01 de outubro de 2015

O Caso do Pixador e a Supervia no Rio de Janeiro


Por Noás *
Fotos: Cripta Djan


No dia 11 de setembro, circulou nos meios de comunicação e nas redes sociais um vídeo em que seguranças da Supervia – empresa concessionária que administra o serviço de trens na cidade do Rio de Janeiro – registram o momento da apreensão, supostamente em flagrante, de um pixador. No auge do seu abuso funcional, agridem fisicamente o pixador como forma de puni-lo pelo ato de pixar o muro da estação de trem.

Bem, antes que reproduzam a equação, tolhida de preconceito, pixador = vândalo – equação propagandeada principalmente pelos meios de comunicação privados e solidamente enraizado no imaginário da população – queria chamar atenção para algumas reflexões para, assim, prosseguir com a redação. Antes de ouvir/ver na TV, qual outro meio em que a informação sobre pixação é difundido? Já conversou com algum pixador para saber sua visão de sociedade? A pixação é arte ou vandalismo? Será que o pixador está deslocado da realidade social, baseada numa brutal desigualdade? Não temos interesse em responder as perguntas feitas acima, todavia, tentaremos minimamente trazer uma outra versão sobre a pixação que a maioria da população não está familiarizada.

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Vale lembrar que a Supervia pertence a Odebrecht Transport, resultado de uma parceira púbico-privado, em que o Estado arca com os prejuízos e a empresa com o lucro. Na teoria, a Supervia deveria fornecer serviço com qualidade, atendendo a necessidade do usuário, isto é, de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que, diariamente, são submetidos aos mais diferenciados constrangimentos durante a viagem.

No entanto, no dia 30 de julho deste ano, após um trem atropelar e matar um trabalhador – preto e pobre – a companhia autorizou que mais dois trens passassem por cima de seu corpo depois de morto . Tudo isso, para garantir seu lucro. Após o protagonismo da empresa em tamanha covardia e brutalidade, nada aconteceu com a mesma. Nesse sentido, chamamos a atenção para uma incoerência em relação ao pixador: enquanto um trem passa por cima de uma pessoa com autorização dos responsáveis, o pixador por fazer um rabisco em uma parede é covardemente agredido.

Cabe lembrar que a pixação é uma legítima intervenção artística, sobretudo política e não se agride fisicamente nenhum ser humano, pois lembrem-se: uma parede ou um muro NÃO TEM VIDA. Isso expressa claramente uma característica da sociedade capitalista: O Estado protege COISAS em detrimento de PESSOAS. Basta lembrarmos da lei “antiterrorismo”, recentemente aprovada no Congresso. Em síntese, uma clara repressão e controle daqueles que contestam a ordem burguesa.

“Ah! Mas você está tentando buscar reconhecimento da pixação?”

De forma alguma! A essência da pixação está na transgressão, demonstrando seu caráter político, critico-social e artístico pela sua forma de intervenção na paisagem, expressando seu conteúdo com base em uma realidade concreta.

O que se está expondo aqui não é uma reivindicação de inserção na sociabilidade burguesa. Pelo Contrário, o pixo é uma manifestação crítica da própria sociedade burguesa, cujo pilar de sustentação é uma maioria sendo explorada por uma minoria.

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“Mesmo assim, ainda acho a pixação um ato de vandalismo e não considero arte!”

Graças as ferramentas de dominação, inseridas em vários aspectos da vida social, esse discurso é reproduzido nas escolas, nas universidades, na TV e até mesmo nos movimentos de “esquerda”.

Atualmente o pixo é reconhecido como manifestação artística e cultural! Esse reconhecimento veio do próprio curador, Moacir dos Anjos, da 29ª Bienal de SP, ao convidar pixadores para participarem do evento. Essa participação se deu em um viés de troca de experiências e entendimentos do universo da pixação e da cultura. E mais ainda: sem qualquer tentativa de cooptação dos pixadores ou apaziguamento da transgressão da pixação. Foram respeitados as diferenças inerentes à pixação, ao mesmo tempo vedando qualquer possibilidade de capitalização do pixo pelo mercado, que adora uma novidade. Sem contar que pixadores de São Paulo foram convidados para expor sua arte em uma exposição em Berlim, na Alemanha, e outra em Paris, na França.

Então, por que nesse caso a pixação não é vista como vandalismo? Exatamente porque, primeiro, a pixação veio da rua e expressa uma sociabilidade da rua, portanto perderia sua essência caso fosse institucionalizada, assim como aconteceu com o graffiti no Rio de Janeiro. Portanto, a visão do pixo não cabe nas galerias de arte. Segundo, porque há uma enorme diferença do graffiti para o pixo. Na ideia da maioria da população, graffiti é aquele desenho todo colorido que, em comparação com o pixo, possui mais aceitação. E ai que está a diferença: a transgressão! Embora tenham muitos graffiteiros que mantiveram a essência da transgressão. Além disso, o pixo foge de qualquer parâmetro de controle e, se isso acontece, é mais fácil criminaliza-lo do que entender. Dessa forma, fica evidente que a pixação, do ponto de vista da legalidade, não busca esse tipo de reconhecimento.

Cabe mencionar uma outra percepção encontrada no ato dos seguranças, que corresponde ao caráter classista na ação destes capatazes do empresariado. A ação deles foi em cima de um pixador, negro e pobre. Porém, se o mesmo fosse branco e de classe média, como recentemente foi revelado que o ator do programa Malhação, Brenno Leone, era pixador, com toda certeza o tratamento seria diferenciado. Ou mesmo quando a atriz Cissa Guimarães pixou o Túnel Acústico, na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, em homenagem ao seu filho.

O fato é, o pixo é uma forma de intervenção política e artística da periferia em um mundo ancorado na exclusão, portanto, não deve ser tratado como crime. Contudo, sabemos que, ainda assim, será criminalizado. E se o pixo é criminalizado, principalmente pela classe dominante, é porque sua arte ainda é das ruas e é uma ferramenta para a subversão.


* Noás, é pixador, membro da grife “Os mais Fortes” e “Irreverentes-RJ”, professor de Geografia e Educador Popular

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