20 de fevereiro de 2016

Gaviões da Fiel levanta bandeira contra futebol que exclui o povo


Desde o início do ano, a Gaviões da Fiel têm protestado nos jogos contra o controle da Rede Globo e dos mandatários da CBF e da FPF sobre o esporte, além de Fernando Capez, presidente da Alesp


por Thiago Gabriel
Fotos: Thiago Gabriel

“Aí mano, o Gaviões, nóis, é um laboratório de formação. A fita é o que cada um adquiri disso. São vários valores agregados”. É assim que Wildner Rocha, o Pulguinha, ex-vice presidente da Torcida Gaviões da Fiel, conta o impacto da agremiação na vida de seus sócios. O amor pelo Corinthians une todos os loucos ali reunidos, porém, há também um laço familiar, quase comunitário, que estabelece a Lealdade, Humildade e Procedimento, como avisa o lema. A noção de pertencimento à família acompanha as responsabilidades de cada um no núcleo, algo que não precisa ser repetido para bom entendedor.

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Nesta quinta-feira, dia 18, as portas da quadra da torcida no Bom Retiro se abriram para que os corintianos levassem seu grito de protesto à frente da sede da Federação Paulista de Futebol (FPF). Entre as faixas estendidas na fachada do prédio, lia-se “Viva a festa do povão”, “CBF e FPF vergonha do futebol”, apontando os responsáveis por um projeto que julgam ser elitista e excludente para o futebol brasileiro.

Outra trazia o questionamento: “100, 120, 150. Ingresso do povão?”. O dever dos torcedores parece naturalmente agregado. Algo une esta gente. E as variadas posições políticas se juntam em uníssono, cientes de sua função.

“Nossa trajetória principal, que é torcer pelo Corinthians e fiscalizar o poder dentro do clube, em muitas vezes, nesses 46 anos, passou a ter um cunho nacional”, conta Ernesto Teixeira, sócio dos Gaviões desde 1976, que acumulou funções também no Carnaval da torcida.


“Agora a gente volta à mídia trazendo uma cobrança contra esse dito futebol moderno, que exclui o povo dos estádios, que aumenta o preço dos ingressos exarcebadamente”

– Ernesto Teixeira, sócio torcedor da Gaviões


Ele lembra a cidadania exercida pelos gaviões em episódios contra a anistia e durante a campanha Diretas Já, ambos no período de ditadura no país. “Agora a gente volta à mídia trazendo uma cobrança contra esse dito futebol moderno, que exclui o povo dos estádios, que aumenta o preço dos ingressos exacerbadamente.”


HISTÓRICO


A Gaviões da Fiel foi fundada, em 1969, com o objetivo de derrubar o então presidente do clube, Wadih Helu, ligado ao regime militar e identificado como ditador pelos torcedores. Em 1971, o mandatário entregou o cargo e, desde então, os Gaviões monitoram e fiscalizam as atuações do clube, afim de evitar e combater eventuais abusos de poder de dirigentes.

Durante a Ditadura civil-militar no país, a torcida batia de frente com o regime e buscava levar manifestações populares para dentro dos estádios, contrariando as leis que restringiam a liberdade de expressão na época.

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Para Fabrício Pouseu, tesoureiro da Gaviões, a rejeição ao futebol moderno é um dever histórico da torcida. “Hoje o público aplaude renda e isso pros Gaviões fere a própria história do clube, fundado por operários, gente humilde. O acesso do povo foi dilacerado dentro do futebol”, comenta.

O aumento no preço dos ingressos e  o processo de afastamento do trabalhador dos estádios, não se manifesta apenas no valor da entrada. Os jogos às 22h, exigência da Rede Globo para que as partidas sejam transmitidos após a novela da emissora, também dificultam a vida do torcedor que depende do transporte público para voltar para casa.

“Para nós, a Globo num tá nem aí pro futebol, ela está afim de vender o produto dela e ganhar dinheiro. A nossa causa é outra, é a festa do povo, o futebol como sempre foi”, afirma Fabrício.


“Hoje o público aplaude renda e isso para os Gaviões fere a própria história do clube, fundado por operários, gente humilde. O acesso do povo foi dilacerado dentro do futebol”

– Fabrício Pouseu, tesoureiro da Gaviões


Desde o início do ano, a Gaviões da Fiel têm levado faixas de protesto para dentro dos estádios nos jogos do Corinthians. As críticas apontam para o controle da Globo sobre o futebol brasileiro, os mandatários da Confederação Brasileira de Futbel (CBF) e Federação Paulista de Futebol (FPF), e o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Fernando Capez (PSDB), envolvido em escândalo de superfaturamento sobre verbas para merendas escolares.

Antes de ser reeleito para seu terceiro mandato como o deputado estadual mais votado de São Paulo em 2014 , Capez atuou no Ministério Público, entre 1988 e 2006. Nesse período, a criminalização promovida pelo promotor ajudou a criar um estigma sobre as torcidas organizadas, a quem eram atribuídas as responsabilidades pelos recorrentes episódios de violência nos estádios. Por isso seu nome segue sendo lembrado nas arquibancadas da Arena Corinthians.

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A repercussão deste discurso transformou as organizadas em inimigos número um do futebol frente à opinião pública. Sua ascensão como promotor foi meteórica,  Capez buscou todos os microfones para inflar seu discurso e defender a extinção das torcidas, alavancado pelas imagens de violência nos estádios repetidas à exaustão pela mídia.

Durante os anos 90, o promotor conseguiu fechar duas das maiores torcidas da cidade, a Independente e a Mancha Verde. Recebendo cada vez mais impulso midiático, muitas das restrições à atuação das organizadas devem-se ao esforço de Capez em demonstrar a periculosidade das agremiações.

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As tradicionais bandeiras de bambu foram proíbidas por ele sob a alegação de que eram usadas para agressões. O resultado das políticas de criminalização e disseminação de preconceito de Capez sobre as organizadas é discutível. A violência no futebol ainda é um assunto longe de ser solucionado, não há comprovação de que diminuíram os episódios violentos desde que instituiu-se a marginalização das torcidas organizadas.

Ernesto lembra como Capez promovia a perseguição aos grupos: “Ele fez sua carreira política em cima dessa bandeira, contra as torcidas organizadas, sempre generalizando. Punia o CNPJ e não as pessoas que fazem parte desse CNPJ que, porventura, estivessem erradas”, conta, lembrando que o mundo dá voltas e hoje quem é questionado por suas ações é o próprio deputado.

Para Pulguinha, que participava das reuniões com Capez em nome da torcida, não há surpresa diante das acusações de corrupção atribuídas ao deputado. “Não me surpreende, porque ele, na pauta dele como promotor, foi oportunista a todos os momentos. Ele foi oportunista desde aquela época e agora ele foi novamente.”

Mesmo com as desavenças frente o promotor, Pulguinha afirma que “a Gaviões não age, ela reage”, e pontua que os protestos se iniciaram em resposta a uma punição de 60 dias, imposta à torcida pelo uso de sinalizadores durante a final da Copa São Paulo de Futebol Júnior, em janeiro deste ano.

“Nós não somos um movimento político consciente que nasceu e planejou. Nós reagimos mediante a arrogância, mano. Contrariamos o sistema, tomamos a punição. Agora estamos cobrando pessoas que cobraram a gente severamente por uma conduta moral que eles estão longe de ter”, diz,  apontando o deputado Fernando Capez e o atual promotor público, Roberto Senise.

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A partir do estopim da punição, outras pautas foram levantadas pelos gaviões. “A gente só juntou com contrapontos que, desde a Copa, a gente vêm engolindo.”, afirma Pulguinha, citando as entidades que, na ótica da torcida, controlam o futebol, como a Rede Globo, FPF e CBF.

O corintiano conta que a repressão policial pela retirada das faixas e a censura da televisão, que não reportou o manifesto que a criticava, proporcionaram outra dimensão para os protestos. “Acenderam a nossa pauta, obrigado. Porque agora a gente incendiou o Brasil e vai continuar dando combustão. A ideia é essa. Nós abrimos uma jornada que a gente nem esperava”, conclui Pulguinha.

Os protestos destacaram-se em meio a um período de pouca, ou nenhuma, ação política direta encabeçada pelas torcidas organizadas, um verdadeiro movimento social em potencial. A disciplina e eficiência nas atuações causam inveja a qualquer movimento da desorganizada esquerda brasileira. A diretoria ressalta que o momento não pertence à torcida corinthiana apenas.


“Esse é um movimento dos torcedores em geral. Do povo que reivindica seu espaço em uma das culturas mais populares, que é o futebol, que tem excluído o negro e o pobre do seu convívio, e nós lutamos contra isso”

– Ernesto Teixeira, sócio torcedor da Gaviões


“Esse é um movimento dos torcedores em geral. Do povo que reivindica seu espaço em uma das culturas mais populares, que é o futebol, que tem excluído o negro e o pobre do seu convívio, e nós lutamos contra isso”, conta Ernesto.

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Enquanto a massa corinthiana fechava avenidas para explodir, em frente ao prédio da Federação, em festa que pode ser proporcionada apenas pelas torcidas organizadas, quem caminhava não eram apenas os Gaviões. Quem caminhava a passos largos e promissores não possuía nome, sede ou preferência clubística. Era a paixão inerente a um povo que respira o futebol diariamente, e que se vê ameaçado a tê-lo tomado de si, assim como o foi o Carnaval.

A dimensão contida nessa manifestação explica-se na avaliação de Pulguinha para os próximos capítulos desta luta: “Nós ganhamos um precedente. Daqui pra frente o futebol paulista vai ser varrido de manifesto. Pode pá. A gente foi inibido há anos com isso, e a diretoria, atualmente, levantou a bandeira. Pra tirar nossa faixa no próximo jogo vai ter que ser debatida a Constituição”.

“Eu não roubo merenda/ Eu não sou deputado/ Trabalho todo dia / Não roubo meu estado.”


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