03 de abril de 2016

Minidocumentário retrata a vida das mulheres nas prisões


Segunda parte de minidocumentário sobre tortura nos presídios é lançada pela Pastoral Carcerária, abordando a lógica torturante do encarceramento feminino no país


Por Pastoral Carcerária

“Mulheres e o cárcere” compõe o minidocumentário “Tortura e Encarceramento em Massa no Brasil”, que teve a primeira parte, “A Tortura como Política de Estado”, lançada no ano passado. Esse material é parte de um projeto de combate à tortura no sistema carcerário brasileiro desenvolvido pela Pastoral Carcerária Nacional, que conta com o apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos e da Oak Foundation.


ASSISTA MULHERES E O CÁRCERE


Na luta da Pastoral Carcerária contra as precariedades vividas pelas mulheres presas e contra a tortura sistemática no sistema prisional pauta-se, como questão central, a urgente e necessária redução na população carcerária. A Pastoral, juntamente com outras entidades e organizações sociais, apresenta propostas concretas para o fim do encarceramento em massa na Agenda Nacional pelo Desencarceramento.

O Brasil registra uma das maiores taxas de encarceramento do planeta. Segundo dados do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (Infopen) e do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), enquanto EUA, China e Rússia diminuíram percentualmente a quantidade de pessoas presas nos últimos anos, a população carcerária no Brasil aumentou 33%, entre 2008 e 2014.

O encarceramento feminino, por sua vez, é proporcionalmente maior que o aprisionamento de homens: entre 2000 e 2014, enquanto o crescimento da população carcerária masculina foi de 220%, o aumento do encarceramento de mulheres foi de 567%. A opção política pelo encarceramento em massa é, portanto, mais agressivo em relação às mulheres.

Irmã Petra Pfaller, coordenadora para a questão da mulher presa na Pastoral Carcerária Nacional, afirma que mesmo o Brasil sendo signatário das Regras de Bangkok, que dispõe sobre os regramentos acerca do tratamento de mulheres encarceradas, o sistema prisional ignora as suas especificidades.

“Conforme análise de Heidi Ann Cerneka [ex-coordenadora para a questão da mulher na pastoral], o sistema carcerário foi feito por homens e para homens. As mulheres são simplesmente tratadas como presos que menstruam. Ou seja, o sistema as trata como se a única diferença em relação aos presos fosse a menstruação”, afirma.

Mesmo sendo violenta e desumanizadora para os homens encarcerados, completa irmã Petra, a realidade e as condições da prisão repercutem de forma ainda mais danosa em relação às mulheres. Para ela, isso fica evidente, principalmente, quando observadas as consequências que atingem suas filhas e filhos, toda a estrutura familiar e a integralidade de suas relações sociais, levando em conta os estereótipos de gênero e do “ser mulher” impostos.

As violências e violações de direitos são ainda mais agudas em relação às mulheres presas que são mães. No que tange a maternidade e o aprisionamento feminino impera “a falta da autonomia das mulheres em relação a como criar os seus filhos e de que maneira esses filhos são de fato filhos delas ou parte de uma política de contenção e de disciplinamento que retira os filhos mesmos estes estando no colo de suas mães”, analisa a professora Bruna Angotti, mestre e doutoranda em antropologia social pela USP.

Dentro deste contexto, ainda cabe registrar alguns números: cerca de 45% das mulheres encarceradas são presas provisórias e quase 70% estão presas acusadas ou condenadas por tráfico de drogas. Em relação a este último, revela-se a condição de vulnerabilidade a qual muitas mulheres são submetidas, inclusive, na estrutura do comércio de drogas classificadas como ilícitas, em que ocupam a base da pirâmide e os postos mais suscetíveis de encarceramento.