19 de maio de 2016

Não parece um cenário de guerra, é guerra


Nos últimos meses, cresce a repressão policial contra os secundaristas. Que tipo de indivíduos se espera formar em uma sociedade cuja prioridade é a força policial e não a educação de jovens e crianças?


Por Carolina Martins
Fotos: Mídia Ninja

“Trabalhador, preste atenção, a nossa luta é pela educação”. “Unifico, unifico, é estudante, funcionário e professor”. “Vem, vem, vem pra rua, vem, contra o Geraldo”. “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar!”. “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura. E ainda apoia!”. “Governador, fala a verdade, educação nunca foi prioridade”.

Estes foram alguns dos cantos entoados pelos estudantes, professores e funcionários da rede pública estadual na noite desta quarta-feira, 18, em ato na Av. Paulista. O ato unificado teve sua concentração no vão do MASP e rumou para Secretaria da Educação, via Av. Consolação.

Nos últimos meses, os estudantes secundaristas ocuparam escolas estaduais pedindo o fim do fechamento de escolas (plano que faz parte da reorganização escolar do Governo do Estado de São Paulo); exigindo a CPI da Merenda; contra os cortes na área da educação e contra a precarização da educação pública.
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Na sexta-feira, 13 de maio, o movimento foi atacado pela Polícia Militar do Estado de São Paulo a mando do ex-Secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, que ordenou reintegração de posse das escolas ocupadas. Tal ação foi feita de forma ilegal, não apenas pela truculência policial para com estudantes do Ensino Fundamental II, mas também porque não houve mandato e tampouco aviso prévio.

O ato de ontem foi pela educação, mas também contra a repressão policial por parte do Estado.

“Ao chegar na concentração ficou claro que a quantidade de força policial no local era muito maior do que a necessária”

Ao chegar na concentração ficou claro que a quantidade de força policial no local era muito maior do que a necessária. No começo da caminhada, os manifestantes sentaram na Avenida Paulista, em frente ao MASP, e leram uma carta, direcionando aos policiais que ali estavam, ao órgão como um todo, ao ex-Secretário e ao Governador, que tratava da violência e repressão nas reintegrações de posse.

Não havia muita gente, os manifestantes ocupavam em torno de um quarteirão da Paulista. Olhando para trás do ato viam-se sirenes; muitas sirenes dos carros policiais. Ao lado, havia policiais sem nome – talvez houvesse dois PMs com identificação, se muito – escoltando-nos em fila indiana. À frente, sirenes de motocas. A cada esquina, mais motocas fechando as ruas.

Mais ou menos no meio da Consolação, alguns policiais saem da fila e buscam um dos estudantes que lera a carta no início. Parece que perguntam pelo “responsável”. As câmeras se aproximam para saber o que há. Quando vemos, uma das fotógrafas é puxada pelo braço e encurralada atrás da fila indiana de PMs, eles a isolam e a pressionam pedindo para ver todas as fotos na câmera; cercando-a, para que ninguém conseguisse falar com ela.

Enquanto isso, outros continuaram filmando a cena. Pedem alguma identidade; exigem. O PM tira uma foto, com o celular, da carteira de motorista dela. Liberam a moça. Neste momento evidenciou-se que a polícia estava apenas esperando um motivo, por mais tosco ou inexistente que fosse, para partir pra cima.

Continuamos a caminhada. Um dos cantos entoados perguntava algo como “tem dinheiro pra PM, mas não tem pra educação?”. Ali estava óbvia a prioridade do Governo do Estado: força policial; era gritante o investimento feito nos carros, nas motos, nos cassetetes e na quantidade de policiais em contraposição com os estudantes, professores e funcionários que lutavam por espaço escolar, por merenda, por educação pública de qualidade.

Um governo que fecha escolas e financia militarmente a polícia pode ser considerado legítimo? Este mesmo governo que rouba dinheiro da merenda de estudantes da rede pública estadual que já quase nada tem: não têm escolas, não têm professores, não têm livros, não têm espaço de voz. Mas em São Paulo tem PM, o que não falta é PM. A política aqui é: com polícia e força policial tudo se resolve.

Uma pergunta grita: que tipo de indivíduos se espera formar em uma sociedade cuja prioridade é a força policial e não a educação e crescimento de jovens e crianças?

“Uma pergunta grita: que tipo de indivíduos se espera formar em uma sociedade cuja prioridade é a força policial e não a educação e crescimento de jovens e crianças?”

Chegamos à Av. Ipiranga. Os policiais da fila pedem para parar. Conversam com um homem que parece ser professor. Alguns manifestantes se aproximam, tentando entender. O homem pede calma dos estudantes. Os estudantes pedem calma uns aos outros e tentam segurar os manifestantes para que não cerquem os policiais.

Aparentemente, os PMs não querem que o ato siga pela Ipiranga. Antes que seja possível entender o que se passa, um dos estudantes é agarrado pelo policial. Com isso, outros se colocam em volta. Quando vemos, os policiais da fila indiana estão cercados por uma pequena multidão. Começa a pancadaria. As pessoas que estavam em volta se afastam com rapidez e correm: os policiais estão com uma mão no cassetete e spray de pimenta na outra.

O grupo, então, se dispersa e, enquanto isso, a outra metade do ato está descendo a Consolação. Alguns secundaristas disparam rojões. Os policiais respondem com bomba de gás lacrimogênio. Todos correm pela Ipiranga em direção à Praça da República. Olhamos para trás e trata-se de uma perseguição; o cenário parece de guerra. A Av. Ipiranga com policiais, lado a lado, fechando a rua e correndo atrás dos manifestantes.

Atrás dos fardados a pé, enxergavam-se as sirenes das motocas. Os fardados vinham com raiva, dando rasteira, batendo com tudo com o cassetete em estudantes desarmados. “Se corre o bicho pega, se ficar o bicho come”, esse parecia o lema. Qualquer um que estivesse andando por ali poderia apanhar naquele momento, bastava estar ali.

Tentamos entrar no metrô da República mas os seguranças fecham as grades na nossa cara. Muitos manifestantes se dispersam. Têm mais policiais, aparece o CHOQUE, esperando na Praça; fecham a saída pela esquerda da República.

Os fardados que estavam a pé nos alcançam e logo chega uma viatura. Vê-se um amontoado de policiais tentando prender, a força bruta, alguns estudantes. Duas meninas tentam se aproximar para ver o que ocorre e um PM ameaça correr atrás e grita “Mostra a cara, sua burra!”, elas correm, gritando algo em troca.

O restante do ato começa a chegar à Praça. Quando todos chegam, vemos que não somos muitos. Sobraram 50/60 pessoas ali, talvez.

Estamos fechados na República. Sem saída. Os metrôs estão lacrados. A saída pela Consolação, cheia de PMs e viaturas. A Ipiranga com uma fila de fardados para que não sigamos em frente. A Praça, fechada pelo que parecia ser o CHOQUE. Estamos sitiados.

“Não parece um cenário de guerra, é guerra”

Não parece um cenário de guerra, é guerra. Os secundaristas já estavam preparados para essa violência: foram mascarados, alguns estavam com coletes, capacetes, joelheiras. Sentados em plena Avenida, eles entoavam “NÃO TEM ARREGO!” e “Pode bater, pode espancar, da minha luta ninguém vai me tirar!”.
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No total, 6 estudantes foram detidos, de forma arbitrária e bruta, pela PM. No local, nos foi dito que eles foram levados ao DP 78, mas depois descobrimos que a falta de honestidade e ilegalidade da Polícia não tem limites: os estudantes, na realidade, foram encaminhados para a 2ª DP.

O metrô não abriria até que todos os manifestantes fossem retirados do local, nas palavras do segurança do metrô: “a abertura depende destes vagabundos”. Não, ele não se referia aos policiais, se referia aos estudantes que acabavam de ser espancados e encurralados.

É importante dar nome aos bois. A truculência deste órgão público, que deveria estar a serviço da população e não contra ela, é incentivada, financiada e ordenada pelo Governador do Estado de SP: Geraldo Alckmin. O ladrão das merendas.

“Sou estudante, não sou ladrão, não vim pra rua pra voltar de camburão!”.

Que este último canto fique como objeto de reflexão para pensarmos como queremos tratar nossos jovens; nossos filhos?