07 de dezembro de 2015

Não há pichação sem pixadores


Opinião: “Querendo ou não, a pichação irá sempre existir. Esse ato radical é o resultado de revoltas diante do sistema capitalista, no qual o bem de consumo é mais importante que a vida”


Por Bruno Mendes*
Fotos: Cripta Djan

| *Bruno é pixador em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul

A pichação é uma escritura urbana que surgiu por volta dos anos 1970, sobre forma de protesto, vandalizando os bens públicos e privados, atingindo agressivamente as paisagens das cidades do Brasil. Uma das ferramentas de intervenção social, cultural e política é a pichação. Entretanto, ela não é vista dessa forma atualmente. Hoje, a pichação é como um esporte satisfatório, que libera adrenalina, gera desconforto público e incomoda muitas pessoas.

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Quando a polícia enquadra os “desordeiros”, a lei diz que o pichador cometeu um crime ambiental. Entretanto, o que foi pichado não deixou de exercer sua função. Além disso, a queima do combustível da viatura é muito mais impactante do que os atos dos “vagabundos”.

Sem falar que, na madrugada, não existem leis para a polícia, que age como quer. Ao invés de ficar horas fazendo o boletim de ocorrência, que é o procedimento, os policiais preferem dar algumas lições ilegais, como agressão física, verbal e moral, pintando, muitas vezes, o meliante.

O motivo pelo qual alguns jovens se arriscam para deixar sua marca em locais perigosos é o amor ao pixo. Quem vê de fora crítica e não procura entender a razão pelo qual se aventuram. Preferem reclamar a admirar algo tão incrível e corajoso. Muitos grafiteiros bem conceituados começaram a expor suas ideias através da pichação, que é uma porta de entrada esse leque cultural das cidades. Esse processo forma tribos que ocupam a cidade na madrugada, tomando espaços que geralmente são preenchidos por pessoas que estudam e trabalham de dia.

A sociedade não aceita essa arte devido a sua poluição visual, porém esquecem que propagandas, prédios e carros são contaminações no meio em que vivemos. Essa estética destrutiva com certeza não é para deixar bonito, é para alertar, indiretamente, a situação em que o país se encontra. Há um modelo de bom cidadão em nossa comunidade, onde temos que seguir regras, trabalhar e viver feliz com o pouco que resta. Os pichadores quebram esse paradigma com facilidade, já que o sistema em que vivemos está cheio de falhas e o que fazem não irá acrescentar em nada, muito menos retirar.

Querendo ou não, a pichação irá sempre existir. Esse ato radical é o resultado de revoltas diante do sistema capitalista, no qual o bem de consumo é mais importante que a vida. Conforme o país se afunda em um mar de lama, os grupos de vandalismo só aumentam. Não culpe o pichador por estar fazendo o que ele acredita ser correto, culpe o governo por não estar produzindo o que nós precisamos.

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Foto: Bruno Mendes

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