22 de outubro de 2015

Quando o colaborativismo tomou conta da Praça das Artes


Em mais uma edição do festival CoCidade, evento reúne iniciativas colaborativas e aponta para uma cidade mais compartilhada e unida

Por Henrique Santana
Fotos: André Zuccolo

Era sábado, 26 de setembro, quando a Praça das Artes na famosa Avenida São João, centro de São Paulo, recebeu dezenas de artistas, coletivos e iniciativas colaborativas na segunda edição do festival CoCidade. O evento teve de tudo: projetos de permacultura urbana, mostra de cinema colaborativo, feira gastronômica, intervenções artísticas e shows. A ideia foi de reunir, em um único espaço, iniciativas que atuem através de vivências compartilhadas. A Vaidapé somou forças no evento com a criação de uma ilha de conteúdo colaborativo, ao lado de outros veículos de mídia independente de São Paulo.

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Coleta seletiva, apresentações de dança, circo e até graffiti do artista Mauro. Algumas faces do Cocidade


MÍDIA COLABORATIVA


Na ilha de conteúdo, foi organizada a roda de conversa “Das quebradas ao centro: os desafios da mídia livre em São Paulo”. Participaram da mesa, Letícia Bahia, da Revista AzMina; Cauê Ameni, do site Outras Palavras; Flávia Gianini, dos Jornalistas Livres; Vinícius Lima, do SP Invisível; Iuri Salles, da Vaidapé; Cristian Braga, da Mídia Ninja; e Douglas Belchior, do Blog NegroBelchior.

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Da esquerda para a direita da mesa: Cristian Braga, Iuri Salles, Vinícius Lima, Thiago Gabriel (Mediador), Flávia Gianini, Cauê Ameni, Letícia Bahia e Douglas Belchior

Das dificuldades de financiamento aos problemas de representatividade, um ponto em comum costurava a conversa: a importância da mídia independente em uma imprensa concentrada na mão de poucas famílias.

“Na imprensa tradicional a gente não podia chamar uma ocupação de moradia de ‘ocupação’. Se é uma ‘invasão’ da propriedade privada, tinha que usar o termo invasão”

— Flávia Gianini

A representante dos Jornalistas Livres na roda ilustrou bem a questão. Flávia, que já trabalhou na grande mídia, demostrou as estratégias de manipulação da linguagem usada nos veículos, uma forma de maquiar a posição política sob o manto da imparcialidade. “Lá [na imprensa tradicional], por exemplo, a gente não podia chamar uma ocupação de moradia de ‘ocupação’. Se é uma ‘invasão’ da propriedade privada, tinha que usar o termo invasão”, conta.

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“Quanto que tem de direita organizada no Brasil? Hoje, para fora dos seus castelos, talvez eles estejam mais organizados do que há 10 anos. Mas é pouco. O que eles tem do lado deles são as estruturas de poder. Nós em 200 pessoas não conseguimos fazer um minuto de jornal nacional. São instrumentos herdados das Capitanias Hereditárias [criadas logo após a colonização, quando o Brasil foi dividido em faixas territoriais entregues à administração da nobreza]”, completa o blogueiro Douglas Belchior.

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“A linguagem usada no jornalismo foi criada pelos grupos dominantes. Um dos objetivos da AzMina é mudar a linguagem patriarcal que existe no jornalismo”, comenta Letícia que falou sobre a falta de espaços para a mulher na mídia e a importância de construir uma revista produzida somente pelas minas.

Douglas também ressaltou a importância das novas mídias para o empoderamento narrativo de grupos historicamente excluídos do debate público. Para ele, “hoje, especialmente a partir das mídias alternativas, a gente consegue construir uma outra narrativa, colocando esses elementos [a questão racial e do patriarcado] como estruturantes da desigualdade no brasil. As mídias negras tem um papel muito importante nisso”, coloca.

“A gente não quer falar para a periferia, a gente quer que a periferia fale. Não queremos ser o guitarrista, queremos ser o amplificador”

— Iuri Salles

O jornalista Iuri Salles, da Vaidapé, enfatizou a necessidade de criação de meios para que a periferia tenha voz na mídia. “A gente não quer falar para a periferia, a gente quer que a periferia fale. Não queremos ser o guitarrista, queremos ser o amplificador”, afirma.


FINANCIANDO A MÍDIA LIVRE


A questão do financiamento não ficou de lado. Para Cauê, do Outras Palavras, “trabalhar com editais é um problema para o jornalismo”, afinal, “mudou o governo, acabou. A salvação não são os editais ou os anúncios, são o leitores”, pontua. A questão estava fresca na cabeça de Cauê. O Outras Palavras está na reta final de uma campanha de financiamento coletivo que já atingiu mais de 140 mil reais em arrecadações, uma forma de manter a estrutura da redação através de contribuições feitas pelos leitores.

Letícia também problematizou a questão: “A gente não pode depender desses financiamentos com anúncios que cobram a fatura e influenciam no conteúdo”.

Vinícius Lima, do SP Invisível, página que publica relatos de pessoas em situação de rua, cobrou a falta de políticas públicas voltadas para a periferia, que acaba sendo excluída dos editais e prêmios, muitas vezes por uma questão linguística. “Muito projeto bom perde edital porque o cara não escreveu com uma linguagem técnica”, critica.

Apesar das dificuldades de financiamento, Cristian, da Mídia Ninja demonstrou como a onda de mídias independentes é incontrolável e faz parte de uma dinâmica social. “A comunicação é cultura. Hoje, um moleque da periferia vê um acidente na rua e vai pegar o celular dele para filmar. Essa nova geração está criando narrativas próprias, gerando conteúdo. Isso é nossa cultura e nós vamos fazer isso com grana ou sem grana”, aponta.

Após a roda, o Secretário Municipal de Cultura, Nabil Bonduki, e o de Desenvolvimento Urbano, Fernando de Mello Franco, realizaram uma fala ao lado de representantes de alguns coletivos presentes no evento. João Miranda, da Vaidapé, deixou seu recado: “Se o jornalismo atualmente está uma ‘bosta’, são essas novas iniciativas de mídia independente que tem o poder de mudança”.


E A POLÍTICA?


“O povo brasileiro chora mais pela escravidão americana do que pela nossa. A Dilma toma um Impeachment? Isso é importante ou grave? Talvez seja. Mas nada é mais importante do que o extermínio em massa da população negra brasileira. Essa realidade não comove, e a informação sobre ela não existe.”

Foi com essa frase que Douglas puxou o papo entre os coletivos para o campo da política. O blogueiro ainda completou falando da falta de projetos políticos dentro dos campos progressistas.

“Nada é mais importante do que o extermínio em massa da população negra brasileira. Essa realidade não comove e a informação sobre ela não existe”

— Douglas Belchior

Para ele, são muitas as correntes dentro da esquerda que apresentam diversos pontos em comum, mas que acabam “não se bicando” pelas divergências. “Até que ponto a gente vai reproduzir essa mesma lógica também na comunicação alternativa?”, questiona. Cauê completa: “A esquerda tem uma tradição de sectarismo no Brasil. Prioriza as diferenças ao invés de valorizar as igualdades”.


E TEVE MAIS


A Praça das Artes se dividiu em diferentes ambientes. Além da ilha de conteúdo colaborativo, o espaço CoCriança organizou oficinas de arte-educação e diversos jogos para a meninada. Já o Ecocidade, reuniu 11 projetos colaborativos de sustentabilidade que organizaram no evento oficinas de permacultura urbana e uma feira de orgânicos. Entre eles, o Quebrada Sustentável e o Cidades Comestíveis, iniciativas que foram pauta de matérias da Vaidapé. Clique aqui e aqui para ver.

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Não menos importante, a Expofeira de projetos colaborativos apresentou dezenas de iniciativas de diferentes temáticas. Entre elas, tecnologia e ciência, jornalismo, literatura, gastronomia, eventos, artes visuais, quadrinhos, mobilidade, arquitetura e urbanismo, meio ambiente, ativismo e música. A Vaidapé também participou da feira, expondo projetos e produções.

Durante cerca de duas horas, o evento também recebeu o encontro World Café, que realizou mesas de discussão tendo como tema central o Plano Diretor da cidade de São Paulo, aprovado em meados de 2014.

|  A Vaidapé acompanhou de perto a aprovação do plano, feita sob forte pressão do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST). Clique aqui para ver como foi

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ARTE NA PRAÇA DAS ARTES


Enquanto oficinas, rodas de conversa e feiras inundavam a praça, diversos artistas realizaram intervenções pelo evento. A composição ficou por conta de iniciativas como o Jazz na Kombi e Chaiss na Mala, Bloco Filhos de Santa, Circo do Beco e projeções do Jardim Eléctrico, além do Pimp My Carroça, do grafiteiro Mundano, e o Coletivo Imargem, que reúne diversos artistas da zona sul de São Paulo.

|  Para conhecer melhor o Projeto Pimp My Carroça e o Coletivo Imargem, confira estas matérias produzidas pela Vaidapé cliacando aqui e aqui

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O Encontro de Saraus da Leste e da Sul deram o tom poético do rolê, seguidos de apresentações da Rua do Samba, do Bloco Ilú Oba de Mim e shows das bandas Charlie e os Marretas e da pernambucana Banda Eddie.

|  A Vaidapé também já trocou uma ideia com o Ilú Oba e Banda Eddie. Você pode conhecer melhor os grupos clicando aqui e aqui


CONFIRA MAIS FOTOS DO QUE ROLOU


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Todas as fotos produzidas pela Vaidapé no evento estão em nosso Flicker. Sua reprodução é livre para fins não comerciais. Clique aqui para ver

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