21 de março de 2016

Sérgio Vaz: ‘O Brasil mostra sua cara. A hipocrisia com os dias contados no país’


da redação

O poeta Sérgio Vaz, uma das grandes referências da cultura periférica na cidade de São Paulo, manifestou-se sobre os conflitos cada vez mais escancarados no cenário político brasileiro. As manifestações de ódio, segundo ele, sempre existiram. “Pergunte aos negros, pobres, índios, mulheres, negros, travestis, índios, mulheres, nordestinos, gays, travestis, que eles te contam”.

Nesta segunda-feira (21), ele publicou um texto em que afirma que os recentes episódios cada vez mais mostram a verdadeira cara do Brasil:


A hipocrisia está com os dias contados no país.

Nas ruas, nos lares, praças, bares, e em todo canto, as pessoas estão lavando roupa suja com sabão disfarçado de debate político. Caiu a máscara do Brasil cordial.

Para um país que mata 50.000 pessoas por ano, cordial é um título que a gente nunca mereceu.

Nas ruas ninguém gosta de quase ninguém e é fácil descobrir isso, basta somente dizer o que você pensa e de que lado você está.

A palavra Democracia virou um palavrão, ao invés de ser tratada como um sentimento.

Kibe ou coxinha?

Tanto faz, com nossas cabeças parecendo pastel de vento, a pizza fica cada vez maior para ser dividida entre eles.

O amigo, cunhado ou o parente pergunta o que você está achando da política, aí você diz. Pra quê?!

Sabia. Nunca gostei de você. Sempre foi vagabundo. Corno. Bicha. Feia. Gorda. Analfabeta. Covarde. Devolve meu dinheiro. Ainda bem que seu marido largou de você. Safado. Não esqueci o que você fez 10 anos atrás. Paga pau do Lula. Paga pau de rico. “Sabia que pobre votar no rico é a mesma coisa que a barata votar no inseticida?” Comunista. Puxa saco. E por aí vai.

Coisas que sempre tivemos vontade de falar, mas nunca tivemos coragem. Mas hoje, finalmente, o Brasil mostra sua cara. Para o bem ou para o mal.

Não sei porque algumas pessoas estão estranhando esses dias em que todos nós estamos com o dedo na cara um do outro. Sempre foi assim, é que a TV nunca deixou a gente ver. Ou se ver.

Acabou a novela e os próximos capítulos mostram que o eterno país do futuro caminha descaradamente para o passado. Porque no fundo, quem nos desgoverna, nunca quis dar um presente para o povo: a liberdade para ser feliz.

Porém uma coisa sempre esteve clara, nós, os pobres, negros, índios, nordestinos, não somos bem-vindos neste país.

A não ser que aceitemos as migalhas de sempre.

A menos que aceitemos a escravidão disfarçada de salário mínimo.

A menos que aceitemos a escravidão disfarçada de salário nenhum.

Tem gente que acha que cantamos ou fazemos poesia porque estamos felizes, satisfeitos com tudo.

Na verdade, da nossa música, do poema, da nossa dança, sai o lamento, o chamado pra luta. É doído de ser excluído dentro de casa.

Por isso muita gente estranha o refrão.

Tudo que aí está despejado nas ruas o RAP sempre cantou, a literatura periférica sempre escreveu. Está documentado nas lentes seletas de nossos cineastas da quebrada, na voz dura do teatro que deságua nas ruas. “Sabe nada inocente.”

Desde criança ouço dizer que temos que combater o sistema que ninguém sabia quem era, o que era, e pra que servia.

Mas sob uma luz sombria, e sem vergonha de ser o que é, eis que o Brasil mostra sua face mais sinistra.

E a nossa cara?

Nossa cara é lutar.

A RUA GRITA

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