18 de outubro de 2015

Livro ‘Corumbiara, Caso Enterrado’ provoca debate sobre o jornalismo


Livro-reportagem retrata todos os lados envolvidos no massacre que há 20 anos deixou 12 camponeses mortos em Rondônia


Por Patricia Iglecio
Fotos: Gerardo Lazzari/Editora Elefante

Além da relevância de um livro sobre o maior conflito agrário pós ditadura no país, Corumbiara, Caso Enterrado chama atenção para aquilo que o jornalismo contemporâneo tem se afastado: investigação e reflexão. Publicado em uma editora independente, o livro buscou retratar todos os lados envolvidos no caso.

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O massacre em Corumbiara aconteceu durante uma reintegração de posse em julho de 1995, na fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia, e deixou doze camponeses mortos. O  jornalista João Peres, autor do livro, foi entrevistado no programa de rádio Vaidapé na Rua e contou sobre o processo de apuração, produção e publicação.

Corumbiara, Caso Enterrado investigou a participação de policiais, fazendeiros, movimentos sociais e dos sem terra. Peres considera que o trabalho cumpriu com o papel do jornalismo de dialogar com o maior número de pessoas.

“O debate em várias escolas de Rondônia fez com que alguns estudantes tomassem conhecimento do caso de uma maneira inédita. Isso não aconteceria se eu tivesse feito um livro voltado a circular unicamente dentro dos mesmos grupos que já conhecem essa história”

O livro foi lançado em Rondônia e contou com palestras em escolas públicas, universidades e debates com movimentos sociais. “Foi muito gratificante entregá-lo nas mãos de professores para que eles possam lembrar o caso para seus alunos. Muitas pessoas da região desconhecem o caso”, diz João.

SOBRE O CASO

No dia 9 de agosto de 1995 a reintegração de posse da Fazenda Santa Elina, em Corumbiara, no sul de Rondônia, deixou nove posseiros mortos, dois PMs e uma pessoa não identificada. Foi o maior conflito agrário pós-ditadura no país.

O livro faz uma investigação sobre os lados envolvidos, aponta para a participação do fazendeiro Antenor Duarte, e levanta a suspeita de que ele tenha pressionado juízes, cedido aeronaves, veículos e jagunços para ação policial. Duarte foi denunciado pelo Ministério Público, mas o pedido foi negado pelo juiz, que alegou a falta de provas que ligassem o fazendeiro a ação dos pistoleiros.

O senador Valdir Raupp (PMDB-RO), que na época do massacre era governador de Rondônia, possivelmente recebeu uma carta das famílias que alertava sobre o risco da reintegração. O assessor de Raupp foi procurado por Peres e informou que seu cliente “se reserva o direito de conceder entrevistas apenas sobre assuntos que lhe sejam positivos para sua imagem”. Atualmente, ele é um dos parlamentares investigados na operação Lava Jato e é acusado de ter recebido R$ 500 mil de propina da Petrobras para sua campanha política de 2010.

VEJA A ENTREVISTA COMPLETA

VDP: Como foi a experiência de ter publicado o livro em uma editora independente?

JP: O fato desse livro ter saído por uma editora independente foi significativo e importante, me trouxe uma série de experiências novas na carreira. Primeiro porque fazer um livro é bem diferente de fazer uma reportagem. Segundo que publicar um livro em uma editora independente você acaba se envolvendo em muitas mais etapas do que se publicasse em uma convencional. Eu tive que participar de uma série de etapas, escolher a fonte que seria usada, as fotos, a capa, participar dos processos de revisão, conversar bastante no processo de edição do livro para tentar chegar no melhor formato possível. Ao mesmo tempo que implica em um desgaste, é cansativo, é também muito prazeroso, porque me da muita propriedade para falar sobre o livro, para entender como é a construção do livro do começo ao fim. Tudo isso eu não teria se fosse um projeto convencional.

Quais foram os aspectos mais significativos da sua viagem a Rondônia?

O interessante da viagem a Rondônia foi também que se articularam redes de contatos movidas não por dinheiro, mas por interesses em comum. Passei por 15 municípios, todos mobilizando pessoas de universidades, como a Universidade Federal de Rondônia, universidades particulares e escolas de ensino médio. Nós entramos em contato com o outro, apresentando pessoas que poderiam ter interesses em comum e que se uniram em torno do livro. Isso foi muito interessante da viagem. Tivemos o prazer de conhecer pessoas que nos hospedarem em suas casas, ou que conseguiram realizar eventos, agendar entrevistas, se mobilizaram muito por essa agenda. E o legal é que a gente acabou circulando por públicos e espaços muito diferentes, foram 15 ou 20 eventos e cada um tinha a sua peculiaridade, alguns voltados para estudantes de ensino médio. Dependendo do local a gente encontrava estudantes que nunca tinham entrado em contato com o caso de Corumbiara. São estudantes que estão em Rondônia e não conhecem o caso Corumbiara, o que chamou muito a atenção da gente. Tivemos debates com historiadores, eventos com públicos de jornalistas, daí era outro debate, com uma riqueza muito grande. Foi muito plural essa passagem em Rondônia.

A viagem surpreendeu suas expectativas?

A gente nunca poderia imaginar que fosse ter tanta recepção. Logo no primeiro evento tinham 500 alunos do ensino médio, nos falaram que nunca os auditórios estiveram tão cheios, e isso foi muito interessante. Na maior parte dos debates tivemos conversas muito ricas, em que entramos em contato com outras histórias. Pessoas que já leram o livro, no geral, receberam muito bem, esse era um receio que a gente tinha, porque quando fizemos a opção de contar essa história retratando todos os pontos de vista, sem tomar uma linguagem muita clara em favor desse ou daquele grupo, achávamos que ele poderia ser odiado por todos os lados. No fim das contas recebemos um retorno muito bom do livro, de entendimento da escolha de retratar todos os lados. Aliás, isso é algo que diz respeito ao nosso momento no jornalismo. Algumas pessoas se surpreenderam com um jornalismo que tentou tratar com honestidade uma questão, então as pessoas estão esperando o pior do jornalismo.

Como foi a repercussão na mídia na época do caso? Qual a relação do jornalismo na época com o atual?

É interessante porque a leitura dos jornais daquela época e de hoje mostra a decadência de uma maneira muito clara, principalmente da imprensa tradicional. Na época dos fatos, em 1995, há 20 anos, os grandes jornais cobriram o caso de uma maneira, não da para dizer isenta, mas de uma maneira honesta, que contemplava versões sobre os fatos. Em alguns casos se indignava com o que havia acontecido, cobrava de uma maneira muito clara a atitude do governador, do poder judiciário, contra os mais poderosos, o que é impensável hoje em dia. Tanto é que no processo de divulgação do livro nós conversamos com muitos colegas da imprensa tradicional e da dita alternativa, e na imprensa tradicional foi baixíssima a receptividade com o caso, em alguns momentos com uma postura muito clara, não havia espaço para tratar da questão de sem terra, de pobre. Acabou realmente a margem para que a imprensa tradicional trate desse assunto, são redações muito pouco plurais.

Como estão os movimentos sociais e o jornalismo independente em Rondônia?

Os movimentos sociais estão bem articulados lá até por uma questão da história de Rondônia, por ser esse estado que teve uma migração enorme durante a ditadura. Muito rápido muita gente se mudou para la e aí tiveram que se articular em movimentos. Hoje é uma concha de retalhos, realmente tem muitos movimentos em Rondônia. Em relação a imprensa independente encontramos um terreno mais deserto, tem pouquíssimas iniciativas. A gente vê alguns estudantes se articulando, principalmente lá em Vilhena, na Federal de Rondônia, no único curso público de jornalismo no estado. Mas no geral os veículos refletem ainda uma lógica de muita proximidade com o poder político, que é algo que acontece em São Paulo – a proximidade com o poder econômico e político – mas de uma maneira muito menos evidente porque o senador e o deputado não estão ali do seu lado como em Rondônia. Lá isso é muito mais próximo e claro, o que cria uma gama de veículos que estão a serviço apenas de agradar um determinado político ou desagradar outro, sem muita preocupação com aquilo que pode ser realmente importante para a população. Isso é até uma tradição Assis Chateaubriand de veículos que ficam ressaltando políticos até que ganhem alguma coisa deles. Esse comportamento é bem claro em Rondônia, muito comentado entre os jornalistas e até naturalizado.

Alguns estudantes, durante um dos debates em Rondônia, acusaram o livro de ter sido encomendado pelo governo. Essa discussão demonstra que o livro está gerando reflexão e cumprindo o papel do jornalismo, ou foi apenas uma repercussão negativa?

Acho que o passar do tempo vai dizer isso. A princípio foi muito ruim eu ter ficado tantas horas dando explicação sobre uma coisa que não existe e desviando o foco do debate verdadeiro sobre o livro. Agora, que o livro provocou reflexão, sem dúvidas. Acho que entre jornalistas e não jornalistas ele provocou a reflexão sobre qual deve ser o papel do jornalismo. O livro consegue garantir a existência de um jornalismo que possa ser independente. Acho que esse caso deixa bem claro a incompreensão do que deve ser o jornalismo. Fazer um jornalismo que tenha um lado claro não significa apagar todas as suas marcas de inteligência desse. Fazer com que ele simplesmente faça a defesa de uma causa, não é essa a ideia. A ideia é do jornalismo que eu faço é dialogar com o máximo possível de gente e o livro cumpriu esse papel. Nós termos entrado em várias escolas fez com que alguns estudantes tomassem conhecimento do caso de uma maneira inédita. Isso não aconteceria se eu tivesse feito um livro voltado a circular unicamente dentro dos mesmos grupos que já conhecem essa história. Então eu acho que falta a compressão de que o jornalismo para que cumpra o seu papel e sirva uma causa ele deve tomar o cuidado de respeitar a inteligência do leitor.

Quanto tempo durou o processo de apuração?

Eu comecei em 2011 com uma entrevista com o Valdeminr Gilberto Ramos, que é sem terra, condenado por esse caso e foragido desde 2004. Dessa entrevista com ele surgiram uma série de questões, a gente continuou conversando e eu decidi ir a Rondônia em 2013 e foi um processo bem básico, bem normal em termos de jornalismo. De um lado levantar entrevistas, do outro documentos. O que a gente fez foi analisar os documentos do processo, pegar um ou outro documento que ajudam a formar aquilo que é Rondônia hoje, livros de geografias. De outro lado conversar com pessoas de varias áreas e vários níveis de envolvimento com esse caso. Foram 70 antevistas com policiais, sem terra, com o juiz do caso, promotores, jornalistas. Buscamos um painel bem plural.

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