23 de fevereiro de 2016

Escola abandonada em Pinheiros é ocupada por 54 famílias


Ameaçados por uma reintegração de posse, moradores da Ocupação Carolina Maria de Jesus fazem nova ocupação, acompanhada de perto pela Vaidapé


Por Iuri Salles e Isabel Harari
Fotos: Murilo Salazar

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Na semana passada, durante a madrugada, 54 famílias, entre idosos, crianças e até um bebê de nove meses, saíram em marcha do ocupação Carolina Maria de Jesus, em um prédio abandonado na Marginal Pinheiros, zona oeste de São Paulo. A ocupação está ameaçada por uma reintegração de posse, o que fez com que os ocupantes migrassem para um edifício na praça Érica Brigman, próxima ao largo da Batata, também em pinheiros. O movimento Terra Livre, grupo que luta por moradia digna, reivindica que o local seja desapropriado pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab) para fins de moradia popular.

O prédio está vazio desde 2008 e ainda guarda resquícios do Colégio Butantã, último locatário do edifício. Salas de aula com lousas, cadeiras, livros, caixas de giz, materiais de artes e química estão intactas, ainda que cobertas por uma espessa camada de poeira. Materiais de uma agência de turismo, inquilina anterior à escola, também foram encontrados. Após um rigoroso inventário de tudo que estava no local, as famílias se dividiram entre os quatro andares da construção e iniciaram a limpeza.

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A polícia e familiares do já falecido proprietário pressionaram para que as famílias deixem o local, mas os moradores resistiram. Na manhã dessa segunda-feira (22), o cadeado da ocupação foi forçado e outro foi colocado na porta de entrada do prédio, deixando as famílias trancadas para dentro em uma tentativa de intimidar os moradores. Ainda que tenham conseguido quebrá-lo, os ocupantes temem que ações como essa, ou outros atos de violência, possam se repetir. Uma vigília durante a madrugada foi organizada pelas famílias.

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Cadeado colocado no portão da ocupação na manhã da segunda-feira (22)

A necessidade de ocupar o novo prédio veio com a aproximação da reintegração de posse na ocupação Carolina Maria de Jesus, que estava marcada para a próxima quarta feira (24). Na noite de ontem, no entanto, a juíza Glaucia Lacerda Mansutti, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, suspendeu a reintegração, alegando que é necessário maior planejamento para a retirada dos ocupantes, sobretudo pela “existência de crianças, idosos portadores de doenças e deficientes, no imóvel”. Ainda assim, os moradores continuam em uma situação de insegurança fundiária, já que uma nova ação pode ser marcada a qualquer momento.

Após mais de um ano morando na região, dezenas de famílias temem que uma possível expulsão acabe com a estrutura construída por elas nos últimos meses de luta. Crianças já iniciaram o ano letivo em escolas e creches do bairro e todos os moradores acessam serviços de saúde nas proximidades. Assim, ainda que o movimento tenha como objetivo barrar e resistir à ação de despejo, a nova ocupação se faz necessária frente à forte pressão sobre o prédio da marginal.

O edifício da ocupação Carolina Maria de Jesus, que completou um ano em fevereiro, pertence à massa falida do Banco Santos, do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, condenado a 21 anos de prisão por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e crime contra o sistema financeiro.

Abandonado desde 2008, ainda que seja desocupado, o processo para o leilão da construção pode levar muito tempo. “Pra que tirar as pessoas desse prédio? As famílias vão pra rua e o prédio vai continuar lá, fechado”, questiona Antônia Serafim Rodrigues, a Toninha, do Movimento Terra Livre. “O prédio estava vazio, sujo, abandonado, sem nenhuma expressão, nenhuma função social. As pessoas ocupam e cuidam de tudo: limpam, zelam pelo espaço, conseguem água, luz, convivem com as pessoas, finalmente tem um endereço, conseguem um emprego formal. E, quando estão mais ou menos assentadas, o juiz manda todo mundo pra rua.”

O processo de ocupação do edifício nas proximidades do Largo da Batata foi acompanhado de perto pela Vaidapé, que coletou relatos de três ocupantes e registrou a chegada dos moradores no prédio.


OS RELATOS


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|  Para mim é um prazer estar aqui junto com todo mundo, ter vencido uma luta, com meu marido e minha sogra. A ocupação mudou minha vida, porque na rua eu perdi todas as minhas coisas, todo dinheiro que eu pegava gastava em droga. Ter um teto mudou tudo, já comecei a dormir bem, comer melhor, gastar o dinheiro com outras coisas. Eu entrei na ocupação [Carolina Maria de Jesus] só com a roupa do corpo, não tinha móvel nenhum. Tudo o que tenho hoje eu construí nesses seis meses lá dentro. E a gente vai progredir, vai ter sucesso, a gente precisa disso aqui. Não é em vão. Difícil era entrar, agora a gente está aqui e não vai sair.

— Rose

 


Dona railda@1x

|  Meu filho faz faculdade, foi pra Salvador. Eu estava pagando aluguel de R$ 700, não dava para me manter e ajudar ele. Quando eu estava pagando aluguel não dava nem para comer direito. Agora tudo melhorou, posso comer melhor e até guardar um dinheirinho. As pessoas acham que aqui só tem ladrão, estuprador, traficante, gente folgada, mas se vier falar comigo eu explico o que é o desemprego. Não tem emprego para o povão, o povo tem que invadir mesmo! Invadir não é roubar, é direito nosso. Meu filho recebe uma bolsa do governo [para estudos] e o dinheirinho que me sobra eu completo pra ele ter o que eu não tive, porque eu não quero que ele passe o que eu passei.

— Dona Railda

 


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| A ocupação é um passo pro inferno. Porque quando você não tem moradia, não tem emprego, tá com problema de saúde, é o inferno. As pessoas não usam essa expressão?

O prédio estava vazio, sujo, abandonado, sem nenhuma expressão, nenhuma função social. As pessoas ocupam e cuidam de tudo: limpam, zelam pelo espaço, conseguem água, luz, convivem com as pessoas, finalmente tem um endereço, conseguem um emprego formal. E, quando estão mais ou menos assentadas, o juiz manda todo mundo pra rua.

O judiciário não vê as pessoas, só se preocupa com a propriedade. As pessoas falam muito da educação, mas você não pode ter educação sem ter uma casa. O primeiro passo na vida de um ser humano é casa. Eu te pergunto: como que uma mãe tem disposição para levar os filhos para escola, para educar, se não tem nem onde se organizar? Ter uma casa é dignidade. Se eu não tenho endereço eu não arrumo emprego nem escola. Na verdade é o primeiro passo, você nasce e já precisa de casa. Tudo que o ser humano precisa é de casa. Uma casa, um lar. Quando eu for pra sepultura, quando eu fechar o meu olhinho e abrir do outro lado – que eu não sei como é que vai ser -, se tiver que ocupar eu vou ocupar lá também!

— Antônia Serafim Rodrigues, a Toninha


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