10 de maio de 2016

Relato denuncia perseguição e prisões de pixadores em BH


Após seis meses do rompimento da barragem da Samarco, em Bento Rodrigues (MG), pixador é preso por crime ambiental em BH


Por Patricia Iglecio
Fotos: Maxwell Vilela / Jornalistas Livres

13147809_1090201561021191_183249242500462821_o

Aconteceu na última quinta-feira (5), manifestação em Belo Horizonte contra a prisão do artista de rua e pixador João Marcelo Ferreira, conhecido como GOMA. João foi enquadrado e apontado como um dos responsáveis pela pixação da igrejinha da Pampulha. Ele nega a autoria do ato.

As acusações envolvem formação de quadrilha, apologia ao vandalismo e crime ambiental, o que gerou revolta entre amigos, admiradores e grupos de artistas.

Cerca de 100 pessoas marcharam até o Ministério Público do estado, em coro e com cartazes, pedindo que o juiz tivesse coerência. No mesmo dia, o rompimento da barragem da Samarco, também em Minas, que destruiu Bento Rodrigues e contaminou o Rio Doce, completou seis meses, o maior crime ambiental da história do país.

Sobre o ocorrido, Cripta Djan, um dos expoentes da pixação em São Paulo, disse em sua página do Facebook  ser “revoltante mais um mano preso por interferir esteticamente na paisagem urbana das cidades. Preso pela lei de crime ambientais, por tacar tinta em concreto, parede, que não tem vida alguma. Já o presidente da Samarco esse tá solto, destruiu vidas e o meio ambiente e tá por ai gozando da vida. esse é o Brasil.

A namorada de GOMA, Stephane Ferreira, também se revoltou com a prisão e enviou à Vaidapé um relato sobre o ocorrido, que disponibilizamos abaixo na íntegra.


LEIA O RELATO DE STEPHANIE FERREIRA, ARTISTA E NAMORADO DE GOMA:


Na terça-feira, dia 3 de maio, às 7h da manhã, eu já estava indo trabalhar quando minha sogra, Fátima, me telefonou com a notícia de que o João tinha sido levado preso. Ela estava muito nervosa, disse que a abordagem foi truculenta e o levaram algemado, como se tivesse cometido algum crime grave. A Polícia Militar chegou às 6h15, o João não resistiu à prisão e uma equipe de reportagem da rede Globo esteve presente para filmar tudo. Ele foi levado para a delegacia da Polícia Civil de Meio Ambiente, no bairro Prado e, desde o início, contatamos o advogado dele, Eduardo Belli, que se dirigiu à delegacia.

Fui informada que eu não poderia vê-lo naquele dia, porém fiquei telefonando o dia todo, e na parte da tarde me deixaram falar com ele. Ele chorou muito e me pedia desculpas por tudo que havia acontecido. Também me disse que estava aguardando ser encaminhado para alguma penitenciária, pois até então não estavam conseguindo nenhuma vaga para ele. Às 18h ele foi levado para o CERESP da Gameleira, em Belo Horizonte.

Nesta terça foi tudo muito confuso, não sabíamos o motivo pelo qual ele tinha sido preso, então no jornal MGTV, da Globo, mostraram as filmagens da prisão. Ao final da reportagem, apareceu o promotor Marcos Paulo dizendo que ele foi preso por “associação criminosa”, foi assim que ficamos sabendo o motivo.

13087157_1090201521021195_8691343698638005129_o13131101_1090201911021156_3021089750130581857_o

Não é de hoje que existe essa perseguição em cima do João. No final do ano passado a polícia havia apreendido computador, celular e algumas blusas da loja dele, a Real Grapixo, através de um mandato. Na época, ele prestou depoimento na mesma delegacia em que foi preso, e até então não tinha “dado” mais nada.

Tudo voltou à tona depois da pichação feita pelo Maru na Igrejinha da Pampulha. Houve grande repercussão do caso, assim como a busca por culpados. No dia depois da pichação, alguns policiais foram na Real Grapixo procurar pelo João, disseram que já sabiam que o Maru que tinha pichado a igrejinha e queriam que o João dissesse seu nome e onde ele morava. Basicamente, exigiram que ele fizesse o trabalho da PM,

Ele disse que não sabia. No dia seguinte, foram alguns policiais federais na loja e acusaram o João de ter pichado a sede do PT, na sexta-feira, dia 4 de março. Sendo que, nesse dia e horário, estávamos em um show, ou seja: não tinha nenhum fundamento a acusação. Logo percebemos que estavam buscando algo para incriminá-lo.

Veja aqui notícias sobre investigação da PM da pichação na sede do PT de BH

No dia 7 de abril, o João teve todo o material da loja Real Grapixo, confiscado. Roupas da marca dele (Real Grapixo) e de outras marcas, tinta em spray, rolinhos, pigmentos, canetas, bonés e as câmeras da loja foram apreendidos. Cerca de R$ 20.000,00 mil em materiais, sendo que ele não vendia nada de forma ilegal e possui nota fiscal de todos seus produtos. A loja é o único meio de sustento do João.

| Veja aqui a apreensão de materiais da loja do João

13139316_1090201311021216_1317993990002988354_n13147835_1090201344354546_6381710605595529294_o

A partir desse dia ele estava certo de que iria ser preso, não tinha mais paz e as contas para pagar iam chegando. Seu advogado já havia entrado com recursos para recuperar os produtos.

Pela mídia e pelo advogado, fiquei sabendo que o João foi preso simplesmente por ter vendido o spray para o Maru na ocasião da pichação à Igrejinha da Pampulha. Tem fundamento uma acusação dessas? Sendo que existem outras Graffiti Shop’s em BH, inclusive a venda de spray é realizada em depósitos de materiais de construção. O João vende o produto, mas não sabe o que será feito com ele.

Conforme matéria divulgada no jornal O Tempo:

"Já o dono da loja, que é conhecido como "Goma", teria sido acusado por fornecer o material (sprays) para a pichação da igreja. Segundo os promotores, ele fazia propagandas do estabelecimento nas redes sociais informando a capacidade das tintas "para praticar pichações". Ele também foi denunciado por apologia de fato criminoso e por "deixar de cumprir obrigação de relevante interesse ambiental" e "promover publicidade enganosa ou abusiva".

|Veja aqui a matéria completa

13161729_1090201624354518_5247294827463271686_o13147641_1090201224354558_43783489785778692_o

Voltando ao dia da prisão.

Naquela terça-feira, alguns amigos do João me procuraram para que nos encontrássemos para pensar em algo que pudesse ser feito. No mesmo dia, fomos à noite até o viaduto Santa Tereza, no centro de BH. Lá, cerca de 30 pessoas se reuniram para pensar em alguma mobilização social. Foi decidido uma manifestação não só pelo João, mas também para o GG e Morrou (que foram condenados recentemente no caso dos Pixadores de Elite e seguem presos), e também para o Maru e Frek, envolvidos nesse episódio. A manifestação foi marcada para quinta-feira, dia 5 maio, na Praça Raul Soares, onde seguiríamos para o Ministério Público. O ato terminou na Praça 7.

Desde então, vivemos com a angústia de não saber quanto tempo ele pode ficar preso, e o fato dele estar envolvido nesse caso injustamente é o que causa mais revolta.

Tudo isso que eu noticiei foi amplamente divulgado nos meios de comunicação de BH de forma equivocada, com isso a sociedade enxerga os pichadores como um mal.

A RUA GRITA

MINI-DOC | “Sem Saldo”

Sem Saldo é mais do que um documentário feito por estudantes secundaristas de escolas públicas … Continuar lendo MINI-DOC | “Sem Saldo”

A RUA GRITA

Menos amor, por favor

Por: Tomás Spirandelli Duarte, do blog La Sinistra* Ilustração: Pedro Mirilli Fotos: André Zuccolo e … Continuar lendo Menos amor, por favor

A RUA GRITA

Samba da Treze fecha a rua no Bixiga

Município autoriza interdição de tráfego durante apresentações do grupo Madeira de Lei, às sextas-feiras, na … Continuar lendo Samba da Treze fecha a rua no Bixiga

A RUA GRITA

ENSAIO | Hoje a aula é na rua

Fotos: João Miranda Texto: Paulo Motoryn Após paralisarem mais de 40 escolas na quarta-feira (23), … Continuar lendo ENSAIO | Hoje a aula é na rua

A RUA GRITA

Neguinha

Por: Wesley Barbosa* Ilustração: Brenda Passos Encontrei Neguinha em uma viela perto do bairro em que … Continuar lendo Neguinha