11 de abril de 2016

Em assembleia geral, Gaviões da Fiel repudiam punição e prometem intensificar protestos


Na sede dos Gaviões da Fiel, milhares de associados se reuniram para discutir a série de acontecimentos recentes e a necessidade de unificação e mobilização da torcida


Por: Thiago Gabriel
Fotos: Thiago Gabriel
Infografia: Henrique Santana

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Desde o início do ano, a principal torcida organizada do Corinthians, os Gaviões da Fiel, tem protestado nos estádios e nas ruas. Caminhando até o prédio da Federação Paulista de Futebol, a porta da Assembleia Legislativa de São Paulo ou inundando as câmeras da Rede Globo de manifestações políticas durante os jogos do time. Os Gaviões tem direcionado suas críticas a alguns dos mais poderosos grupos do país.

Na tarde deste sábado (9), a organizada reuniu seus associados para uma assembleia geral convocada pela diretoria. O encontro lotou a quadra da torcida no Bom Retiro e teve falas de lideranças históricas, além dos membros da diretoria atual. Nos discursos, foi lembrada a história de luta dos Gaviões e a necessidade de unificar todas as correntes e dissidências existentes entre os associados para intensificar os protestos.

As principais pautas abordadas pela diretoria traziam a necessidade de intensificar os protestos e reverter a decisão do Ministério Público, que proibiu as torcidas organizadas de levarem faixas, camisas e bateria para os estádios até 31 de dezembro deste ano. A decisão foi tomada após a morte de um homem que passava pela estação São Miguel Paulista, e foi atingido por uma bala perdida, durante confrontos entre corintianos e palmeirenses antes do clássico do último dia 3.

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Na esquerda Diguinho, presidente da torcida. Na direita, Chico Malfitani, fundador e líder histórico da Gaviões


O presidente da torcida, Diguinho, convocou os associados: “Nós estamos enfrentando o sistema, e nós vamos continuar enfrentando. Mas pra continuar essa luta, rapaziada, a gente precisa de vocês. Não adianta ir cem caras no protesto”.

“Nós estamos enfrentando o sistema, e nós vamos continuar enfrentando. Mas pra continuar essa luta, rapaziada, a gente precisa de vocês. Não adianta ir cem caras no protesto”

Um dos fundadores dos Gaviões e liderança histórica da torcida, Chico Malfitani lembrou que não é a primeira vez que tentam extinguir a organizada: “Nossa força impediu que a Gaviões fosse extinta em 1969 (data da fundação) e em 1995, quando queriam acabar com a gente, como querem acabar agora. Isso porque tanto agora como naquela época, a gente punha o dedo na ferida”. Ele lembrou que atualmente a torcida tem colocado o dedo na ferida questionando porque a Rede Globo manda no futebol brasileiro, ou a legitimidade da CBF diante da acusação de seus maiores chefes de envolvimento em casos de corrupção.

O encontro serviu também para que os diretores pudessem atualizar todos os membros da torcida sobre os recentes acontecimentos. O presidente da organizada, Diguinho, falou sobre a agressão que sofreu junto com o primeiro secretário, Cris, no dia 2 de março deste ano. Os dois foram atacados com pedaços de pau e barras de ferro após uma reunião com o promotor Paulo Castilho e líderes das principais torcidas organizadas de São Paulo no Fórum Criminal da Barra Funda.

Sobre a reunião com o promotor, Diguinho afirmou ser estranho o fato de ela ter ocorrido depois que o próprio promotor já havia anunciado que não se encontraria mais com os líderes das organizadas. Ele explicou ainda que durante a conversa, Paulo Castilho sinalizou às lideranças que suas demandas seriam atendidas: “ O cara prometeu tudo. Falou que iam voltar com as bandeiras [de pau, proibidas nos estádios paulistas], fumaça, festa na arquibancada, até cerveja. Tudo que nós queríamos, ele falou que ia liberar. E na saída eu fui atacado covardemente”, falou aos associados.

O presidente ainda levantou a dúvida sobre quem teria o agredido: “Eu não sei se foi torcida organizada, se foi o setor privado ou se foi o Estado. Num sei, mas nós fomos atacados. Alguém nós estamos incomodando”.

Após o caso, a polícia indicou que os agressores eram integrantes de torcidas rivais. Membros da diretoria dos Gaviões afirmam que presidentes das outras organizadas paulistanas se apressaram em negar a autoria do ataque após o ocorrido, atitude que destoa da prática comum entre os grupos, que assumem e glorificam os conflitos.

“É muito fácil apontar o dedo pro líder do Gavioes, ao invés de você realmente apurar os fatos e identificar quem foi que fez e prender aquela pessoa. O Gaviões não pode pagar o preço por decisões individuais”

Na sexta-feira anterior ao clássico Palmeiras e Corinthians, no dia 1 de abril, um integrante da torcida palmeirense Mancha Verde, Deivison Correia, conhecido como “Menor”, foi preso acusado de ter atacado os diretores do Gaviões. No domingo, data do clássico, ocorreram diversos confrontos entre torcedores corintianos e palmeirenses em vários pontos da cidade. Um homem, que não participava das brigas, e passava em frente à estação São Miguel Paulista foi morto atingido por um tiro de bala perdida.

Para o presidente Diguinho, o poder público foi irresponsável ao anunciar a prisão de um integrante da Mancha Verde na véspera do clássico “Eu sofri uma covardia e não sei quem foi, não posso apontar o dedo. O que eu posso dizer é que na véspera de um Palmeiras e Corinthians você não pode acusar ninguém”. Ele ainda denuncia a falta de policiamento nas estações no dia do clássico diante da iminência de confrontos: “Nós caímos num cerco montado, infelizmente. O Gaviões não fez parte disso, mas infelizmente a torcida do Corinthians caiu”

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Uma reportagem do site Viomundo, apresenta um documento enviado à Secretaria se Segurança Pública pela torcida palmeirense Mancha Verde antes do clássico. No ofício, a organizada aponta ao poder público os locais onde haveria concentração de torcedores e possibilidade de confronto na cidade. Entre estes, está citada a estação São Miguel Paulista, onde ocorreu o assassinato.

No dia seguinte aos confrontos, o promotor Paulo Castilho anunciou que os clássicos teriam de ser realizados com torcida única em São Paulo e proibiu as torcidas organizadas de frequentarem os estádios utilizando suas vestimentas, faixas e bateria. Na visão dos Gaviões, essa prática não contribui efetivamente para a paz entre as torcidas e pune a instituição diante de atos e condutas individuais. A torcida se colocou a disposição, em nota, para pensar alternativas para o problema.

O presidente reiterou, na assembleia, que a diretoria dos Gaviões da Fiel não teve nenhuma relação com os confrontos com os palmeirenses: “Eu não estava envolvido como presidente, o Digão como vice, nenhum outro diretor. E se acontecer alguma coisa, algum mandado de prisão, é uma prisão política”.

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Foram lembrados também outros episódios considerados atos de intimidação por parte do poder público, como o mandato de apreensão e busca na quadra da torcida realizado pela Polícia Militar. Na ocasião, um dia após protesto da organizada em frente à Assembleia Legislativa de São Paulo, a corporação permaneceu por duas horas na sede da torcida e afirmou estar buscando os instrumentos que haviam sido utilizados para agredir o próprio presidente dos Gaviões. Também foi falado sobre a retirada do ponto de inscrição para o programa Via Rápida, que promovia cursos profissionalizantes de panificação e confeitaria, coordenado pela torcida em sua sede.

A assembleia foi definida como um momento para “deixar o time acertadinho” por Pulguinha, ex-vice presidente da agremiação. A diretoria convocou a todos para comporem e intensificarem os protestos, que irão continuar, e lembrou que, assim como a proibição inaugurada após o clássico, outras represálias virão diretamente dos interesses que a torcida busca combater.

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A próxima manifestação dos Gaviões da Fiel acontecerá na sexta-feira (15), no Vale do Anhangabaú, a partir das 17h. A expectativa da torcida é reunir milhares de corinthianos para protestar, já que nos estádios qualquer manifestação relativa à organizada está suspensa.

“Sabe porque que eles não vão acabar com a gente? Porque eles não conseguem acabar com o povo. Nós somos povo, nós somos maioria”

A frase que fechou o discurso de Chico Malfitani, expõe a força da mobilização das torcidas organizadas, e a necessidade da luta que os Gaviões pretendem continuar encabeçando nas próximas movimentações: “Sabe porque que eles não vão acabar com a gente? Porque eles não conseguem acabar com o povo. Nós somos povo, nós somos maioria. Nós não vamos acabar”.

Chico pontuou ainda que o problema da violência não é de responsabilidade apenas das organizadas, mas também de uma violência “banalizada” e “estrutural” que vivemos na sociedade hoje: “Da onde saem vocês (membros da organizada)? A grande maioria sai de bairros periféricos, onde o povo é oprimido, a violência está banalizada. Você liga a televisão matam gente na novela, matam gente no Datena, o joguinho de videogame é de violência, a Globo fatura com a violência no MMA. A briga de torcida organizada é horrorosa, um cara socando a cabeça do outro? E no MMA num é horroroso? Então tudo isso é violência.”

A sucessão de acontecimentos envolvendo a Gaviões da Fiel



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