02 de outubro de 2015

Ipanema Uber Alles: A segregação racial das praias cariocas


Na cidade maravilhosa, blitze em ônibus e apreensões arbitrárias de menores das periferias viraram rotina nas prais da zona sul


Por Pedro Pessanha
Foto: Safira Moreira

Ali na beirada do Rio de Janeiro, na parte em que a terra toca o mar, contava-se uma lenda que uma faixa de areia delimitava o espaço mais democrático da cidade. Uma pequena área litorânea onde corpos negros suburbanos conviveriam com moradores das coberturas de Ipanema, estendendo suas peles para o sol queimar.

Se ainda existiam pessoas que acreditavam nessa lenda, depois dos acontecimentos dos últimos meses, devem ser poucas. Uma nova política da Secretaria Municipal de Transportes da Prefeitura pretende tirar das ruas ou encurtar o itinerário de 48 linhas de ônibus. Dessas, 18 iam da zona norte até as praias da zona sul.

A quem interessa esse ataque ao direito à cidade e a mobilidade urbana? Segundo a secretaria, os ônibus seriam melhor utilizados – ou seja, mais lotados – e o trânsito diminuiria nos bairros, tirando de circulação 35% da oferta de ônibus na zona sul, de 2000 carros para 1300.

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Enquanto o corte das linhas não entra em vigor, a Polícia Militar faz o possível para impedir que o jovem negro tenha acesso às praias. Coletivos que cruzam a cidade são alvos de blitze espalhadas pelo caminho, em que PMs retiram dos ônibus pessoas que se encaixam no perfil que a polícia procura.

O Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro e um dos idealizadores do polêmico projeto das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), José Mariano Beltrame, defendeu a política adotada. “Como é que deixam um menor sair de casa só de sunga, a quilômetros de distância de casa, sem dinheiro para voltar, sem dinheiro para comer, pra beber?”, disse.

Revistaram e apreenderam dezenas de jovens nos últimos finais de semana. No dia 23 de agosto, 15 menores foram apreendidos, mesmo sem ter cometido nenhum delito. A ação foi criticada por movimentos sociais, que apontaram para a ilegalidade do ato e o racismo institucional que o motivou.

Após o ocorrido, o juiz Pedro Henrique Alves, da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso da capital, proibiu que PMs realizem apreensões de adolescentes a caminho da praia sem constatação de flagrante delito. Um Habeas Corpus que apenas assegura o cumprimento do que já está previsto na Lei. Beltrame reclamou que a polícia estava sendo “constrangida” e de “mãos atadas”.

Ora, não seja por isso. No domingo do dia 20 de setembro, moradores de Copacabana se organizaram em gangues de justiceiros que saíram pelas ruas linchando aqueles que julgavam suspeitos e depredaram ônibus que cruzavam o bairro – curiosamente, um 434 e um 476, linhas que ligam a zona sul à zona norte da cidade. Foram aplaudidos por muitos moradores das áreas mais ricas, mortificados com a presença de corpos suburbanos em suas ruas e praias.

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Aphartheid carioca? – Fotos: Reprodução/ Coletivo Mariachi.
Na da esquerda, os créditos são de Gustavo Stephan


As blitzes voltaram a ocorrer no último final de semana, sem a presença de Assistentes Sociais, como prometido anteriormente pela Polícia Militar. Beltrame disse que os órgãos responsáveis alegaram falta de pessoal e prometeu voltar a prender menores como bem entender: “Se ninguém atender meu chamado, voltarei com as ações de recolhimento de menores, como aconteceu em agosto, já neste final de semana. A polícia foi tolhida em sua missão de prevenção”.

A multiplicação de barreiras bota a cidade no caminho para uma contínua fragmentação e exclusão social. O Rio de Janeiro que se vê no cartão postal vai tornando-se exclusividade de turistas e de quem tem dinheiro para pagar os alugueis altíssimos da região. Mas essa juventude não vai abandonar a praia assim tão fácil, essa disputa está só começando. O verão vem aí.

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Foto:Reprodução

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