05 de fevereiro de 2016

‘A PM está se aperfeiçoando, a esquerda também tem que se aperfeiçoar’


O primeiro Vaidapé na Rua de 2016 contou com a presença da Fanfarra do MAL, que se organiza para, através da música, fortalecer manifestações populares. No papo: carnaval, atos, política não institucional e muito mais


Por Alan Felipe
Fotos: Felipe Mello e Murilo Salazar

O ano de 2016 está sendo agitado para a Fanfarra do MAL (Movimento Autônomo Libertário). O coletivo, que tem se organizado para tocar nos atos contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, não descansou nem pra pular o pré-carnaval paulistano. Um dia depois de sambarem no Bloco do Mal, as Fanfarrônicas Andreza Delgado e Mariana Zancanaro trocaram as ruas pelo estúdio da Rádio Cidadã FM para bater um papo com a Vaidapé.

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“Foi um bloco excepcional, único bloco de São Paulo que teve escolta da policia militar armada com bala de borracha”, explica Andreza Delgado. O tema deste ano foi Direito a Cidade. O grupo saiu da Tenda Alcântara Machado, que está sendo ocupada pelo movimento CATSO (Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais), junto com outras 700 pessoas.

Além de moradia e transporte, Andreza lembra que direito a cidade ainda se relaciona com a questão da mulher. “Querendo ou não, a cidade não é de todas as mulheres. Ainda mais dependendo da sua posição social. Todas as mulheres, a partir de certa hora da noite, não podem mais andar na rua. Então essa cidade não é nossa. E no carnaval principalmente, isso fica muito acentuado”.


“Foi um bloco excepcional, único bloco de São Paulo que teve escolta da policia militar armada com bala de borracha”

–Andreza Delgado


Mariana ainda lembra: “No bloco da Fanfarra a gente não aceita nenhuma atitude machista, racista, lesbofóbica e nada do tipo”. Ela reitera que o único problema foi a escolta da polícia, que inclusive atirou bombas nos blocos da Vila Madalena na madrugada anterior. Andreza bota em xeque o papel da PM. “A polícia militar hoje, agora, nesse exato momento da nossa vida, não consegue mais resolver nada. É só bala de borracha”.

Rádio Fanfarra

AS MINA NO FRONT


O embrião da Fanfarra começou com o movimento de Ação Global dos Povos, que originou a bateria do MPL e, em 2012, para não tocarem apenas nos atos contra o aumento de passagem, decidiram se emancipar. “A gente toca nos atos do movimento negro, movimento feminista, os atos que rolaram aqui no Butantã pela volta do Azulzinho, a gente tocou em todos. A ideia da Fanfarra é ser um instrumento do ato, um instrumento da revolução e empoderar as pessoas. Fugir da lógica da esquerda, do carro de som e da caixa de som. Todo mundo tem voz, todo mundo puxa um som, uma música, e a Fanfarra tá ai só pra ajudar” explica Andreza.


“No bloco da Fanfarra a gente não aceita nenhuma atitude machista, racista, lesbofóbica e nada do tipo”

-Mariana Zancanaro


Foto: Felipe Mello

Da esquerda para direita, Mariana Zancanaro e Andreza Delgado puxam a bateria da Fanfarra em atos do MPL – Foto: Felipe Mello

Daquela época para hoje muita coisa mudou. A “tiazona da Fanfarra”, como Andreza se autodeclara por ser a mais antiga do grupo, conta que hoje o coletivo está muito mais apresentável. “Eu falo apresentável de um espaço seguro, que é uma discussão difícil, seja dentro da esquerda tradicional, seja dentro da esquerda autônoma ou de qualquer tipo de esquerda. Quando eu cheguei na Fanfarra, era só homem e era um absurdo, tinha uns comportamentos muito, muito estranhos. E hoje, os meninos sabem se comportar bem, a gente tem várias discussões entre a Fanfarra que a gente não conseguia ter. Tocamos em duas atividades na Casa Mafalda sobre racismo na esquerda. E as pessoas acham estranho, porque a gente não é só uma fanfarra, a gente tem discussão. A gente tem um bloco de carnaval, mas tem discussão internamente. A gente não é só um grupo que toca em ato. Hoje a Fanfarra tem mais mina, tem mais gente negra, mais gente de classe baixa. Parece besteira, mas é importante”.


“A ideia da Fanfarra é ser um instrumento da revolução. Fugir da lógica da esquerda tradicional, do carro de som. Todo mundo tem voz, todo mundo puxa um som”

–Andreza Delgado


Essa mudança veio pela criação das Fanfarrônicas, em resposta à atitudes machistas do coletivo. “Acho que a gente não tem que ter vergonha de contar isso. A gente foi barrada de tocar na marcha das vadias por conta dessas agressões. Aí a gente sentou, conversou só com as mulheres e fundou o coletivo auto-organizado de mulheres, que foi uma coisa crucial na Fanfarra. A partir daí, as mulheres começaram a se organizar, sentir que era um espaço seguro e as meninas conseguiram bancar isso”.


REPRESSÃO POLICIAL


Foto: Felipe Mello

A Fanfarra se tornou uma referência de como sobreviver aos tiros, porradas e bombas da polícia durante a repressão nos atos. Mariana compartilha o segredo. Além de gritarem muito “FANFARRAAAA SEGURA”, para o grupo não se separar, ela conta o real motivo do estandarte: “Ele é bonito e tal, tá meio sujo, mas serve como referência. Porque na hora que estoura tudo e sai correndo, é difícil encontrar as pessoas. Então a gente tenta sempre continuar tocando, mesmo correndo. É meio difícil, sai feio, mas sai. Mas tem vez que não dá, teve uma manifestação que eles jogaram 40 bombas em 15 segundos”.

| Leia também: 24 segundo, 16 bombas e 33 feridos

Mas, se o estandarte serve para os manifestantes encontrarem a Fanfarra, também serviu como alvo da polícia. “Duas manifestações atrás, a gente virou alvo da polícia. O companheiro que estava segurando o estandarte levou um tiro de bala de borracha na barriga, estilhaço nas costas e estilhaço na perna. Esse foi o caso mais grave, mas pelo menos cinco pessoas da Fanfarra ficaram muito feridas” completa Andreza.

A previsão da Andreza para o futuro não é boa: “Uma coisa que eu acho que tem que ficar muito clara para as pessoas é que esse cenário, que se deu no começo de 2016, vai até os próximos anos, para as próximas gerações. A polícia tá se aperfeiçoando e eu acho que a esquerda, e não só o movimento passe livre, tem também que se aperfeiçoar”.

O Fanfarra não tocou nos estúdios, mas pediu uma música para DJ Ozie, que comandou os trabalhos técnicos e a playlist do dia. O cardápio musical contou com Um pião de Vida Loka, do Trilha Sonora do Gueto, e Transporte Público, do Rincon Sapiência. O som indicado pelas convidadas foi Audácia, da Preta Rara, que pode ser ouvido abaixo, junto com todo o álbum.

|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM, e no mundo inteiro através do site da rádio.

Música, debate e Vaidapé!

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