14 de janeiro de 2016

Sobre atos, blindados, revoluções e essências.


Foi mal. Este é um texto pessimista.


Por Jay Viegas
Fotos: Murilo Salazar

Foi mal. Esse é um texto pessimista. Se você acabou de voltar de férias e não quer lembrar que o mundo é horrível, nem leia. Sério. Também me falaram que é ruim começar um texto com uma citação desse tamanho, mas

“A revolução até hoje não nos levou à concretização desse sonho. A visão ganha vida no momento do levante – mas assim que a “Revolução”  triunfa e o Estado retorna, o sonho e o ideal já estão traídos. Não deixo de ter esperança, nem deixo de ansiar por mudanças – mas desconfio da palavra revolução. Em segundo lugar, mesmo se substituirmos a abordagem revolucionária pelo conceito de levante transformando-se espontaneamente numa cultura anarquista, a nossa situação histórica específica não é propícia para tarefa tão vasta. Absolutamente nada, além de um martírio inútil, poderia resultar de um confronto direto com o Estado terminal, esta megacorporação/Estado de informações, o império do Espetáculo e da Simulação. Todos os seus revólveres estão apontados para nós. Por outro lado, com nosso armamento miserável, não temos em que atirar, a não ser numa histerese, num vazio rígido, num fantasma capaz de transformar todo lampejo num ectoplasma de informação, uma sociedade de capitulação regida pela imagem do policial e pelo olho absorvente da tela de TV. “

Trecho do capítulo “Esperando pela Revolução”, em TAZ – Hakim Bey

Dezembro de 2015 foi osso. Como denunciado através dos intermináveis memes sobre o interminável ano, nossos músculos e cérebros já não estavam respondendo bem aos estímulos dos primeiros raios de luz matinais, emanados por uma espécie de versão distorcida do deus-sol que em nossos tempos age sob a alcunha de linha do tempo. Você sabe do que eu tou falando. Acordar de manhã cheio de esperança, projetos, ‘hoje vou fazer aquela coisa que estou procrastinando a semanas, pra dai abrir o facebook e lembrar que o mundo é uma merda. E que não importa pra onde você correr, essa merda vai continuar apodrecendo, contaminando e destruindo ecossistemas na maior tragédia ambiental de cada semana. Enfim. Foda-se. Chegaí banco, finge que você ta fazendo isso pelo espírito natalino e me empresta uma graninha pra eu viajar. Alguns dias sem redes sociais, acordando pela vontade do verdadeiro Deus-Sol, dessa vez incorporado em uma barraca infernalmente quente. Massa. Voltei leve, acreditando na revolução e em “olha como as pessoas são do bem fora da babilônia”. Mudar hábitos, comer melhor, parar de fumar, todas essas coisas que surgem quando lembramos que existe uma versão mais feliz de nós. E dessa vez, dessa vez eu realmente gostaria de manter pelo menos alguma parte desse espírito no meu arsenal para 2016. Mas tá foda. Enfim, não tou aqui para falar das minhas resoluções de ano novo.

MPL_12_01_16_009

É profundo esse tal de efeito moral, né? Ainda mais no ritmo de uma bomba a cada 7 segundos. Ta aí: essa progressão de golpes morais me pareceu mesmo familiar. 7×1: O primeiro e o segundo gols foram quase bons, uma sensação de “vai ser na raça”. A terceira bomba me lembrou que não temos nada de invencíveis. Nada de organizados. E que “com nosso armamento miserável, não temos em que atirar, a não ser numa histerese, num vazio rígido, num fantasma capaz de transformar todo lampejo num ectoplasma de informação(…)”

Lembro que levantei e fui embora no quarto gol. Mas a quinta bomba me fez perceber que era uma armadilha. A sexta me fez lembrar daquela história toda de parar de fumar. Sexto gol, que se foda. A sétima caiu bem aos meus pés. Chutei forte tipo Oscar aos 44 do segundo tempo: não adiantou nada. Foi estranho. Primeiro porque eu descobri que quando explode uma bomba do seu lado, faz aquele zumbido no ouvido que nem video-game. Segundo porque eu sempre achei que meu corpo reagiria diferente ao ver uma bomba prestes a explodir no meu pé. E terceiro porque eu percebi que tava rindo. Rindo da galera antes falando “se der bosta não corre!”. Há, demorô. Quando tem 700 pessoas correndo ao seu redor numa núvem caótica de fumaça tóxica, você só corre. Não tem muito outra opção. Você se vê no meio de um rebanho humano, sendo tocado de um lado pro outro ao bel-prazer dos boiadeiros do sistema.

MPL_12_01_16_004

Dei sorte. Consegui passar pela barreira do choque e depois de uns vinte minutos tentando fazer minha pele parar de arder enquanto discava para uma amiga que perdi no meio da confusão, pensei: foda-se. Foda-se. Não tem o que fazer. Daquele momento em diante estava aberta a temporada de caça aos supostos ~mascarados~, que perdurou pelo resto da noite até atingir a cifra de 15 presos e 24 feridos, alguns em estado grave. Vídeos e relatos estão novamente por toda parte, ecoando toda aquela revolta e indignação nas redes… mas no final das contas, toda essa indignação me parece influenciar menos a conjuntura das coisas do que os aplausos para a “ótima atuação da tropa de choque, porque tem que meter pau nesses vagabundos mesmo”.

Porque continua tudo igual. 1500, 1888, 1964, 2016, se não fossem os megapixels, as tendências da moda e o avanço das tecnologias de repressão, ficaríamos perdidos nesse grande banco de imagens da opressão sistêmica.

Faz pouco tempo, li a seguinte frase em um livro (que enrolei 2 anos pra terminar, palavras grandes.)

“Em seus parâmetros estruturais fundamentais, o capital deve permanecer sempre incontestável, mesmo que todos os tipos de corretivo estritamente marginais sejam não só compatíveis com seus preceitos, mas também benéficos, e realmente necessários a ele no interesse da sobrevivência continuada do sistema.”

Tem que ler umas vezes mas juro que faz sentido. Acho. Enfim.

Isso me fez questionar: até que ponto uma manifestação de rua nos moldes “o ato seguia pacífico até que…” não é, de certa forma, benéfica à manutenção do sistema? Até que ponto, ao saírmos às ruas para testar as novas armas da polícia, não estamos fazendo exatamente o que esperam de nós, legitimando a posição social que nos foi atribuída e agindo de forma “adequada” às expectativas desses tais “parâmetros estruturais do capital“? Porque afinal eles parecem se sentir bem confortáveis em fazer tudo aquilo, né não? Quais outras frentes de luta podemos explorar? Ainda não sei responder essas perguntas e convido todos a uma reflexão conjunta.

MPL_12_01_16_012

Um ato (com exceção, é claro, das grandes festas em verde e amarelo que comemoram o sucesso da interiorização dos valores que legitimam os interesses das classes dominantes), é de certa forma, um palco para a expressão de um poder que não temos a menor chance de combater, pelo menos não em confronto direto. É pura demonstração de força. É óbvio que eles não precisam de um blindado de 3 milhões de reais pra lidar com um bando de muleque com umas pedras na mão. Mas tem que ter o blindado pra te fazer sentir um merdinha impotente mesmo. A divulgação do novo arsenal da PM em matéria do SPTV um dia antes do ato do MPL não me parece ser obra do acaso.

Ao reprimir fortemente manifestações de grupos específicos que já não são lá muito bem vistos pela sociedade (como movimentos de ocupação, de moradia e a – lentamente e felizmente, cada vez mais negra militância estudantil), a voz do Datena saindo da televisão de qualquer bar paulistano durante toda a tarde, bradando contra os genéricos “vandalismo”, “corrupção” e “bandidagem” quer que você, cidadão comum que se fode de pagar 3,80 pra pegar busão lotado, entenda uma única coisa: nem tenta.

MPL_12_01_16_002

E na moral, nem tenta. A gente não tem armas pra ganhar deles e afinal, quem são eles? É o fardado que passa por uma formação humilhante e só se ferra pra receber um salário de merda? É o comandante da tropa? O Haddad? É o Alckmin que sorri cínico pra câmera, afinal “eventuais excessos serão apurados”? Mas pera ai, antes dele não era o Serra? Covas? Maluf? Collor, Médici, Dom Pedro II, Dom João VI, *insira nome de cuzão branco rico aqui*. É a Vale? O Google? Armas? Ou as empresas que fabricam armas? Contra quem realmente estamos lutando? Por que que estamos lutando contra esse inimigo a tantos séculos, mas ainda assim temos tanta dificuldade em dar um nome pra ele?

 

Acho que é esse ponto que tem que ser esclarecido. E vamoai tentar esclarecer, quem sou eu pra nomear o “INIMIGO DA LIBERDADE NÚMERO 1”. São muitos os inimigos da liberdade. São muitas as frentes de luta, e cada pessoa que segura o peso das estruturas que mantém esse sistema sabe na pele o que é lutar. Cada gari que anteontem teve que catar os restos dos panfletos no chão, o lixo queimado e os estilhaços de bomba, sabe da sua luta. Cada mulher negra na periferia que batalha todo dia pra juntar os R$3,80 pra ira pra faculdade, pro trampo, pro rolê, com sorte sem ser assediada no caminho, sabe da luta. Cada travesti que todos os dias segura uma barra que a maior parte de nós não segurava um só dia, cada mãe que teve que enterrar um filho assassinado pelas mãos dos carrascos do sistema, cada pessoa que não viu o seu relato no facebook mas que tava ali se fudendo pra conseguir pegar os três busões que precisa pra chegar em casa. Essas pessoas sabem o que é lutar, elas que devemos ouvir e só juntos chegaremos a um consenso. E só a partir dai, quem sabe, será possível atingir uma mudança concreta. E pra chegar minimamente perto disso, é necessária uma revisão total na essência do que constrói a sociedade. Do que constrói nós mesmos. Não adianta reformar, não adianta ficar reparando os pequenos buracos e atuando só nos recursos estéticos que mantém o sistema, resolver microproblemas e pequenas questões práticas sem nem tocar nas estruturas fundamentais que constroem a sociedade.

Já tou terminando, juro. Aquele mesmo livro lá diz que:

MPL_12_01_16_005

“Enquanto a internalização conseguir fazer o seu bom trabalho, assegurando os parâmetros reprodutivos gerais do sistema do capital, a brutalidade e a violência podem ser relegadas a um segundo plano(…). Apenas em períodos de crise aguda volta a prevalecer o arsenal de brutalidade e violência, com o objetivo de impor valores(…).”

Nesse sentido, alguma parte dessa violência toda me deixa otimista. Esses 30 milhões de reais investidos em blindados israelenses e não no sistema educacional são o mapa para o calcanhar de Aquiles do sistema. Porque de alguma forma significa que muitas das ferramentas que transmitem esses valores que legitimam o sistema dominante (leia-se: justificam o fato de terem pessoas que trabalham 1/6 do que você trabalha ganhando 6x mais do que você ganha) não estão mais conseguindo fazer o seu bom trabalho pra manter as pessoas em seus supostos lugares.

Acho que tem uma coisa com a qual o autor do texto de abertura não contava quando escreveu, nos anos 80, que nosso alvo era “uma histerese, num vazio rígido, um fantasma capaz de transformar todo lampejo num ectoplasma de informação, uma sociedade de capitulação regida pela imagem do policial e pelo olho absorvente da tela de TV.”. Sei lá. Vamo ver até onde essa tal de Internet nos leva. Lembrando de uma frase dita por um amigo durante uma treta produtiva:
“mídia independente é a mina conseguir filmar e compartilhar num celular a ação do policial que atirou no irmão dela, denunciar pro o mundo e fazer o cara ser preso.”
É você ver que a policia dos EUA, da Turquia, da Argentina e de todo maldito canto desse mundo age da mesma forma que a nossa. É a galera da Itália se inspirar nas ocupações de São Paulo e ocupar uma escola lá. É você ouvir o RAP de um mano da Indonésia e perceber que ele ta na mesma merda que você.

Pra mim é esse o impacto da tal “democratização da mídia”. Fazer a gente entender que a luta é a mesma. Dai quem sabe a gente consiga dar um nome pra ela, e realizar algo que não seja uma revolução sob os parâmetros da deprimente definição do dicionário:

re·vo·lu·ção
(latim revolutio, -onis)
1. Volta, rotação, giro; Movimento de um móvel que, percorrendo uma curva fechada, torna a passar sucessivamente pelos mesmos pontos; volta periódica de um astro ao seu ponto de partida.”

Não quero voltar ao ponto de partida. Não quero nem voltar pra dezembro de 2015. E ah, se eu vou no ato hoje? Óbvio. Queima babilônia.

Escolas de luta: conto com vocês mulecadinha zika.

textos citados:
TAZ – Hakim Bey
Educação para além do Capital – István Mészáros

MPL_12_01_16_007 MPL_12_01_16_006 MPL_12_01_16_008 MPL_12_01_16_011
A RUA GRITA

MINI-DOC | “Sem Saldo”

Sem Saldo é mais do que um documentário feito por estudantes secundaristas de escolas públicas … Continuar lendo MINI-DOC | “Sem Saldo”

A RUA GRITA

Menos amor, por favor

Por: Tomás Spirandelli Duarte, do blog La Sinistra* Ilustração: Pedro Mirilli Fotos: André Zuccolo e … Continuar lendo Menos amor, por favor

A RUA GRITA

Samba da Treze fecha a rua no Bixiga

Município autoriza interdição de tráfego durante apresentações do grupo Madeira de Lei, às sextas-feiras, na … Continuar lendo Samba da Treze fecha a rua no Bixiga

A RUA GRITA

ENSAIO | Hoje a aula é na rua

Fotos: João Miranda Texto: Paulo Motoryn Após paralisarem mais de 40 escolas na quarta-feira (23), … Continuar lendo ENSAIO | Hoje a aula é na rua

A RUA GRITA

Neguinha

Por: Wesley Barbosa* Ilustração: Brenda Passos Encontrei Neguinha em uma viela perto do bairro em que … Continuar lendo Neguinha