27 de março de 2016

ESPECIAL | Vozes da Fundação

Ouvindo os mais afetados pela redução da maioridade penal


Por Alan Felipe, Júlia Dolce e Victor Labaki
Fotos: Julia Dolce

As eleições de 2014 fizeram subir às rampas do Congresso brasileiro os parlamentares mais conservadores desde a redemocratização do país, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP). O presidente da Câmara foi eleito: Eduardo Cunha, do PMDB.

Logo, Propostas de Emenda Constitucional (PECs), que estavam há anos enterradas nas gavetas do Congresso Nacional, começaram a pipocar nos corredores da casa. Entre elas, a PEC 171, de autoria do deputado Benedito Domingos, do PP, também conhecida como PEC da redução da maioridade penal.

0,5% dos crimes hediondos são cometidos por menores de idade, enquanto a participação no tráfico de drogas, em roubos e em furtos, representa quase 90% das infrações

Criada em 1993, a proposta voltou a circular no parlamento logo após as eleições e, menos de seis meses depois, já ia para votação em Comissão da Câmara dos Deputados. A proposta foi derrubada em um primeiro pleito, mas, nem 24h haviam se passado, e Eduardo Cunha articulou uma manobra que conseguiu reverter o resultado. A PEC segue avançando e agora aguarda votação no Senado.

As polêmicas acerca do projeto ascenderam o debate sobre a redução da maioridade penal, que começaram a preencher as manchetes dos principais jornais do país. Ainda assim, algumas vozes permaneceram silenciadas. A parcela mais afetada pela PEC: xs jovens internxs dos Centros de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, popularmente conhecidos como Fundação Casa.


Parte 1

No novo templo


— Visita! Visita!

— Pode subir aí, gente!

Os adolescentes internos da Unidade Novo Tempo, da Fundação Casa, vestem suas camisetas apressados. É domingo, dia de visita nas cinco unidades do complexo socioeducativo de Franco Da Rocha. No entanto, são poucos os que recebem suas famílias. Os motivos variam, desde a distância entre as casas e a Fundação até a vergonha de fazerem seus parentes, principalmente mães e irmãs, passarem pela revista vexatória.

A maioria dos adolescentes aproveita o dia de folga para jogar futebol, tênis de mesa ou dominó na quadra, que ocupa o terceiro andar do prédio. Esses recebem os voluntários da ONG Papel de Menino, que há dez anos realiza projetos sociais para jovens que estão cumprindo medida socioeducativa em Franco da Rocha.

Poderia ser o recreio de muitas escolas públicas do país, se não fosse pelo muro farpado de mais de cinco metros que cerca o perímetro do prédio, tirando a vista do “mundão”, e o fato dos meninos serem obrigados a se referir a todos como “senhor” ou “senhora”, com exceção deles próprios).

O Centro Novo Tempo é um dos 71 construídos após a Lei Estadual 12.469 de 2006, que reformulou as antigas Fundações Estaduais para o Bem Estar do Menor (FEBEM). A capacidade desses centros é de 56 adolescentes, mas uma liminar no STF permite até 15% de superlotação. Em julho de 2014, o Novo Templo abrigava 60 meninos.

De segunda a sexta os adolescentes estudam no período da manhã e realizam cursos livres durante a tarde, como artesanato, street dance, artes cênicas, informática e matemática; além de cursos profissionalizantes de garçom, eletricista, entre outros, disponibilizados pelo SENAC. No resto do tempo, assistem filmes escolhidos pelos funcionários, jogam na quadra ou leem os poucos livros, em sua maioria religiosos, que ficam disponíveis em uma cesta. Não há biblioteca ou sala de jogos nessa unidade, o primeiro andar é ocupado por salas de aula e refeitório e o segundo por dormitórios.

Naquela semana, porém, os adolescentes assistiram à reportagem do Jornal Nacional sobre a aprovação, em primeiro turno na Câmara, da redução da maioridade penal. Mesmo que a maioria dos internos não seja afetada pela emenda, por não terem praticado ato infracional hediondo, grande parte dos meninos pede explicações sobre a PEC aos voluntários da Papel de Menino, preocupados com a sua situação. “Mas e o tráfico, senhor?”.

Todos os adolescentes com quem conversamos afirmaram ser contra a redução da maioridade penal, ainda que timidamente, parecendo temer um aumento da pena ao darem sua opinião sobre um assunto tão sério.

Alguns se opõem à redução por enxergam nas atividades proporcionadas pela Fundação uma oportunidade que não teriam nos presídios, já que boa parte deles não frequentava mais a escola antes de serem internados; outros, acostumados a ouvir histórias sobre o sistema carcerário, entendem que sua situação seria bem pior com a aprovação da PEC: “Aqui pelo menos nós é respeitado. Ninguém bate em nós. Pelo menos não aqui, no Brás rolava treta”.

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O “Brás” é como os internos chamam – e onde se localiza também – o complexo de unidades provisórias de internação, pra onde todos os menores são encaminhados após passarem pelas delegacias paulistanas, enquanto seus processos são julgados. Os abusos cometidos pelos funcionários do Brás são consenso entre os adolescentes. Desde a falta de itens básicos de higiene, a proibição de contato visual e físico entre internos, até agressões verbais e físicas. Os 45 dias passados na provisória são lembrados com raiva pelos meninos.

No Centro Novo Templo, os adolescentes têm seu comportamento avaliado semanalmente e exposto em um quadro localizado no primeiro andar. Etiquetas verdes dividem aqueles que têm um bom comportamento, e portanto não terão tempo acrescido à pena, daqueles que cometeram algum desacato ou infração grave. Esses recebem etiquetas amarelas e vermelhas, respectivamente, acrescentando um mês ou três meses à pena decidida pelo juiz. Naquele domingo todas as sessenta etiquetas estavam verdes.

A entrada dos voluntários é feita de uma maneira diferenciada das demais pessoas. Nenhum deles precisa passar por revista vexatória – que apesar de serem proibidas em presídios adultos, ainda são realizadas nos centros socioeducativos.

Já os familiares são obrigados a passar pelo constrangimento de tirar as roupas na frente de desconhecidos, abaixar-se e suportar a inspeção de suas partes íntimas, com a justificativa de que podem transportar algo ilícito. Além disso, não podem entrar vestindo nenhum calçado além do chinelo concedido pela Fundação. Essa é a principal crítica dos adolescentes em relação à Fundação Casa, e o motivo de muitos deles não aceitarem a visita de suas mães, irmãs e namoradas.

É o caso de João*, de 15 anos, que, mesmo esperando sua filha nascer, não deixa a ex-namorada visitá-lo. Considera a situação da revista íntima degradante, ao mesmo tempo em que não quer expô-la aos comentários dos outros internos. Por esse motivo, o adolescente diz que prefere falar no telefone com a futura mãe de sua filha. Os internos tem direito à uma ligação por semana, caso não recebam ninguém.

João contava sua história para nós um pouco antes de todos os meninos serem convidados a participar de um culto, organizado pela Papel de Menino, que acontece a cada 15 dias. Um membro da ONG, que se identificou como ex-presidiário, pregou uma parte da cerimônia, que, apesar de ser uma atividade opcional, atraiu, por alguns minutos, a atenção dos meninos.

Depois, todos se reuniram em pequenos grupos. Os adolescentes falaram que não tinham costume de frequentar a igreja antes de serem internados, ou que se “desviaram” ao longo do tempo. Alguns choraram, discretos, outros resistiram silenciosamente à pregação.

Os voluntários pediram a deus que perdoasse a alma dos meninos, deram alternativas para a suposta “adrenalina” proporcionada pelo crime e distribuíram chocolates e salgadinhos, os únicos objetos que podem ser levados pela ONG, além de bolas esvaziadas e a pequena bíblia do pastor. Essa é a única vez no mês em que os meninos tem acesso à esse tipo de comida, esperada ansiosamente. No final do horário de visitação, um adolescente se aproxima e pergunta:

— Quer chocolate senhor? Não? Ah, Você pode comer lá fora, né…


Parte 2

Linha do tempo: Fundação e redução


Linha do Tempo Especial IV-01


Parte 3

Relatos


MENINO DA MOTO Relatos fundação ILUSTRA-02

 

“Eu tinha roubado uma moto, pra zoar só, e estava sendo perseguido pela polícia quando minha moto travou. Eu desci, saí correndo em um matagal e pulei de um barranco de uns 4 metros. Na hora eu quebrei minha perna. Fiquei caído no chão e ainda assim o polícia me deu um tiro na barriga. Agora eu estou sem rim. Ainda não consegui curar meu braço, estou esperando sair daqui. Fiquei internado dentro do hospital durante semanas”


PASSARINHORelatos fundação ILUSTRA-01

 

“Não sei não senhor, não tem como saber o futuro. Posso te dizer uma coisa aqui e lá fora vai ser completamente diferente. Aqui eu quero mudar, só que é outra realidade, quando eu sair as coisas são outras. Mas lógico que eu quero sair, senhor. Sabe como é, nenhum passarinho nasceu pra ficar preso na gaiola”


 

 


Parte 4

Na Unidade Ipê


Na Unidade Ipê, localizada no complexo Raposo Tavares da Fundação Casa, os menores só têm direito ao acesso de fotos e cartas da família se mostrarem um “bom comportamento”. Além disso, é necessário estar na quarta etapa do sistema de evolução de pena e, mesmo assim, tudo é lido e analisado por psicólogos da Fundação.

São quatro fases a serem cumpridas pelos internos. Assim que são encaminhados para a unidade, os meninos entram no primeiro estágio, o de adaptação. Depois, seguem para a segunda etapa, de reflexão – em que, por ironia, ganham como “recompensa” o direito de se olhar no espelho. A terceira fase é de construção e, finalmente, a conclusão.

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Diferentemente da Unidade de Franco da Rocha, a Ipê foi reformada após a mudança do modelo Febem para o atual, da Fundação Casa, sendo bem maior e abrigando mais de 100 menores. Além de dormitórios e refeitório, a unidade conta com uma biblioteca com duas estantes de livros, uma ludoteca, com diversos jogos de tabuleiro, e uma sala de televisão, com tapetes de borracha.

A estrutura da Ipê, no entanto, ainda remete à antiga Febem, com grades e portas de ferro nos quartos. Os adolescentes são obrigados a andar em fila indiana, com as mãos para trás e as cabeças abaixadas.

Com treze anos de trabalho na unidade, a coordenadora pedagógica Andreia da Costa acredita que a mudança da Febem para a Fundação Casa foi gradativa, e se deu principalmente na área da pedagogia.

A educação é padronizada em todas as unidades da Fundação Casa: os menores cursam o ensino formal em um período e cursos culturais e profissionalizantes no outro. Os professores do ensino fundamental e médio, concursados, vem da escola estadual associada à unidade, a E.E Oswaldo Walder. Os outros cursos são ministrados pelo CENPEC (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) Horizontes e pelo Projeto Guri, e vão desde aulas de graffiti e rimas, até panificação artesanal e horticultura, esta última feita em um canteiro improvisado ao lado do prédio.

O curso de rimas, segundo os internos, é o mais concorrido. Lá, os jovens aprendem sobre a história das letras de rappers famosos e como elas refletem a vida da periferia na época em que foram escritas. Além dos internos, algumas mães também assistem as oficinas com seus filhos, já que a unidade possui um programa de acompanhamento familiar.

Segundo a diretora da casa Ipê, a psicóloga Helena Amaral Lotufo, muitos pais começam a acompanhar o rendimento escolar dos filhos pela primeira vez na Fundação Casa, já que é exigida a presença da família nos festivais e apresentações de final de ano.

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As salas de aula são divididas por série, e as mais cheias são as dos primeiros anos do ensino fundamental. A sala do ensino médio é vazia, com apenas dois alunos. A maioria dos internos estão “atrasados” no sistema de ensino formal, por já terem largado a escola antes de serem internados na Fundação Casa. Quando passam de ano recebem o diploma da Escola Associada.

Apenas um interno sai do prédio para trabalhar. Todos os dias, Rodrigo vai para a Câmara de São Paulo, no centro da cidade, para ajudar na cozinha. Ele tem 19 anos e está cumprindo medida socioeducativa desde 2013, por um roubo à mão armada. O adolescente criticou a escola que frequentava antes de ser internado e contou que nunca havia estudado tanto quanto na Fundação.

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Rodrigo conseguiu o estágio graças ao programa Bolsa Trabalho, da Prefeitura de São Paulo. O adolescente acredita que se existissem mais iniciativas como essa o índice de reincidência da Fundação seria muito menor.

Em relação a proposta de redução da maioridade penal, Rodrigo afirma ser contra a medida, pois, segundo ele, “é trocar seis por meia dúzia”. Quando não está trabalhando ou estudando, o menor ensina violão aos outros internos. Suas bandas favoritas são Legião Urbana, Barão Vermelho e Ultraje a Rigor.

Pedro, de 16 anos, também não concorda com a redução: “Lá [no Centro de Detenção Provisória] é bem ruim, o menor vai sair pior do que entrou”. Pedro está cumprindo pena há 7 meses, por roubo de carro. O adolescente havia parado de estudar aos 13 anos de idade. Agora retoma o oitavo ano no centro socioeducativo e faz oficina de Elétrica Residencial. “Minha mãe prefere eu aqui do que lá fora”. Dos 8 irmãos, ele é o único com passagem pela Fundação Casa.

Apesar dos cursos profissionalizantes e do exemplo de Rodrigo, ainda é pequena a porcentagem de ex-internos que conseguem emprego na área que estudaram dentro da Fundação. Para Eduardo, de 15 anos, dificilmente seu curso de Panificação Artesanal vai lhe abrir portas: “Lá fora o pessoal não acredita em nós”.


Parte 5

As crianças que já nascem presas


Uma pequena parcela de crianças cumpre pena sem nunca ter cometido nenhum ato infracional. Elas já nascem encarceradas junto das mães, menores infratoras. No Brasil, enquanto os bebês que nascem em presídios são separados logo após o período inicial de amamentação, os nascidos em Fundações Casa acordam, crescem e dormem privados de sua liberdade, esperando suas mães serem ‘reabilitadas’ de volta à sociedade.

A pequena Maria tem um ano e cinco meses. Ela já fala de tudo, copiando livremente as conversas ao seu redor. Maria também gosta de andar, desajeitadamente, com suas perninhas gordas e sapatinhos cor-de-rosa, pedindo colo as suas muitas “tias” e “avós”. Entretanto, seu espaço de locomoção é limitado pelo perímetro gradeado da unidade feminina paulistana da Fundação Casa, a Chiquinha Gonzaga.

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A área de um quarteirão ocupado pela Unidade no bairro da Mocca é todo o universo que a criança conhece, com exceção do hospital, onde nasceu, e das visitas rotineiras ao pediatra. Mais precisamente, Maria conhece os arredores da casa do Programa de Acolhimento Materno-Infantil (Pami), onde vive atualmente com sua mãe, funcionárias da fundação, outras dez adolescentes com seus próprios bebês e uma ainda grávida.

Seu mundo é a pequena casa, com janelas coloridas em tons pasteis que contradizem suas barras de ferro, além do modesto jardim que circunda a unidade. Lá, onde é a criança mais velha entre as crianças mais novas, se desenvolve, ganhando, a cada dia, a consciência de que precisa – e quer – mais espaço. Sua mãe, Carolina, de 19 anos, foi internada dois dias antes de seu nascimento. “Cheguei grávida de 8 meses, passei pela Ruth Pistori [Unidade Provisória Feminina] e vim pra cá. Foi desesperador tudo isso acontecer de uma vez, cheguei aqui chorando.”

Carolina tem outra filha de outro pai, Gabriela, de 4 anos, que vai visitá-la aos domingos junto com sua mãe e irmãos. “Sinto muito a falta dela, ela e a Maria se dão bem, mas ela não entende porque no final a Maria pode ficar e ela não. Ela pergunta por que tem que ir embora e fica confusa. E a Maria, qualquer pessoa que vai pra rua ela quer ir junto.”

O Pami é o primeiro programa do tipo no país. Segundo o diretor da unidade, Ezeilton Rodrigues de Santana, “o Pami é referência nessa questão de mães e gestantes”. Em todos os outros estados, as menores infratoras que estão grávidas, ou tiveram o bebê depois de internadas, dividem espaço com as outras meninas. Algumas vezes, são transferidas das outras unidades para a Chiquinha Gonzaga. São apenas três unidades femininas da Fundação Casa em todo o estado.

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Além da condição de mães, a rotina das internas tem outras especificidades, em relação aos meninos que cumprem medida socioeducativa. As adolescentes sofrem muito mais com o abandono dos parentes. “Tradicionalmente, as meninas não têm a quantidade de visitas que os meninos têm. Elas sofrem algum tipo de preconceito por ‘envergonhar’ a família, é um fenômeno no Brasil todo”, afirma o diretor da Unidade. Os parentes do sexo masculino, principalmente, costumam se recusar a passar pela revista íntima, e os pais dos bebês, na maioria das vezes, acabam abandonando as adolescentes e os filhos.

O caso de Carolina foi diferente, seu ex-namorado e pai da Maria chegou a visitá-la algumas vezes, mas acabou sendo assassinado. Carolina diz que já imaginava que isso fosse acontecer. “Fiquei sabendo isso pela minha mãe. Não fiquei muito mal, só um pouco. Eu esperava algo do tipo, porque ele também era da vida errada, então tinha duas opções: ou ele ia preso, ou era morto.”

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Muitas vezes, as menores são internadas na Fundação Casa por crimes passionais, nos quais são levadas a praticar o ato infracional por namorados ou companheiros. O mesmo é muito frequente em penitenciárias femininas, principalmente nas prisões por tráfico.

Carolina parou de estudar aos 16 anos, quando estava no primeiro ano do ensino médio. Nessa época, começou a andar com traficantes do seu bairro, usar drogas e “sumir” de casa, deixando a filha mais velha com sua mãe. Ela não gosta do curso de garçonete que faz na Fundação Casa, pretende trabalhar no salão de beleza da sua mãe para pagar uma faculdade de Direito.

“Quando eu era pequena eu falava que queria ser advogada pra defender meu tio, só que aí eu esqueci esse sonho e fui viver no mundo. Esqueci tudo, não quis viver mais nada, quis só viver no mundo onde eu vivia. Aí voltou esse sonho de hoje, de ser advogada. Eu queria defender meu tio, porque ele fazia coisa errada. Da família da minha mãe eu sou a primeira que foi ‘presa’, meu tio é da parte de pai.”

Para Carolina, a proposta de redução da maioridade penal não será a solução para reduzir o número de crimes cometidos pelos adolescentes. “Tem muita desigualdade né? Tem uns que tem muito e uns que não tem nada, aí os que não têm nada querem ter muito e às vezes não tem oportunidade. Tudo bem que, na maioria das vezes, eles não correm atrás, porque é tudo mais fácil. Mas, muitas vezes, dependendo dos lugares, a gente é desrespeitado, tipo: ‘ah, porque você mora ali’. Eles são muito influenciados também, sabe? Querem uma roupa de marca, querem um negócio e acabam fazendo. Comigo não, foi mais a emoção mesmo, sabe? De estar ali, com o grupo mais legal, mais respeitado.”

Além disso, a adolescente acredita que a situação das mães encarceradas é muito pior do que a sua. “Se eu tivesse em uma prisão normal a Maria não teria mãe, né? O mais importante é a mãe para o filho, e o filho pra mãe. Lá seria mais difícil, porque aqui a gente está privado da liberdade, mas têm muitas pessoas trabalhando pra você mudar, ter um futuro melhor. Na cadeia não, já era.”

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A maioria das meninas internadas no Pami não tem outros filhos e aprendem a ser mães lá dentro. “Aqui nós temos a adolescente em dois aspectos: em confronto com a lei e em confronto com a maternidade. Tudo sobre maternidade somos nós que ensinamos, como amamentação, que tem a equipe de enfermagem pra orientar. Então, apesar de ser um ambiente fechado, aqui todo mundo conversa. A gente vai ensinando”, afirma Angélica, uma das funcionárias que convive com as adolescentes.

As meninas acordam e já começam a cuidar dos bebês. A casa é dividida em dois quartos, onde as treze adolescentes dormem – e acordam várias vezes durante a noite -, ao lado de seus respectivos filhos. Elas têm cursos profissionalizantes e terapia no período da manhã. À tarde, frequentam a escola dentro da Unidade, com as outras adolescentes, o único momento em que ficam longe de seus filhos.

Segundo o diretor da unidade, as meninas na Chiquinha Gonzaga costumam estar atualizadas em relação à série do ensino formal, “já trabalhei com alguns dados de unidades masculinas e as meninas geralmente estudam mais e estão mais adiantadas”. Enquanto estão na escola, as funcionárias da unidade cuidam dos bebês, junto das mães que ainda estão de licença maternidade. Uma delas é Lisa.

Mãe de Alexandre, de três meses, o bebê mais novo da unidade, Lisa tem 15 anos e gosta de filosofia, de visitar a Galeria do Rock e quer aprender japonês. No berço do bebê há uma pilha de livros e o nome do seu filho é inspirado no vocalista de sua banda favorita.

Há nove meses na Fundação, Lisa diz que não recebe mais visitas de seu pai e de seu irmão mais velho, pois nenhum dos dois aceita passar pela revista vexatória. “Meu pai já veio, mas não gosta de fazer revista íntima. Ele pensa: ‘eu não consigo ficar pelado na frente de um homem e agachar’”. As visitas que Lisa recebe são de sua mãe e de seus outros irmãos. Segundo a adolescente, sua mãe não deixou o pai do bebê assumir a criança. “Minha mãe já criou filho sozinha. Já vi tanta mulher criando filho sozinha, eu consigo também”, diz.

Lisa acredita que o alto índice de menores internadas que são abandonadas pela família é fruto do machismo. Para ela, “o preconceito contra a mulher ainda é natural. Nossa sociedade ainda é muito patriarcal”.

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Ela diz que amadureceu muito em seus nove meses de internação. “A gravidez por si só já te obriga a amadurecer rápido, principalmente se você é adolescente”, conta. Porém, reclama da dependência da situação de internação, já que depende de familiares ou funcionários para conseguir um livro, por exemplo.

A adolescente critica, principalmente, o corte de gastos do governo com a Fundação Casa e a falta de estrutura da unidade, afirmando ter perdido quatro pré-natais seguidos durante a gravidez em consequência de problemas de transporte.

“Há algum tempo acabou o contrato com os carros. Agora precisa vir carro de não sei onde pra buscar a gente. Antes tinha um carro que ficava direto. E aqui, querendo ou não, tem o Pami, tem bebês, tem grávidas. Agora tem uma gravida com 39 semanas, e se ela entrar em trabalho de parto e não tiver um carro aqui? E se um bebê cair e bate a cabeça no chão? Como que vai levar pro hospital se não tiver carro? Isso já faz mais de dois meses e eles não fizeram outro contrato. A gente tenta conversar, porque é muito chato.”

PRESAS QUE MENSTRUAM

 

Essa é apenas uma das negligências que as presidiárias e as meninas que cumprem pena na Fundação Casa sofrem. A situação das mulheres encarceradas vem sendo ignorada há décadas pela imprensa brasileira.

30% das mulheres presas não
foram sequer condenadas ainda

info mulheres presas-01

68% respondem por tráfico
sem relação com organizações
criminosas

Na segunda metade de 2015, enfim, o assunto começou a ser problematizado, inclusive por setores do movimento feminista. Essa divulgação veio, sobretudo, com a publicação do livro Presos que Menstruam, escrito pela jornalista Nana Queiroz, em uma grande reportagem que expõe a luta diária dessas mulheres por dignidade.

Entre os fatos apurados pela jornalista, está a constante falta de itens de higiene básica feminina, como absorventes. Segundo Nana, as presidiárias chegam a utilizar miolos de pão como substituto dos absorventes internos.

Além da questão da higiene, a jornalista destaca a violência sexual, as revistas íntimas vexatórias e o abandono como questões que as mulheres têm que lidar na situação de cárcere. “As mulheres são 90% nas filas dos presídios. Os homens não se submetem, não estão acostumados com a submissão e a humilhação, como as mulheres”, afirma a jornalista.

Segundo dados do estudo Infopen Mulheres (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias), divulgados em novembro do ano passado pelo Ministério da Justiça, a população penitenciária feminina apresentou um crescimento de 567,4% nos últimos quinze anos. No mesmo período, o número de presos homens aumentou em 220%.

Entre as mulheres, 50% das presas têm até 29 anos, 30% não foram condenadas, 68% respondem por tráfico sem relação com organizações criminosas e a grande maioria têm filhos e são responsáveis pelo sustento do lar.

Em 15 anos, a população carcerária feminina cresceu 567%. No mesmo período, o número de presos homens aumentou em 220%

São mães jovens, muitas vezes encarceradas injustamente, vivendo múltiplas violências contra seus direitos. Principalmente, são mulheres que ainda têm suas condições de feminilidade e maternidade negligenciadas.

Leia o relatório completo:
Infopen – Mulheres Encarceradas


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A RUA GRITA

Me excomunguem da Igreja do Ativismo!

Existe uma vertente agressiva do ativismo pela justiça social que silencia e desvia vários de … Continuar lendo Me excomunguem da Igreja do Ativismo!