo tratamento que a gente dá para a Aspirina. A gente não vai dar para a maconha o mesmo tratamento que a gente dá para o crack ou a cocaína. Se a gente considerar que esse direito é do indivíduo e que as drogas existem, o ideal é a gente legalizar cada uma delas com um plano específico de legalização para cada uma.”


PERSONAGEM


“Foi mais um dos insights da erva que a gente nem sabe da onde vem, daí que eu vou acreditando em uma espiritualidade canábica. Em 2011, quando a gente fez a Marcha da Maconha, que foi duramente reprimida pela polícia, a gente falava pra galera: ‘não deixa de ir para a marcha porque você pode ser visto numa foto, pode sofrer processo. Põe uma fantasia, uma máscara’. E, naquela época, eu descolei um manto verde, uns dreads, um óculos escuro e saí pra marcha sem pensar em nada. Aquilo fez o maior sucesso, eu pensei: ‘porque não levar adiante?’. Aí eu usei esse personagem como meu perfil do Facebook e dei um nome. E para pensar no nome eu pensei: ‘a maconha vai ser a erva do próximo milênio’, então, é o Profeta Verde que vai trazer essa mensagem de que a maconha é a cura do século XXI. Depois eu descobri que isso facilita a comunicação com as pessoas, elas lembram com mais facilidade”.


VAIDAPÉ NA RUA


| O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo às segundas, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87.5 FM, e no mundo inteiro através do site da rádio.

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