05 de abril de 2016

Di Melo no Vaidapé na Rua: ‘Nada é impodível para o imorrível’


Um dos grandes nomes do funk soul brasileiro, Di Melo, participou do Vaidapé na Rua e apresentou seu novo disco ‘O Imorrível’, lançado no ano passado


Por Thiago Gabriel
Fotos: Bruno Mariz

“Por aqui está tudo bonitinho, quentinho, fofinho, cheirosinho, lavadinho, pronto para turbinar.”

O estúdio da Cidadã FM, no Butantã, foi contaminado, no último dia 21, com a irreverência e o talento de Di Melo, o primeiro e único Imorrível. Durante o programa de rádio Vaidapé na Rua, o cantor pernambucano se apresentou ao vivo, falou sobre seu novo disco, e contou as histórias que fazem parte de sua trajetória musical.

Ouça o programa completo no player:

Acompanhado de Dona Jô, sua companheira e assessora, Di Melo exibia orgulhoso “O Imorrível”, lançado oficialmente em show no Sesc Belenzinho no dia 27 de janeiro deste ano, e que é frequentemente apresentado como o segundo disco de sua carreira, depois de “Di Melo”, lançado em 1975.

“Além do disco da EMI/ODEON [“Di Melo”, de 1975], tem mais outros 10 discos. Agora, depois do documentário [“Di Melo – O Imorrível”, lançado em 2011], decidimos fazer o novo disco, com todo charme, elegância, persistência e provocância. Esse disco nada deixa a desejar para o que há no mercado em termos de composição, arranjos e letras”, considera o músico.

Gravado no Casona Estúdio, em Pernambuco, o novo trabalho tem participações de Bnegão, Larissa Luz e Olmir Stocker, e foi lançado com exclusividade na internet, pelo Spotify. “Antes era uma história mais elaborada e hoje nós temos o lance da internet. Mas não existe moeda de uma só face. Existiam coisas muito maravilhosas no passado e tem coisas muito maravilhosas hoje”, comenta o cantor sobre a nova plataforma de divulgação.

A empolgação com o novo trabalho aumenta diante do reconhecimento de seu som por parte de um público mais jovem. “Minha animação toda é exatamente a música para vocês que são jovens, que aderiram ao som. Haja vista que ninguém consegue fazer absolutamente nada sozinho, e nada melhor que os jovens comungando com o meu trabalho. E eu estou muito feliz, cada dia mais, porque cada dia é uma nova descoberta, é um novo motivo pra estar.”

O nome do novo albúm, seu eterno apelido “O Imorrível”, é um termo cunhado diante dos anos em que o cantor passou sem se apresentar e produzir discos através das grandes gravadoras. No programa, Di Melo contou aos ouvintes o causo que originou o apelido.


A HISTÓRIA DO IMORRÍVEL


“Eu costumava fazer uma brincadeira em que eu dizia que conheci três cantores: O Frank Sinatra e o Tony Bennet, Pavarotti e eu. Todo mundo começava a rir.

Eis que surge um amigo meu me ligando de Londres às 8h da manhã e me diz:

-Di Melo, lembra aquela brincadeira que você fazia? Pois é, foi feita uma pesquisa, a nível mundo, que chegou a conclusão de você está entre as dez melhores vozes do planeta.

E eu digo:

– Eu?

Ele diz:

– É, e pasme. Você fez um único disco, e depois, infelizmente, morreu em um desastre de moto.

E eu digo:

– Pois é, morri, só me esqueceram de me avisar.”


‘NADA É IMPODÍVEL PARA O IMORRÍVEL’


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“Quando você é jovem você acha que é eterno, que a vida não vai acabar nunca. Por isso, eu joguei tudo para o alto e estou retomando da melhor maneira possível o meu momento”. É assim que o cantor pernambucano Di Melo resume sua caminhada artística e musical desde os anos 70.

Na época do lançamento de “Di Melo”, em 1975, pela gravadora EMI/ODEON, o cantor se apresentava em casas noturnas de São Paulo, criava e reunia-se com músicos como Hermeto Pascoal, Baden Powell, Jair Rodrigues e Geraldo Azevedo. O disco, porém, não foi um sucesso absoluto nas rádios, que controlavam diretamente o que era tocado e ouvido no país, e Di Melo não “estourou” como seu disco musicalmente anunciava.

Nos anos que se passaram, o cantor manteve-se distante dos holofotes do sucesso musical, mas afirma que não parou de produzir. “Tem gente que acha que eu parei. Eu nunca parei, quem fica parado é poste. Eu fiquei ao longo dos anos criando, recriando e recriando”, conta.

“Quando você é jovem você acha que é eterno, que a vida não vai acabar nunca. Por isso, eu joguei tudo para o alto e estou retomando da melhor maneira possível o meu momento”

A produção ininterrupta do cantor se traduz em mais de 400 músicas gravadas, dois livros compilados (“A Mini-crônica da Mulher Instrumento”, e “O Bicho Voador”) e uma aventura extensa no universo das artes plásticas: “Eu sempre fui arteiro nato, em pintura, teatro, música. Nasci assim, e quero morrer assim. E é difícil se viver de arte no Brasil, como um todo. Porque quando as coisas ficam muito difíceis a primeira coisa que eles descartam é cultura, é arte”, analisa.

Ainda assim, a obra de Di Melo seguiu por muitos anos sendo ignorada pelo grande público brasileiro, e passou a ser redescoberta longe das terras tupiniquins. Em diversos países, DJs e músicos desenterravam o álbum de estreia do cantor e se espantavam diante da qualidade musical do disco. O reconhecimento aumentou a procura sobre o LP, que passou a compor o repertório de DJs e ser considerado raridade, vendido a preços altos no exterior.

“Eu, na Holanda, achei o meu vinil novinho por 700 euros. Achei um todo arranhado, sem encarte, por 350 euros. Aí eu digo: ‘pô, tô rico e não tô sabendo’”, brinca Di Melo, lembrando que os valores de direitos autorais das vendas jamais foram repassados para o cantor.


‘JACARÉ QUE NÃO BATALHA VIRA BOLSA DE MADAME OU BOOT DE BURGUÊS’


Em 2009, Di Melo seguia distante dos palcos, quando recebeu duas ligações que alteraram a rotina que o cantor levava no bairro do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo. Eram os diretores Alan Oliveira e Rubens Pássaro que, com diferentes projetos, entraram em contato com o cantor para produzir um filme sobre sua história.

“Primeiro ligou o Alan dizendo que queria concorrer a um edital e fazer um documentário meu. Menos de um mês depois, me liga o Rubens contando sobre o projeto de um documentário comigo. Pensei que era armação, coisa de cartinha marcada”, conta. O cantor proporcionou o encontro dos dois, o que resultou da união dos dois no processo de produção do filme. “Foi como se fosse a união do útero ao agradável”, brinca.

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O filme foi lançado em 2011 e ganhou repercussão nacional, sendo apresentado em diversos festivais. Foi ainda premiado como melhor montagem de curta-metragem no 40º Festival de Cinema de Gramado, um dos mais importantes do país, e vendido ao Canal Brasil.

Neste período, Di Melo já voltava a se apresentar em algumas casas de shows e festivais, e passava a atrair novamente a presença e o interesse do público jovem de São Paulo. A época também representou os primeiros anos de vida de sua filha Gabi, hoje com 10 anos, que também apressou o cantor a voltar a produção no circuito comercial. “Ela surgiu, cheia de charme, elegância, persistência e provocância, dizendo ‘papai eu te amo’”, conta.

A partir daí, a agenda de shows só cresceu e o processo de retomada na carreira do Imorrível chega agora ao lançamento do novo álbum, com o cantor a pleno vapor. “Eu trabalho pra caramba. Todo mundo diz que músico é artista, vagabundo. Eu agito 72 horas por segundo. Hoje eu já fiz coisas que vocês não farão daqui um mês”, fala sobre a nova rotina.


‘PERCA O MERDO E VIVA MAIS’


“Eu nasci fazendo isso e quero morrer fazendo isso. Existem raríssimas coisas que possuem essência. E dentre elas está a música, estão as artes. Eu acho que a música dentre elas é uma das mais expressivas. Você ouve uma música e volta no tempo, aspira um perfume, vê uma película, ou até mesmo uma obra de arte. Pessoas sensíveis sempre emocionam e fascinam. O gostar não se explica, simplesmente se aplica. Nada acontece por acontecer, tudo tem sua razão de ser. Está tudo comigo mesmo no meu querer. Eu adoro fazer tudo que faço.”

A arte de Di Melo não respeita os padrões de tempo histórico, gêneros musicais ou esquemas comerciais. Sua inspiração não é programática e parte da absoluta necessidade de criar e expressar, através de sua sensibilidade, algo que soa tão incompreensível quanto atual. Um dos grandes artistas da música popular brasileira que, graças a potência de seu som, foi redescoberto e reinventado em um tempo em que nos faltam Di Melos na arte.

“Em tudo que você desejar encontrar vai notar que há um pouco de mim. Sem petulância, com muita persistência, e por demais provocância.”

Di Melo

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|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio.

Música, debate e Vaidapé!

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Crônica por: Luis Cosme* Fotos: André Zuccolo, Julia Mente e Gil Silva João Doria não anda … Continuar lendo Um Passinho à Frente, por favor.