23 de março de 2016

Yzalú no Vaidapé na Rua: ‘A graça é quando você contraria toda a estatística’


A voz, o violão e as afiadas ideias da rapper Yzalú estiveram presentes no Vaidapé na Rua do dia 14 de Março, na Cidadã FM


Por Carime Vital
Fotos: Pedro Mirili

“É um despertar interno”, assim Yzalú, que escolheu lançar seu primeiro álbum Minha Bossa é Treta no Dia Internacional das Mulheres, define o início de sua carreira musical. Aos 33 anos, a cantora apresenta seu disco de estreia que, além de beber na fonte do rap, samba, jazz, reggae, afrobeat e MPB, traz como ingrediente fundamental à sua musicalidade a consciência feminista e negra.

Ouça o programa completo no player:

“A mulher, por si só, é marginalizada. Principalmente a mulher preta, que está na base, e é a camada mais ignorada, excluída. A gente cresce com o olhar da exclusão e cabe à nossa habilidade e inteligência transformar isso em outra coisa. Eu cresci sob esse olhar das pessoas, esse olhar de: ‘humm, não vai dar certo’. Eu falo que cresci ouvindo que o preto não tem vez. É um contexto diferente quando você cresce ouvindo que não vai dar certo. A graça é quando você contraria toda a estatística.”

A trajetória artística de Yzalú é formada por empoderamentos constantes, fortalecidos através do envolvimento direto com a música, desde os 15 anos, quando aprendeu a tocar violão. A artista se identifica como consequência de uma evolução conjunta, iniciada nas bases familiares e entrelaçada ao fortalecimento feminino e negro.

14032016-IMG_4802

“Tem muita mulher feminista no morro que nem sabe que é feminista, mas que contribui muito para o amadurecimento desse feminismo. Por exemplo minha avó e minha mãe, que cresceram numa condição totalmente diferente da minha. Mesmo com as dificuldades em que eu cresci, a dificuldade delas foi bem maior do que a minha. É graças a essas mulheres que a gente está aqui, que eu estou aqui, e que o feminismo existe.

Depois de morar em Salvador, entre 2000 e 2002, onde aprendeu muito da música brasileira, “porque todo mundo lá sabe tocar alguma coisa no violão”, Yzalú retornou para São Paulo. Na volta, tentou se manter financeiramente tocando em bares, mas encontrou dificuldades: “Não rola né… para a mulher preta isso é muito difícil de acontecer. Primeiro que já é difícil para todo mundo viver fazendo música. Para a gente que está na periferia é ainda mais complicado”, analisa a cantora.

“Tem muita mulher feminista no morro que nem sabe que é feminista mas que contribui muito para o amadurecimento desse feminismo”

Não só no mundo da música os preconceitos eram presentes. Antes de se dedicar exclusivamente ao novo álbum, Yzalú trabalhava como analista logística em uma empresa multinacional. No emprego, também se deparou com obstáculos estruturais.

“Em relação à empregabilidade, eu senti muito na pele essa questão de ser uma mulher negra em uma multinacional. O mercado de trabalho abriu muito minha visão sobre o que é ser mulher negra. Isso fez com que, hoje, eu possa me assumir como uma mulher feminista, o que eu acho, inclusive, que todas as mulheres são. Mas isso vai muito de acordo com o despertar e a condição de cada uma, com o passar da vida é que você vai se situando.”

No seu processo de empoderamento, Yzalú aponta como grande influência o período em que fazia parte do grupo feminino Essência Black. “Quando eu conheci essas meninas tudo colou, tudo rolou. Eu sempre fui muito tímida para cantar, então eu só tocava violão no grupo delas. Nisso eu fui achando muito legais as ideias, a consistência das palavras e das rimas.”

A timidez da artista foi sendo invadida pelo rap, e o violão, seu fiel escudo frente às dificuldades, foi se tornando uma ferramenta de descoberta das suas potencialidades.

14032016-IMG_473114032016-IMG_4760

 

“Fui conhecendo a galera do rap da cidade, e foi se abrindo um lance para mim que eu não achava ser possível. Pela minha condição de mulher preta eu falava: ‘não sirvo para o mercado’. E o rap me mostrou que não, que era possível, que eu podia, que eu servia para aquilo”

Para a artista, há dois momentos claros de despertar na sua carreira musical. Um desses pontos de virada foi o encontro “de igual para igual” com Dina Di, diva nacional do hip hop. “Foi muito importante para mim. Primeiro, pela sua discografia e suas letras muito contundentes, mas, principalmente, por mostrar a importância da minha arte para mim mesma. Foi numa troca de ideia com ela em 2009 que eu entendi o que era ser mulher no rap. Eu pude ver através dela o meu valor. Fazendo regressões eu vejo que ela foi um despertar, percebi que eu podia fazer isso, que era possível.”

Abraçar a importância da sua arte,e da sua interpretação única no hip hop foi uma das etapas de emancipação para Yzalú, que já ouviu muitas críticas em relação à sua música. “Antes para mim era tudo muito nublado. A gente é marginalizado. E na margem não tem ninguém para falar: ‘legal, vamos por aqui’. Então a gente vai aprendendo sozinho, caminhando.”

Outro momento determinante em sua carreira musical teve a participação de mais um gigante do rap nacional: “O despertar mesmo aconteceu dentro do processo artístico, principalmente com Mulheres Negras, uma música que eu tive a oportunidade de regravar, de composição do Eduardo Taddeo, ex-Facção Central. Essa música, de uma certa forma, não só me ajudou, como ajudou a muitas mulheres a entender nossa condição social”. A releitura de Yzalú dessa composição viralizou na internet, abrindo inúmeras portas para a artista.

zuc9

As parcerias que somaram na vida musical de Yzalú foram lembradas com muito carinho na conversa deste Vaidapé na Rua. A grande colaboração deste momento em sua vida foi com o guitarrista e produtor do seu primeiro álbum, Minha Bossa é Treta, Marcelo Sanches. A simbiose entre os dois permitiu que as referências musicais de ambos se revelassem com muita harmonia na obra produzida.

“Quando eu estava no estúdio para cantar eu pedia para apagarem a luz para ninguém me ver. Era muito difícil eu botar para fora o que eu queria. O Marcelo trabalhou isso em mim. Me trabalhou artisticamente dizendo: ‘você pode fazer’. Foi uma realização pessoal esse trabalho. O produtor tem muito disso, ele precisa primeiro entender o que o artista quer, para depois trabalhar em cima disso. O Marcelo me trouxe para esse universo, porque inicialmente o álbum era só para ser voz e violão.”

Entre os elementos desse universo musical compartilhado, Yzalú e Marcelo trouxeram para o Minha Bossa é Treta muitas referências, transitando por nomes como Erykah Badu, Fela Kuti, Jorge Ben Jor, Lauryn Hill e Gil Scott-Heroncomo. “A gente bate um liquidificador e sai a nossa impressão ali. Teve muita bossa nova envolvida também, que entrou de gaiato na ideia geral. Eu sempre ouvi bossa nova, inclusive meu nome vem da [música] Luiza, do Tom Jobim.”

Figura ilustre desse caldeirão musical onde se jogou e vem nadando com garra, Yzalú é uma artista exemplo, que não tem medo de ir contra a corrente e que faz da treta sua força.

14032016-IMG_4909

|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio.

Música, debate e Vaidapé!


A RUA GRITA

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’

Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco … Continuar lendo ‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’