17 de novembro de 2015

Movimento anarquista incendeia mais bancos em SP


O movimento também manifestou apoio à luta dos estudantes secundaristas que ocupam escolas do estado, às marchas feministas contra Eduardo Cunha e às vítimas da enxurrada de lama que soterrou a cidade de Mariana, em MG


Por Henrique Santana
Foto em destaque: André Zuccolo

“No dia 15 de Novembro é ‘comemorada’, entre grandes e irônicas aspas, a proclamação da república. Temos este fetiche por comemorar datas e personagens históricos que lembram nossos massacres e subserviências. Não comemoramos as insurgências de escravos ou a Insurreição de Canudos, tampouco celebramos o passado épico de Marighella, Zumbi, João Cândido, Jesuíno Brilhante, Olga ou Espirtirina Martins. Na contramão da lógica, compramos a versão histórica enlatada, contada pelos vencedores que hoje continuam a nos dominar.”

Com essas palavras, o MIA (Movimento Insurgente Anarquista) inicia o seu manifesto, publicado na madrugada desta segunda-feira (16). O texto, foi ao ar logo após o grupo reivindicar o ataque à quatro agências bancárias na cidade de São Paulo.

Agência do Bradesco no Largo da Batata, em Pinheiros - Foto: Equipe VICE
Agência do Bradesco no Largo da Batata, em Pinheiros – Foto: Equipe VICE

Há cerca de dois meses, no dia 13 de setembro, o grupo já havia incendiado uma agência do Banco Itaú em São José dos Campos, no interior do estado. Na época, o movimento afirmou que iria continuar a “incendiar e sabotar tudo aquilo que represente o sustentáculo da vossa fortaleza, erguida sob sangue e suor alheio. De bancos à palácios de Reis; das Corporações às casas de Senadores, Prefeitos ou Presidentes”.

Promessa cumprida.

De acordo com o MIA, os alvos deste ataque foram uma agência no Largo da Batata, em Pinheiros, outra no bairro da Liberdade e ainda outras duas na região central da cidade. O primeiro veículo de comunicação contatado pelo movimento após o ocorrido foi a VICE, que se dirigiu até a região dos incêndios, mas conseguiu localizar apenas o do Largo da Batata.

| Para conhecer melhor o MIA, recomendamos esta entrevista concedida pelo movimento à VICE

No texto-manifesto, o grupo declara apoio aos estudantes secundaristas que já ocupam dezenas de escolas estaduais, contra o projeto de reorganização de ensino, do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que inclui o fechamento de 94 escolas. O MIA também afirma ser solidário à “luta feminista das mulheres que marcharam em São Paulo e no Rio de Janeiro contra o fascínora Eduardo Cunha e toda a corja reacionária que hoje infesta o cenário político e econômico”.

mia_bandeira

O desastre na cidade de Mariana, em Minas Gerais, que ficou afundada em lama após o rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco, empresa controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Biliton desde 2000, não ficou de fora da carta. “Nossas condolências e mais sincera solidariedade às vítimas, familiares e todos os atingidos pelo desastre de Mariana, perpetrado pela tríplice capitalista Vale, Samarco e BHP Billiton. Um prévio aviso: suas ações que acabaram por acarretar em danos irreparáveis ao meio ambiente e à vida de milhares de pessoas em prol do seu sujo lucro, não passarão em branco”, escreve o MIA.

| Leia Também: Da Vale ao caos, do caos à lama: Entrevista com ex-funcionário da Vale

Escola Estadual ocupada em pinheiros, mesma região que ocorreram as ações do MIA -  Raphael Sanz
Escola Estadual ocupada em pinheiros, mesma região que ocorreram as ações do MIA – Raphael Sanz

O texto segue anunciando que novos ataques ocorrerão no último mês do ano, “o dezembro negro”, que “está sendo organizado por revolucionários de todos os cantos do mundo, visando ataques múltiplos, contínuos e constantes, e será, se tudo ocorrer como planejamos, reconhecido pelo caos e pela energia revolucionária que tomará conta de São Paulo e demais estados brasileiro”.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo afirmou que “foi solicitada perícia do Instituto de Criminalística para apontar as circunstâncias em que ocorreu o incêndio [no Largo da Batata]”. De acordo com a apuração feita pela VICE, nas outras regiões nenhuma ocorrência foi registrada.

Nas linhas abaixo, disbonibilizamos o manifesto do MIA de 16/11 na íntegra. O texto publicado após o ataque de setembro pode ser lido aqui.


MIA – MANIFESTO 16/11


A célula "Carlo Giuliani" do Movimento Insurgente Anarquista assume a autoria dos quatro ataques incendiários que consumiram agências bancárias na madrugada do dia 16 de Novembro de 2015, na cidade de São Paulo.

No dia 15 de Novembro é "comemorada", entre grandes e irônicas aspas, a proclamação da república. Temos este fetiche por comemorar datas e personagens históricos que lembram nossos massacres e subserviências. Não comemoramos as insurgências de escravos ou a Insurreição de Canudos, tampouco celebramos o passado épico de Marighella, Zumbi, João Cândido, Jesuíno Brilhante, Olga ou Espirtirina Martins. Na contramão da lógica, compramos a versão histórica enlatada, contada pelos vencedores que hoje continuam a nos dominar.

A fétida e corrupta monarquia que parasitava o Brasil, deposta após a proclamação da república, não difere em absolutamente nada da elite que hoje parasita a tão admirada república democrática. Banqueiros, lobistas, políticos, corporativistas, CEOs, especuladores e latifundiários, todos vermes que acumulam inúmeras riquezas em cima do suor alheio.

República, presidencialismo, monarquia ou mesmo social-democracia. Não há alternativa para um capitalismo mais "humanizado" pois o problema é o próprio capitalismo. Seremos oprimidos e explorados enquanto houver capitalismo, classes sociais e exploração do homem pelo homem.

Não acreditem em soluções mágicas propostas por demagogos e oportunistas. Não há alternativa para a crise capitalista que se agiganta no horizonte. Impeachment, golpe, eleições ou qualquer outro paliativo não solucionará os problemas estruturais que o Estado brasileiro apresenta. Somente a organização autônoma, livre e revolucionária dos trabalhadores, trabalhadoras e jovens, poderá garantir a construção de uma nova sociedade rumo à plena liberdade.

manifestacoxa (16 of 22)

manifestacoxa (11 of 22)
Manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff em agosto deste ano - Foto: Henrique Santana

Ressaltamos: não há como se manter pacifista frente à uma das sociedades mais violentas já construídas ao longo da história. Não nos iludimos em acreditar que esta gigante pirâmide de opressões hierarquizadas poderá ser derrubada ou mesmo deslegitimizada a partir de ações pacíficas.

Prosseguiremos a violentamente atacar a superestrutura de dominação capitalista. Faremos da pólvora e do fogo nossa única voz frente às injustiças para a construção e propagação das guerrilhas urbanas anarquistas que hoje começam a surgir em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, paralelamente à luta de massas que também surge com novos sujeitos revolucionários.

A luta dos estudantes em São Paulo contra o fechamento das escolas públicas pelo regime ditatorial e militarista de Geraldo Alckmin é extremamente heróica e notável. Nossa mais sincera solidariedade, força e compaixão à todas as 19 escolas ocupadas, até o presente momento, por alunos e alunas. Continuem a resistir bravamente. Não se intimidem com os ataques da polícia, da mídia ou do judiciário. O povo certamente está com vós.

Nossa solidariedade também para com a luta feminista das mulheres que marcharam em São Paulo e no Rio de Janeiro contra o fascínora Eduardo Cunha e toda a corja reacionária que hoje infesta o cenário político e econômico com suas podres agendas conservadoras e teocráticas. Continuem a lutar a boa luta, o povo também está com vós!

Nossas condolências e mais sincera solidariedade às vítimas, familiares e todos os atingidos pelo desastre de Mariana, perpetrado pela tríplice capitalista Vale, Samarco e BHP Billiton. Um prévio aviso: suas ações que acabaram por acarretar em danos irreparáveis ao meio ambiente e à vida de milhares de pessoas em prol do seu sujo lucro, não passarão em branco.

1-mpA4rt2pAEuzux7iG1AHhw
Marcha de mulheres paralisa o Rio de Janeiro - Foto: Roberto Setton/Jornalistas Livres

Ademais, gostariamos também de saudar a Greve Geral que ocorreu na Grécia no último dia 12 deste mês, contra a austeridade, a pobreza e a repressão impostas pela elite banqueira da Europa. Nossa mais sincera solidariedade à Conspiração das Células de Fogo, em especial aos camaradas gregos que hoje se encontram emprisionados: Gerasimos Tsakalos, Olga EKonomidou, Haris Hatzimichelakis, Christos Tsakalos, Giorgos Nikolopoulos, Michalis Nikolopoulos, Damiano Bolano, Panayiotis Argyrou e Giorgos Polydoras.

Continuaremos a aumentar progressivamente nossos ataques de acordo com o aumento em nossa capacidade operacional. Esperem por mais sabotagens e ações diretas para os próximos meses.

Convocamos de antemão à todas e todos os anarquistas e comunistas que se preparem material e logisticamente para o último mês deste ano. O Dezembro Negro está sendo organizado por revolucionários de todos os cantos do mundo, visando ataques múltiplos, contínuos e constantes, e será, se tudo ocorrer como planejamos, reconhecido pelo caos e pela energia revolucionária que tomará conta de São Paulo e demais estados brasileiro.

Façam da prática e da ação direta a evolução da teoria libertária. De forma autônoma e descentralizada, a partir de pequenos grupos de intimidade, qualquer um disposto e organizado pode realizar suas próprias ações.

Nenhum passo atrás.

Guerra ao Estado e ao Capital!

A RUA GRITA

Volta Negra: a história do negro no Centro de São Paulo

Novo ciclo de caminhadas da Volta Negra começa neste sábado e tem atividades programadas para os próximos dois meses

A RUA GRITA

Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

Criado pela Cia. Nada Pensativo, peça Cora Primavera aborda questões como transfobia e violência contra … Continuar lendo Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

A RUA GRITA

Volta Negra: um caminho da História de São Paulo

A caminhada acontecerá por pontos da cidade como a Praça da Liberdade, a estação Anhangabaú de Metrô e a Praça Antônio Prado. Até o século XIX, esses locais sediavam, respectivamente, a Forca, o Mercado de Escravos e a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

A RUA GRITA

Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman

Os coletivos PIXOAÇÃO e ARDEPIXO pixaram o internacionalmente conhecido Beco Batman que abriga obras dos … Continuar lendo Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman