28 de janeiro de 2016

‘Querem transformar o movimento rastafari em dogmatismo religioso’


Em mais um programa de rádio Vaidapé na Rua, o grupo Cidade Verde Sounds compareceu aos estúdios da Rádio Cidadã FM para apresentar seu novo albúm, “O Jogo” e falar da cena do reggae no Brasil e no mundo


Por Alan Felipe

Após um mês e sete dias do lançamento de “O Jogo”, terceiro álbum do Cidade Verde Sounds, Adonai e Dub Mastor, integrantes do grupo, colaram no Butantã e conversaram sobre o novo trabalho no Vaidapé na Rua do último dia 7 de dezembro. Adonai explica que o nome do disco se refere ao jogo das suas próprias vidas. “É esse jogo de ego que a música traz, o jogo da grana. A gente faz reggae, uma música de militância e tal, mas a gente também tem que botar comida em casa. Chegar do outro lado com sua integridade ideológica intacta, só que também saber jogar o jogo.”

Ouça o programa completo no player:


O nome da banda, além do trocadilho com a verdinha, remete a Maringá, no Paraná, cidade natal da dupla e que recebeu a alcunha de “Cidade Verde”. O grupo surgiu fazendo covers de sons que gostavam, em uma época de hiato na cena do reggae brasileiro, no início dos anos 2000. Dub Mastor relembrou essa época: “A gente começou fazendo o som lá em Maringá, tocando em algumas festas e começamos a produzir alguns eventos”.


“A gente faz reggae, uma música de militância e tal, mas a gente também tem que botar comida em casa. Chegar do outro lado com sua integridade ideológica intacta, só que também saber jogar o jogo”


A trajetória da dupla, antes da chegada em São Paulo, onde moram atualmente, passou por uma pequena estadia em Santa Catarina e uma viagem pela Jamaica, em 2014, que resultou em um mini-documentário, um EP e quatro músicas para o último CD. Lá conheceram as raízes da suas influências e viram de perto a cena se reinventar. “Lá está rolando um movimento que é o Reggae Revival, com vários artistas novos e uma proposta bem parecida. Inclusive, quando a gente começou a produzir [o EP In Jamaica], o movimento ainda não tinha esse nome. Mas já tinha essa concepção, já estava rolando alguma coisa nesse sentido. Aqui no Brasil, está acontecendo alguma coisas assim, ainda não deram o nome mas está rolando” conta Dub Mastor, que viu de perto a cena jamaicana e faz parte da vanguarda brasileira.

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“A gente sempre curtiu, como todo mundo que gosta de Reggae, Gladiators, Israel Vibration, Bob Marley, Peter Tosh. Acho que todo mundo começa nessa onda. Só que quando a gente começou a produzir, não dava pra deixar de ser influenciado por artistas como Damian Marley, Alborosie, Stephen Marley. Essa galera do Dancehall e do new roots tava em ebulição já”, explica Adonai, falando das influências do Cidade Verde e da nova cena de reggae.


“Eu sou um cara que tenho essa cultura do rastafari na minha vida, mas eu não sou um cara ortodoxo, eu sou um rebelde de rua, essa é a minha cultura, fui criado no rap, na rua”


Outro ponto interessante da viagem para a Jamaica foi o contato com a cultura Rastafari. “Eu tinha ouvido falar, antes de ir pra lá, que o dancehall tinha tomado conta e que o rasta já não era mais forte. Mas, quando eu cheguei, vi algo totalmente diferente. Vi que a cultura rastafari é muito presente no país. Você vê que não é uma cultura de meia dúzia de gato pingado, eles têm muito orgulho desse lance do rastafari. A Jamaica é um país em que parece que você tá na África. Não se vê gente branca e eles têm uma cultura africanizada, têm orgulho de ter essa origem africana”, conta Adonai.

Ele completa comparando com o movimento nas terras brasileiras. “O que eu vejo, que é um problema para o movimento rastafari no Brasil, é que a galera quer transformar muito em dogmatismo religioso ao extremo”, conta. “Na Jamaica, existe essa linha mais ortodoxa, que é chamada boboshanti. Mas é uma minoria, a grande maioria é mais livre, entendeu? É One Love. É um só amor, e os princípios da vida rastafari, que é uma vida mais ligada a natureza, mais natural, espiritualizada, uma relação com Deus mais próxima, independente de religião. Esses princípios são mais engendrados na cultura que uma forma geral. Eu sou um cara que tenho essa cultura do rastafari na minha vida, mas eu não sou um cara ortodoxo, eu sou um rebelde de rua, essa é a minha cultura, fui criado no rap, na rua”.


“O que eu vejo, que é um problema para o movimento rastafari no Brasil, é que a galera quer transformar muito em dogmatismo religioso ao extremo”


Para conhecer melhor o trabalho do Cidade Verde Sounds e acompanhar a agenda de shows da banda, é só acessar o site do grupo. Por problemas técnicos, a música “Hoje”, que fechou o programa e conta com participação do Planta e Raiz, não foi gravada, mas pode ser escutada abaixo. Confira!

|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM, e no mundo inteiro através do site da rádio.

Música, debate e Vaidapé!

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