20 de abril de 2016

Era hora de vomitar em Brasília

Relato por: Thiago Gabriel
Fotos: Murilo Salazar

Desde o início do dia, o roteiro já estava anunciado.

As ruas sitiadas da Capital Federal não deixavam qualquer dúvida de que aquele dia não era do povo. Qualquer reação inesperada seria controlada. Um muro dividia os gritos dissonantes. Para andar pelas ruas de qualquer um dos lados, só passando pela revista da PM.

Enquanto uma multidão desceu a Esplanada dos Ministérios trajando vermelho de forma uniforme, do outro lado, a massa verde-amarela chegava à frente do Congresso de maneira dispersa. Os carros de som davam o tom das manifestações.

Os discursos se revezavam como um bastão passado de um atleta a outro em competições olímpicas. Impressiona a facilidade com que os movimentos aderem a cores e símbolos a eles imputados.

Nada de novo acontecia em Brasília.

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A população foi submetida a 6 horas de tortura. Os auto-falantes e telões obrigavam a todos que quisessem permanecer dentro do cercadinho policial que acompanhassem aquele “evento”. E nós acompanhamos.

Acompanhamos porque não possuímos horizonte a ser mirado. Acompanhamos porque, no fim das contas, acreditamos que poderiamos vencer. Acompanhamos porque aguardavamos que algum fio de esperança seria carregado na condução daquele processo.

Ledo engano.

Um evento, no sentido rigoroso do termo, carrega em si uma verdade até então inaudita. E no domingo não houve sequer uma declaração que eu pudesse ouvir que subvertesse a ordem dos acontecimentos.

Durante o espetáculo, a manifestação denominada pró-democracia definhava aos poucos diante da lavada sofrida dentro da Casa do Povo. Já o protesto denominado “pelo Brasil”, aplaudia figuras como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano e vibrava diante dos votos favoráveis à sua causa.

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O final da votação foi emblemático.

As tentativas frustradas de organizar a resistência de pessoas vencidas, contrastava com a comemoração envergonhada e apolítica do lado vencedor. Afinal, depois do show, ninguém mais parecia ter vencido nas ruas da capital.

Era impossível não perceber um desconforto dos dois lados em participarem daquilo. Afinal, permitimos cegamente que pudessem nos chamar de vencedores e vencidos em um jogo que não jogamos.

O que restou aos patriotas foi saudar o trabalho da Polícia Militar, agradecer a presença de todos e encerrar a festa pouco mais de uma hora após o resultado.

Aos democratas sobrou a frustração. Rostos tristes e lágrimas escorrendo, enquanto as lideranças anunciavam a continuação da batalha. Não vai acontecer. A submissão a todo o processo e a prática de tortura implementada no domingo não deixavam dúvidas.

Não era hora de digerir, era momento de vomitar.

A RUA GRITA

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’

Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco … Continuar lendo ‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’