16 de março de 2016

Quem chama e quem vai nos atos do impeachment?


As discordâncias entre os manifestantes e os movimentos que puxam os protestos de impeachment ficam evidentes


Por Henrique Santana
Fotos: André Zuccolo e Murilo Salazar

A composição da manifestação desse domingo (13) em São Paulo não foi muito diferente dos outros atos a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT). Maioria branca, rica e velha. Carro de som, abada, área vip. Skol a R$ 6 e até banda de rock. Entretanto, alguns descompassos entre os movimentos que puxam os atos e os manifestantes começaram a ficar mais evidentes.

Segundo pesquisa feita em parceria entre a Unifesp e a Universidade de São Paulo, 73% dos participantes presentes no protesto disseram não confiar em partidos políticos, 25% confia pouco e apenas 1% tem confiança plena.

Além da consensual insatisfação com o Partido dos Trabalhadores (PT), os manifestantes reprovaram a participação de figuras como Geraldo Alckmin e Aécio Neves, ambos do PSDB. Os dois ficaram pouco mais de 30 minutos na manifestação e saíram do protesto aos brados de “bundões”, “oportunistas” e gritos de “fora!”.

Manifestação dia 13-4 Manifestação dia 13-3

Os principais movimentos que puxaram a manifestação pelo Facebook também foram os mesmos: O Vem Pra Rua, que angariou o maior número de confirmados, e o Movimento Brasil Livre. Os dois defendem o livre mercado e menor participação do governo na economia.

Conianca em movimentos-02
Confiança nos movimentos que estavam no ato de domingo – Infografia: Henrique Santana

De acordo com manifesto do Vem Pra Rua, considerado o movimento mais confiável do protesto pelos manifestantes, “país rico é onde a liberdade econômica é estimulada e o Estado não é maior que o necessário, a fim de que o empreendedorismo e a livre iniciativa gerem riquezas e oportunidades para todos”.

Dados de outros protestos contra Dilma, no entanto, apontam que a esmagadora maioria dos que foram aos atos acreditam que o Estado deve prover serviços de saúde, educação e transporte para a população.

Também em  desarmonia  com o que pensam os manifestantes, o MBL chamou para discursar em seu carro de som uma maratona de Congressistas da oposição. O grupo aposta nessas figuras para dar continuidade ao processo de retirada de Dilma do poder.

Falaram no carro do Brasil Livre

Mendonça Filho (DEM-PE)
Darcidio Prendi (PMDB-RS)
Carlos Sampaio (PSDB-SP)
Pauderney Avelino (DEM-AM)
Roberto Freire (PPS-SP)
Nilson Leitão (PSDB-MT)
Carlos Marum (PMDB-MS)
Bruno Covas (PSDB-SP)
Ronaldo Caiado (DEM-GO)

Outros setores do empresariado também aderiram ao protesto. Além da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), que já estava nos outros atos, compareceram o sindicato que representa empresas do setor imobiliário e a AMB (Associação Médica Brasileira), que chegou a publicar em jornais convidando “pacientes e amigos” para ir às ruas. Até o Habib’s se mostrou solidário à manifestação, com a campanha publicitária #FomeDeMudança.

Nos últimos atos, o organizador do levantamento citado no começo desta matéria, Pablo Ortellado, já havia falado à Vaidapé sobre o desacordo entre manifestantes e lideranças. “Quando você tem uma insatisfação assim, você precisa de alguém que a organize. Que convoque, que faça as alianças políticas, que desenhe as estratégias. E quem está fazendo isso são os grupos de direita. Só que eles tem uma agenda divergente das pessoas que estão nas ruas.”

O professor também contesta a ideia de polarização tão presente no discurso midiático e endossada por manifestantes dos dois lados. “Eu acho que a polarização política simplifica falsamente. Porque, no fundo, ela marca só os campos dos grupos institucionais que disputam o poder político.”


QUEM FOI E NÃO SAIU NAS ESTATÍSTICAS


Repercussão no Twiter-01
Repercussão entre 6h e 20h. Rede composta por 107.687 perfis e 251.501 compartilhamentos de postagens – Mapa: Thiago Pimentel / Infografia: Henrique Santana

O Datafolha apontou que 77% dos manifestantes eram brancos. Ainda assim, 19% se declararam pretos ou pardos, um total de 95 mil negros na rua, marchando ao lado da elite paulistana contra o governo do PT.

Uma moça de Guaianases, zona leste de São Paulo, participava do seu primeiro protesto. “Queria participar para ver se tira esse PT do governo, que está acabando com todos nós”. Discorda de algumas tendências da manifestação. Sobre as incansáveis selfies com policiais no ato diz: “Não, não aplaudo, porque quando a gente precisa eles não tão aí para nos ajudar”.

Outra que não se enquadrava no perfil dos manifestantes era Ysani Kalapalo, indígena originária do alto Xingu. Acompanhada de seu pai, caracterizado com as vestes tradicionais do seu povo, Ysani disse estar “revoltada”, “decepcionada” e “traída” pelo governo petista. “Estamos nos sentindo oprimidos por esse governo tirano. A gente está tendo cada vez mais derramamento de sangue indígena. O governo do PT, que propaga tanto a justiça social, atenção às minorias, não está fazendo nada disso com nós, indígenas”, conclui.

Manifestação dia 13-6

“Durante a campanha eles prometeram bastante coisas para os povos indígenas, mas nada disso está sendo cumprido. A primeira coisa que tinha que mudar era [a usina] Belo Monte, que foi construída na nossa casa e está contaminando o Rio Xingu. Eu não sei de que nós do Xingu vamos viver, com a contaminação da água e a falta de demarcação de terras.”

Ysani foi as ruas para levantar a voz indígena no protesto. Ela conta, entretanto, que essa bandeira ainda não vem sendo muito levantada . “Mas estamos aqui para expandir nossa luta e dizer ao povo brasileiro que os povos indígenas existem. Não estamos na mitologia, nos livros de história. Estamos presentes, estamos lutando”, completa.


Confira as fotos do ato


Manifestação dia 13-35 Manifestação dia 13-21 Manifestação dia 13-8 Manifestação dia 13-13 Manifestação dia 13-9 Manifestação dia 13-5 Manifestação dia 13-2 Manifestação dia 13-17 Manifestação dia 13-20 Manifestação dia 13-19 Manifestação dia 13-25 Manifestação dia 13-26 Manifestação dia 13-28 Manifestação dia 13-29 Manifestação dia 13-23 Manifestação dia 13-16 Manifestação dia 13-11 Manifestação dia 13-32 Manifestação dia 13-36 Manifestação dia 13-22 Manifestação dia 13-14 Manifestação dia 13-9 Manifestação dia 13-12 Manifestação dia 13-7
A RUA GRITA

Volta Negra: a história do negro no Centro de São Paulo

Novo ciclo de caminhadas da Volta Negra começa neste sábado e tem atividades programadas para os próximos dois meses