02 de outubro de 2015

Sobre ser o único negro do rolê


Uma carta nada pessoal aos meus amigos brancos. 


Por Jay Viegas

Sobre ter crescido em uma família branca, estudado em escolas brancas e frequentado ambientes predominantemente (se não completamente) brancos, longe de qualquer referência positiva a respeito da negritude, da cultura negra ou de qualquer outra coisa que me fizesse sentir bem sobre ser negra.
E então na adolescência, ouvir aquele monte de bandinha de rock branca, tentando não sair muito no sol por medo de que minha pele ficasse ainda mais escura (me apropriando do “elogio” de que “ah, você nem é tão negra assim”). Sobre odiar meu cabelo porque eu jamais conseguiria fazer com que ele ficasse como o daqueles muleques punks de mechas coloridas nos clipes da MTV.

Sobre ir em restaurantes com a minha família e perceber o estranhamento dos garçons por eu estar sentada na mesma mesa que eles.

Sobre ir brincar na casa dos amiguinhos e perceber a vigilância no olhar de seus pais. Sobre passar metade da minha vida achando que eu era simplesmente bizarra demais para qualquer pessoa se interessar por mim, ficar ouvindo minhas amigas brancas contarem sobre seus casinhos e pensando quando que ia ser a minha vez – pra dai me assumir como gay achando que “ah, se pá que era isso!”, mas passar pela mesma coisa nas baladinhas gays do centro. Sobre crescer, aprender e perceber que, de onde eu venho, pessoas negras não são nem parte do jogo.  E o foda é que isso não pode ser individualizado ou culpabilizado em cima das crianças do colégio – afinal eles (e até certo ponto, eu) nunca viram representações de pessoas negras para além de: 1) a empregada que trabalha lá em casa que é “praticamente da família; 2) o “zikinha” sendo preso no programa do Datena; 3) o jogador de futebol que “tem um cabelo bizarro”; 4) o rapper que eles não cansam de tentar imitar, usando a calça no meio da bunda e decorando letras do racionais como se fossem versos da bíblia; 5) o traficante ultraimpulsivo e violento dos filmes policiais que gera memes do tipo “dadinho é o caralho”. Cara, esse último se pá é o pior. Perdi a conta de quantas vezes eu vi meus colegas brancos serem extremamente racistas imitando esses personagens – e como eu nunca disse nada a respeito. Tudo isso sem nem entrar no tópico da representatividade da mulher negra, porque bom, ela mal existe para além da imagem objetificada da mulata gostosa rebolando no carnaval.

Minha vida toda, na maior parte dos rolês que dei com meus amigos, sempre rolou aquele momento de olhar em volta e pensar “cara, eu sou a única pessoa negra aqui”. E isso me colocava numa posição zuada, como se eu tivesse que representar alguma coisa, como se eu tivesse que me enquadrar em algum padrão de negritude que seria aceito por eles.
Porra, é claro que eu me sentia um alien!

Minha vida toda, na maior parte dos rolês que dei com meus amigos, sempre rolou aquele momento de olhar em volta e pensar “cara, eu sou a única pessoa negra aqui”.

E sobre ser o “amigo negro”. Do tipo “óbvio que não sou racista, a gente é amigo né”. Sai daqui cara. Para de falar “negão” e ficar imitando o 50 cent, tira esses dreads e entende que isso não tem nada a ver com a sua admiração pela cultura negra – se enxerga nessa sua apropriação cultural e perceba o real significado de tratar a sua empregada como cidadã de segunda classe. (Seu filho quer ser preto aaaaah.. que ironia…) Para de falar que você queria ser preto como se ser preto fosse um passaporte pra falar “nigga” e colar no samba. Você não quer ser preto no seu dia-a-dia, você não quer ser discriminado, julgado e excluído. Você não quer ser preto para além da estética. Gente branca tem dessas de amar a cultura negra, desde que ela não seja protagonizada pelos negros…

Para de falar que você queria ser preto como se ser preto fosse um passaporte pra falar “nigga” e colar no samba.

E pare de dizer “eu sei como você se sente”, porque você não sabe. Você acorda diariamente sem ter que parar um segundo para pensar sobre a cor da sua pele e como ela pode afetar o decorrer do seu dia. Pare de falar que “pra mim todo mundo é igual”, que você não vê nenhuma diferença entre nós. Nós somos diferentes migo, e se você não reconhece isso, não reconhece seu próprio privilégio. E isso me faz gostar menos de você. E sério, sério mesmo, por favor PARE de mexer no meu cabelo sem minha autorização e dizer como ele é diferente e parece uma nuvem.
Só pára. Tá feio.

Cara, eu amo todos os meus amigos, mesmo. Mas tiveram tantas vezes na minha vida em que precisei ter alguém para compartilhar essas coisas, mas nem me atrevia a tentar por saber que nenhum deles nem começaria a entender.. afinal eu mesma só estou começando a entender muitas coisas agora. Sei lá. Só queria ter sacado algumas coisas antes, sabe? Ter tido a consciência de que, em muitos momentos, o fato de eu me sentir excluída e alienígena não era só porque eu sou “meio tímida e estranha”. Minha adolescência teria sido bem mais fácil.

Enfim. Ser o único negro do rolê pode ser bem solitário às vezes.

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