12 de fevereiro de 2016

Carnaval Invisível | Relatos para além dos foliões


Até uma cidade tão movimentada como São Paulo para durante o carnaval. A festa ocupa a rua, mas mesmo assim, quem sempre esteve nela passa despercebido entre as purpurinas, carros e marchinhas. São eles: os catadores, os ambulantes, as pessoas em situação de rua e toda uma população que se torna invisível diariamente na correria da metrópole.


da redação
Fotos: André Soler

O Sp Invisível e a Vaidapé foram aos bloquinhos ouvir estas pessoas na série #CarnavalInvisível. Confira aqui o material completo produzido em parceria pelos dois coletivos, em vídeo, fotos e relatos.


 

 

|  “Eu me emociono muito durante o carnaval, é um momento que a gente se corrige um pouco. Hoje, to catando minha latinha aqui e várias pessoas já falaram comigo, falaram ‘e aí, tia, tudo bem?’. No dia a dia não é assim. A gente só tem que colocar esse amor do carnaval em prática todo dia.
Meu nome é Raquel Soares e tenho 50 anos. Tenho um filho e uma filha que são jovens, essa festa toda faz eu me lembrar deles. Eu não os vejo faz tempo porque moro na rua embaixo de um toldo na frente do Itaú aqui no Largo da Batata há anos, imagino que eles adorariam estar num bloquinho desses.
Hoje eu to aqui trabalhando, venho pegar minhas latinhas e converso com uns, danço com outros, todo mundo se solta. Eu adoro isso, teve uma época que larguei meu emprego pra desfilar no carnaval. Só que embora tenha toda essa diversão, não posso esquecer que pra mim é um momento de trabalhar, as latinhas aumentam demais durante o carnaval.
Isso aqui é a festa da paz, da união. Todos se soltam, conversam, ajudam. Mas é o que eu disse, a gente tem que levar esse espirito de amor do carnaval pro resto dos nossos dias.”


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|  “Eu vim fantasiado de realidade, minha fantasia é de realidade da vida. Vim fantasiado de alegria, de festa, de vida mesmo. Vim aqui pra comemorar porque eu fiquei mais de 20 anos preso, cumpri minha pena e consegui meu alvará. Hoje posso curtir essa festa bonita.
Meu nome é Marcelino Alves. Se eu me sinto incluído na festa? Não só me sinto incluído aqui na festa, mas hoje me sinto incluído na sociedade. Hoje trabalho de eletricista e venho aqui em Pinheiros pegar latinha, às vezes. Já fui preso até lá na penitenciaria do Estado, onde hoje é um parque mal assombrado.
Só que é o seguinte, ainda não sou 100% livre. Se um dia a polícia me ver fumando um beck com você, eles vão conversar com os dois, mas quem vai correr mais risco? Eu. Porque o policial vai ver minha ficha toda suja, vê a sua limpa e vai achar que eu te induzi.
Eu fui preso por assalto a banco e joalheria. Até hoje, o pessoal me chama pra fazer um corre, mas eu mudei, quero ganhar meu dinheiro de maneira honesta e ser feliz dentro da sociedade.”


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|  “Meu nome é Anderson Souza Santos, to na rua há um ano e dois meses porque eu quis. Trabalhei cinco anos na Air France, sei tudo sobre vôo, e já que eu tava no céu, aproveitei e joguei tudo para o ar. Foi muita desilusão, sabe?! Tive um amor que eu pensava que era o amor da minha vida, mas ele só me roubou, roubou tudo que eu tinha.
Hoje, sei falar quatro línguas por causa desse meu emprego. Falo português, yo hablo español, I speak english e Je parle France. Eu acho o carnaval muito bom, eu amo o carnaval. Sou filho de baiano, misturado com paulistano, não tem como não gostar dessa festa. Carnaval é muito legal e você é muito legal também, seu sorriso me contamina.
O carnaval expressa os melhores sentimentos do brasileiro, o amor, a alegria e o tesão. Já morei em Londres, Paris, viajei muito, em Londres eu até montei um bloquinho porque eu não vivo sem isso aqui. O Brasil é tão gostoso, você poder viajar do norte ao sul, é tudo muito legal, mas não tem nada como isso aqui.”


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|  “Sou o Thiago José Andrade. Eu trabalho lá no Jockey e lá a pessoa não pode beber, não pode levar drogas porque é trabalho né. Eu não uso todas as drogas, mas só cheiro um pozinho e fumo uma maconha, como não pode levar isso pra dentro, a gente vem pra rua para consumir.
Ai eu vou lá para fazer meu trampo porque aqui a gente não arruma dinheiro e roubar não é pra mim, esquece! Então vou lá, trabalho, pego meu dinheiro e venho pra rua. Sou mais da rua do que de lá. Sinto todas as liberdades aqui na rua, a gente é mais ser humano aqui.
Sem mentira, é a primeira vez que eu passo meu carnaval aqui e, como os paulistanos dizem, é mil grau em. Sou da Bahia e é a quinta vez que venho pra São Paulo, cheguei sábado passado e conheço um monte de gente aqui já, mas sinceramente, é tudo gente que usa. Amigo mesmo só tem um, o Anderson que vocês conversaram. Prefiro o largo da batata assim, cheio de gente. Acho que no carnaval a pessoa que é mais excluída, como a gente, se solta mais e se sente parte da sociedade.”


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|  “Eu não consigo ficar feliz assim que nem eles estão, não me sinto muito incluído nessa festa. Pra falar a verdade, me sinto até invisível. Aqui ninguém me cumprimenta, lá em Taboão da Serra, onde eu moro, sou muito conhecido. Meu nome é Marcos Borges Alves.
Eu venho todo dia pra cá pegar latinha, saio de casa e ando até aqui porque a passagem tá muito cara. Hoje eu me surpreendi, assim que eu vi o Largo da Batata, vi isso aqui cheio de gente e com um monte de latinha no chão. Fiquei feliz pelas latinhas, mas não entendi nada do que estava acontecendo.
Sou catador porque tive que me desligar do meu emprego, trabalhava na área da saúde e precisava de alguma coisa que me deixasse mais tempo em casa depois que tive meu filho. A mãe dele não quis criar e deixou comigo, hoje ele tem 15 anos e mora só nós dois.
Dessa vez to saindo com o triplo do que eu pego sempre pego, o carnaval não é pra mim, não a festa. O carnaval é a época que mais trabalho, isso sim. Com essas latinhas que eu sustento minha casa.”

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