18 de setembro de 2015

‘Volta pra favela!’


Na última terça-feira (15), uma mesa de debate com o tema “Programas Assistencialistas” organizada pela PUC-JR, agência de consultoria filiada ao curso de economia da PUC-SP, recebeu uma intervenção de estudantes ligados ao curso de Serviço Social e ao coletivo de negros e negras da universidade, o NegraSô. Uma vez no local, os estudantes foram bombardeados com xingamentos racistas, silenciados em suas falas e quase expulsos pela segurança da universidade. Abaixo, leia a nota de repúdio publicada pelo coletivo NegraSô em resposta ao ocorrido.

Por NegraSô

Esse texto não começa com a citação de uma poesia e sim com as ofensas ditas a nós…

Nós do NegraSô – Coletivo de Negras e Negros da PUC-SP, vimos por meio desta nota nos posicionar diante do ocorrido durante o evento “Debate sobre programas assistencialistas”, promovido pela “PUC Júnior Consultoria”, na noite da última terça-feira (15). Através desta iremos manifestar nossa versão e opinião dos fatos que ocorreram de lá pra cá.

A mesa de debate, composta por Eduardo Suplicy, José Maria Eymael, Luciana Temer e Leandro Narloch, tinha como tema “Programas Assistencialistas”, debate esse que logo chamou a atenção de alguns estudantes da universidade tanto do coletivo, como do curso de Serviço Social. Primeiro porque o termo “Assistencialismo”, que caiu em desuso, refere-se a caridade ou benevolência, e o termo correto a ser utilizado é “assistência social”, pois se trata de direito subjetivo público, garantido pela Constituição Federal e que se expressa por intermédio de políticas públicas da assistência social: estamos falando de um DIREITO e não de boas ações e caridades!

Segundo, porque para além do mal uso do termo, que demonstra completo afastamento e desconhecimento do conceito, pontuamos que a PUC-JR, braço do curso de Economia da FEA-PUC, um dos mais elitizados e com menor porcentagem de estudantes negra(os) e bolsistas da universidade, convocou uma mesa para discutir “programas assistencialistas” que afetam diretamente essas(es) estudantes, sem a presença de um único convidado que representasse os interesses de qualquer minoria historicamente excluída (pobres, negra(os), mulheres e LGBT’s) os verdadeiros sujeitos detentores do direito a esses programas sociais, o que para nós não faz sentido algum, exceto se considerarmos a promoção dos patrocinadores e o caráter mercadológico do evento.

“Acreditamos ser, no mínimo, irresponsável a promoção de uma mesa de discussão sem a presença dos verdadeiros protagonistas”

Mas fica também a pergunta: o que esperar do “júnior”, como já se refere o próprio nome, a versão herdeira da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo? Uma universidade elitista, com catracas sociais e que cada dia mais vai na contramão ao direito à educação?
Quem apoia seu projeto está longe de um debate real sobre as classes sociais exploradas e as mazelas dessa sociedade.
Além disso, repudiamos o caráter elitista e distante da realidade do evento, que se comprovou ainda mais em razão do valor cobrado: R$15 por participante. Fica mais uma pergunta: debate pra quem?
Nos mostramos indignados!

Estudantes indignados, que quiseram participar do debate, expressar suas opiniões, sobre tema da qual são sujeitos, e sobre as contradições de se travar um debate dessa forma, mas que tiveram as portas fechadas em razão do valor de ingresso. O pedido para adentrar de forma gratuita nos foi negado.

“Indignados porque diariamente lutamos para existir e nos fazer ouvir dentro de uma sociedade na qual o racismo e as opressões estruturais estão enraizadas em todas as esferas, tanto dentro quanto fora dos muros da universidade”

Esses estudantes querem de fato debater programas sociais e assistência? Como irão lidar com essa parte da população na prática, se não suportam nem mesmo ouvir de uma estudante de sua universidade a realidade que ela enfrenta sem despejar seu racismo e classismo?

Nossa indignação se dá ao fato de que na batalha diária que travamos pela nossa afirmação e luta como negra(os), na ocupação de espaços que fazem de tudo para evitar nossa presença, nos foi questionado no “debate” se éramos estudantes da universidade: “vocês não tem cara de estudantes da PUC”. Qual é a ‘cara’ de um universitário da PUC?

Ficamos indignados porque cansamos de ver pessoas brancas, heteronormativas e de classes abastadas discutindo com suposta propriedade questões completamente alheias a sua realidade, questões sobre as quais podem apenas teorizar, uma vez que não sentem na pele a real face da descriminação, da desigualdade e da necessidade por políticas públicas. Acreditamos sim em aliados, mas não naqueles que nos deslegitimam e ridicularizam.
Ficamos indignados porque estamos cansados de sermos taxados de “negros raivosos” e diminuídos em nossos discursos sempre que reinvidicamos nosso lugar de fala.

Ficamos indignados porque, apesar da organização do evento ter divulgado uma nota na qual diz que “o objetivo do evento foi proporcionar um debate (…) com o intuito de aguçar o senso crítico e instigar a maior participação política e social dos espectadores.” , a própria chamou a segurança da universidade para nos explusar do local, não antes do público ter nos silenciado, por meio de vaias e xingamentos, todas as falas dos que ali estavam.

Questionamos novamente: se o objetivo era aguçar o senso crítico dos espectadores, ele foi alcançado ao expor a intolerância e o racismo dos convidados do evento?
Senso crítico pressupõe questionar o privilégio de poder apenas teorizar a distância, de dentro da academia, sobre a vida da população pobre e negra.
Na PUC-SP somos sim poucos, mas somos fortes. Vide a irrisória política de permanência estudantil, reduzida a um auxílio alimentação precário, as altas mensalidades somadas a pouquíssimas bolsas de estudo que provam pra quem esta universidade é planejada. Nossa luta vai na contramão do projeto da Fundação São Paulo e é pelos muitos que virão e que poderão sonhar e viver um projeto de educação gratuito, livre, emancipador, que combata as opressões. Queremos e iremos abalar e contribuir para acabar com essas estruturas opressoras dessa sociedade.

Por fim, não pensem que a opinião de Leandro Narloch, da Veja, um dos convidados, nos surpreende, com a manchete “Movimento negro invade debate da PUC-SP e provoca a indignação de quase 300 estudantes” pois ele representa a face da elite racista brasileira, representa a opinião de muitos daqueles que proclamaram ofensas e mais ofensas naquele espaço. E conhecemos bem a face daqueles que nos querem bem longe dali.

Aos que concordam com sua opinião, questionamos o por que de sermos nós, parte do movimento negro, a prejudicar nossa luta como ele afirmou?
Ele finaliza seu texto alegórico como faz todo dia a sociedade, com uma frase que pôde confortar seu coração para dormir em paz enquanto no Brasil, 127 anos após a falsa abolição (um país que passou mais tempo com o escravismo formal do que sem ele, foram 388 na última nação da América que aboliu “oficialmente” a escravidão) somos 51% da nação, mas também os que estão nos piores postos de trabalho, enquanto que minorias nas universidades, nos espaços de representação e poder. Estamos nas maiores taxas de desnutrição, analfabetismo, no sistema prisional, nas unidades socioeducativas e nos índices alarmantes de homicídios e genocídio. Tamanho cinismo não é tolerado por nós!

Pontuamos também que não esperamos nada de diferente da grande mídia, braço preferido do sistema. Leandro não nos choca ao nos acusar de sabotadores da causa negra, pois sabemos que quem sabota nossos direitos cotidianamente é o Estado e todos os poderosos, com o racismo institucionalizado, com a ausência de políticas públicas, com a ineficiência das existentes. Ele ainda nos chama de adolescentes mimados em meio à Pontifícia elitista e tenta legitimar suas palavras distorcendo fatos e conclamando que outros negros se desculparam por nossa ação e o apoiaram: ‘Palmas para ele, pois é o que quer. Quem será o mimado?’
Conhecemos muito bem o discurso daqueles que tentam nos separar enquanto vivem em seu lugar de conforto, longe das mazelas sociais. Ele ensaia a tentativa de nos ensinar que para negro ser ouvido, tem que falar mais baixo, com menos incomodo, sem deslocar lugar de privilegiado.

“Volte para a favela”, disseram eles no debate sobre “assistencialismo”, para criar projeto para negro e pobre ficar bem, bem longe dali!

 

Resistimos na luta!

NegraSô – Coletivo de Negras e Negros da PUC-SP


Matéria da Veja, livre de clicks para os coronéis da mídia


Assinaram a nota

Movimento RUA – Juventude Anticapitalista
Levante Popular da Juventude
Centro Acadêmico Benevides Paixão – Jornalismo – PUC-SP
CASS – Centro Acadêmico de Serviço Social da PUC-SP
Coletivo Feminista 3 Rosas – FAFICLA PUC-SP
Coletivo Contestação Direito
Coletivo Estopim
Kilombagem
Revista e Coletivo Vaidapé
Coletivo Feminista Yabá – Direito PUC-SP
Núcleo de Consciência Negra da USP
APROPUC – Associação dos Professores da PUC-SP
Frente de Esquerda da PUC-SP
Coletivo Feminista Libertas – Psicologia PUC-SP
Festival Musical Contra a Redução da Maioridade Penal 15contra16
Coletivo Negro da UNESP Ourinhos
Diretoria de Negras e Negros DCE Mário Prata UFRJ
Coletivo Abisogun
Centro Acadêmico dos Estudantes de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social – CAGesP UFRJ
CEN – Coletivo de Estudantes Negros
Bloco das Pretas

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