21 de março de 2016

Você não pode ignorar o que está acontecendo no Rio Tapajós


O primeiro programa de rádio da Vaidapé de março recebeu integrantes do Comitê Paulista de Solidariedade à Luta pelo Tapajós, grupo de apoio aos movimentos e povos tradicionais do Rio Tapajós


Por Gil Reis e Henrique Santana
Fotos: Marcio Isensee e Sá/Agência Pública

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O programa de rádio Vaidapé na Rua chamou para os estúdios da Rádio Cidadã FM integrantes do Comitê Paulista de Solidariedade à Luta pelo Tapajós, que trocaram uma ideia sobre a atual situação das comunidades locais.

O maior projeto do setor energético em curso acontece na Bacia do Rio Xingu, com a construção da polêmica Usina de Belo Monte, no Pará. Já são ao menos 40 grandes hidrelétricas em construção ou planejamento na região.

Um dos poucos rios amazônicos ainda livres de usinas, o Tapajós, foi o último a entrar na mira dos megaprojetos do governo federal, com a construção de um complexo energético de cinco usinas. A maior hidrelétrica deste complexo é a de São Luiz do Tapajós, no Pará, com capacidade de 4.000 MW de potência media e orçada em 78,4 milhões, segundo o Ministério do Planejamento.

O Comitê Paulista de Solidariedade à Luta pelo Tapajós surge nesse contexto, como forma de apoiar e fortalecer as reivindicações dos povos tradicionais da região, principais afetados pela implantação da hidrelétrica.

Ouça o programa completo no player:


Área desmatada na região de Belo Monte – Foto: André Villas-Bôas/ISA

Uma das principais ações do movimento teve início em 2015, com a arrecadação de fundos para apoiar a demarcação das terras indígenas Sawré Maybu, dos Munduruku. A área em que vivem será alagada com a construção das usinas previstas para o Rio Tapajós. A coleta foi feita através de encontros e eventos em diversos regiões de São Paulo, e apresentou os problemas que envolvem as famílias que vivem nos entornos do rio.

“Se o governo tem dinheiro para fazer a barragem, tem dinheiro para demarcar nossa terra”

“Mais do que falar, nós temos a vontade de trazer a voz deles até aqui, para que falem por si próprios”, conta a integrante do comitê Mariana Ribeiro, que carregava consigo alguns depoimentos de moradores da região.

Um deles trazia a voz do cacique Beralino Saw Mundurku, da aldeia Sawré Juybu. “Eu como cacique preciso falara para o governo que a barragem para nós não serve. Para nós o que serve é a demarcação da nossa terra, para podermos criar nossos filhos e netos. O dinheiro acaba, a terra não. Na terra a gente faz plantio de mandioca, de banana. Se devastar as matas, como os filhos da gente vão conhecer uma caça? Um tatu, uma paca? Se o governo tem dinheiro para fazer a barragem, tem dinheiro para demarcar nossa terra”, desabafa o líder Munduruku.

Ouça o áudio:

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A luta contra a construção da hidrelétrica é uma das principais reivindicações apoiadas pelo comitê. Ainda assim, as usinas são apenas um dos problemas que vêm a reboque da aceleração do projeto desenvolvimentista na região.

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“A forma de vida destas populações que defendem a floresta está ameaçada pelas hidrelétrica, mas a aprovação de um projeto como este também levam a uma série de outras explorações”, argumenta Léa Tosold, outra integrante do comitê, sobre a exploração de madeira, minérios e outros recursos naturais.

Carro chefe do agronegócio brasileiro, a produção de soja também vê o Rio Tapajós como local estratégico. Com a saturação dos sistemas portuários do sul e sudeste, a região norte se tronou uma opção lucrativa para escoamento da produção, com redução de custos e tempo de transporte.

A chamada “saída pelo norte” virou realidade em abril de 2014, com obras que inauguraram o novo corredor de exportação. Segundo a Secretaria de Portos (SEP), já foram investidos mais de R$ 5,5 bilhões na região Amazônica.

“Os portos [graneleiros, usados para o escoamento] são construídos em cima de praias sem nenhum critério e com pouquíssimos estudos sobre os impactos ambientais. Além disso, a legislação não é cumprida e as demandas da população são completamente atropeladas”, relata Mariana, que visitou comunidades da região no ano passado.

Com isso, as plantações de soja também ganharam espaço perto dos portos, como forma de baratear ainda mais o transporte do produto, acelerando o processo de desmatamento nos entornos do Tapajós.

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Segundo Mariana, o projeto de construção das hidrelétricas casa com os interesses do agronegócio, já que as áreas inundadas facilitariam a navegação das barcaças em regiões de pouca profundidade. “Metade do percurso percorrido pela soja é feito pelo rio e a outra metade por estradas. Com a construção das hidrelétricas, o rio vai se tornar completamente navegável, desde a nascente até a foz, no Rio Amazonas”, conta.

Além dos impactos visuais e paisagens que ficariam embaixo d’água com a construção das barragens, os alagamentos atingiriam comunidades tradicionais e áreas de preservação que não podem, por lei, serem modificadas.

A integrante do comitê também apresentou o depoimento de Socorro Amorin, moradora de São Luiz do Tapajós. “Os Impactos sociais e ambientais já são um começo de sofrimento para a gente. O governo federal nunca se preocupou em vir ate aqui para nos consultar, saber o que a gente pensa de tudo isso. O governo tá preocupado com nós, com as pessoas? Eu acredito que não. Se tivesse, jamais iria danificar um paraíso desse”, lamenta.

Ouça o Áudio:

O pacote de megaprojetos sendo encampado na região também desacelera o processo de demarcação de terras indígenas. A Fundação Nacional do Índio (Funai), por exemplo, já foi intimada pela justiça por atrasar relatórios de identificação da Sawré Muybu.

“O governo federal nunca se preocupou em vir ate aqui para nos consultar, saber o que a gente pensa de tudo isso”

A publicação do relatório vem sendo adiada desde 2013. Com a demora, os Munduruku iniciaram um processo de autodemarcação da Terra Indígena Dace Kapap Eypi, onde está inserida a aldeia Sawré Muybu, delimitando na marra seus territórios tradicionais. A Funai alega que não há disponibilidade orçamentária para a região e que, atualmente, a prioridade nas demarcações é dada aos territórios indígenas do sul e sudeste.

Ainda assim, a luta indígena continua, com novos agentes e formas de combate. Lays Uchoa por exemplo, uma jovem lideranças Borari, comunidade situada no Baixo Tapajós, criou uma campanha de financiamento coletivo para apoiar um intercâmbio entre lideranças do Xingu e Tapajós, já que as duas regiões são alvo das grandes construções previstas no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).

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Em contato direto com o Comitê Paulista, Lays acredita na importância do diálogo entre os indígenas como forma de articulação e fortalecimento de lutas em comum. Para ela, “essas conversas tem que ficar cada vez mais frequentes, feitas de forma direta. Eu penso que, se povos indígenas conversam entre si, pode ser que saia uma coisa interessante”.

Clique aqui para apoiar e saber mais sobre a iniciativa.


|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio.

Música, debate e Vaidapé!


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