05 de maio de 2016

‘Nóis já tá fervendo’: O tsunami secundarista que se espalha pelo Brasil


São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Ceará. A mobilização dos estudantes secundaristas cresce pelo país reivindicando melhorias para o ensino público


Por Henrique Santana
Fotos: Leandro Moraes e André Zuccolo

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“Hoje eu só tenho a agradecer a ocupação, mano. Quando eu lembro dessa época, já vem na minha cabeça: o Alan de antes da ocupação e o Alan de depois. Depois que as ocupações acabaram, eu, junto com a galera das ocupas do Barão e do Parque da Juventude, fui em atos do Movimento Passe Livre. A partir daí conheci uma outra galera e montamos uma frente de luta na ZN. Continuamos bem ativos nos movimentos, mesmo depois da ocupação.”

O depoimento acima é de Alan Queiroz, estudante secundarista da extensão Barão Homem de Mello, da ETEC (Escola Técnica Estadual) Parque da Juventude, na zona norte de São Paulo. O impacto das mais de 200 ocupações secundaristas que paralisaram o estado e derrubaram um Secretário de Educação no final de 2015, mais do que mudar a trajetória de lutas de Alan, impactaram uma geração de alunos por todo o Brasil.

Depois de São Paulo o movimento emergiu em Goiás, onde ao menos 26 escolas foram ocupadas contra a implementação de um projeto de privatização do ensino público. Na ocasião, a estudante Valéria Nobre, de 17 anos, contou à Vaidapé que as principais influências vieram das mobilizações em São Paulo e da revolta dos estudantes chilenos em 2006, que ficou conhecida como Revolução dos Pinguins, em alusão aos uniformes usados nos colégios. “Eram as duas principais referências. Se eles conseguiram nós também conseguiríamos, foi o ponto inicial”, diz.

| Para entender melhor as movimentações que aconteceram em Goiás, leia: Secundaristas são presos em Goiás após ocuparem Secretaria da Educação

Em 2016, o tsunami secundarista também chegou ao Rio de Janeiro, hoje com mais de 70 escolas ocupadas; subiu para o nordeste, com outros cinco colégios dominados por estudantes no Ceará; voltou para São Paulo com a ocupação de 14 instituições de ensino; e até ultrapassou as fronteiras do país, chegando ao Paraguai.

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Manifestação feita pelos estudantes secundaristas de São Paulo no final de 2015 – Foto: André Zuccolo

As pequenas divergências entre as demandas de cada escola e estado ficam sob o guarda-chuva de uma pauta em comum: a luta contra a precarização do ensino público. O modelo de mobilização também é muito semelhante nas ocupações, com decisões tomadas em assembleia e sem uma liderança que represente os anseios dos estudantes. Todos tem poder de voz.


No Rio


As mobilizações no Rio de Janeiro vieram no embalo da greve dos professores da rede pública de ensino, que se iniciou em março desse ano em protesto contra cortes salariais e atrasos na folha de pagamento promovidos pela gestão Pezão (PMDB). Cerca de 80% do corpo docente está paralisado. “Assim que os professores começaram a aderir a greve, os alunos já ficaram atentos”, conta Igor Costa, estudante secundarista do Colégio Estadual Manuel de Abreu, em Niterói.

Rio de Janeiro
76 escolas ocupadas

 

Principais reivindicações:

– Melhorias na estrutura das escolas
– Votação para a escolha da direção dos colégios
– Passe livre estudantil ilimitado
– Fim do Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro
– Aplicação de um currículo mínimo que contemple questões do ENEM
– Cumprimento das pautas levantadas pelos professores em greve


São Paulo
14 escolas ocupadas

 

Principais reivindicações:

– Melhorias na estrutura das escolas
– Aumento da verba para merenda escolar
– Punição para os envolvidos nos escândalos da merenda
– Fim do fechamento velado de salas de aula


Ceará
5 escolas ocupadas

 

Principais reivindicações:

– Melhorias na estrutura das escolas
– Aumento da verba para merenda escolar
– Passe livre estudantil
– Reajuste acima da inflação para os professores

Igor está acompanhando as movimentações contra os cortes no ensino público desde o princípio. Com a paralização dos professores, começou uma articulação com outros colégios, para dar suporte à greve e levantar outras reivindicações dos estudantes. A falta de diálogo com a Secretária de Educação culminou no início das ocupações.

Seu colégio não foi ocupado, uma decisão tomada pelos estudantes, já que a grande maioria dos alunos tem que conciliar os estudos com o trabalho, o que dificulta a permanência integral na ocupação. “Além disso, o diretor do Manoel de Abreu já foi candidato pelo PMDB. A capa do perfil do Facebook dele é ele abraçado com o Pezão. Então a gente achou melhor que os alunos favoráveis a ocupação se unissem para ajudar as outras escolas”.

Igor falou com a Vaidapé por telefone, logo após ter ajudado na ocupação do CEPAR (Colégio Estadual Paulo Assis Ribeiro), o terceiro colégio ocupado em Niterói. “A partir do momento em que a gente consegue ocupar a escola, a gente divide ela em alguns núcleos. Não tem nenhuma pessoa de frente. Todo mundo tem o mesmo poder. Temos uma assembleia por dia e só quem tem poder de voto nessas assembleias são os estudantes secundaristas.”

Os núcleos de organização do CEPAR se assemelham a divisão feita em outras escolas. São quatro equipes: segurança, alimentação e limpeza, sendo que esta última inclui todos os alunos. Além disso, é formado também um núcleo de comunicação, do qual Igor faz parte.

“Proibimos a entrada das mídias na escola, porque os jornais estavam vindo para cá, pegando o que a gente fala e só colocando o que interessa para eles nas notícias. Então nós temos a nossa própria mídia independente aqui dentro”, conta Igor, acrescentando que a articulação para o início da ocupação é feita em sigilo, uma forma de evitar que a direção tome medidas que coíbam a entrada dos alunos.

“Não tem nenhuma pessoa de frente. Todo mundo tem o mesmo poder. Temos uma assembleia por dia e só quem tem poder de voto são os estudantes”

| Sobre a cobertura enviesada da mídia, leia também: Mídia: o Gatilho de Alckmin contra os secundaristas

A criminalização do movimento pela direção é comum e também aconteceu em diversas escolas em São Paulo e Goiás. No Rio, os estudantes vêm sofrendo com o movimento das “desocupas”, normalmente puxados por diretores, que reúnem pais e alunos insatisfeitos com a ocupação para fazer pressão pela saída dos secundaristas.

A prática não é novidade. Nas ocupações das escolas paulistas no ano passado, a cúpula da gestão do ensino público já havia feito uma articulação semelhante. Na época, o Chefe de gabinete da Secretaria de Educação do Estado, Fernando Padula, declarou em uma reunião que o governo estava, nas suas palavras, em “guerra” contra o movimento dos secundaristas. O áudio da conversa foi vazado pela jornalista Laura Capriglione através da página Jornalistas Livres.

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Artista faz intervenção em frente a ocupação do Centro Paula Souza, em São Paulo – Foto: Leandro Moraes

“Tem muita gente tentando criminalizar o movimento, indo contra. Mas os colégios ocupados estão fazendo reuniões com os pais e, quando eles chegam aqui e veem o que realmente está acontecendo na escola, ficam totalmente apoiando a ocupada. Só vivendo esse momento para saber como é que é. Sem falar que a gente está tendo uma aula de cidadania. O que aprendemos aqui não é ensinado em nenhum lugar do mundo”, afirma Igor, criticando as iniciativas de criminalização.

Investimentos em educação no Rio de Janeiro


2015: 10,7 bilhões
2016: 7,8 bilhões

As ocupações não se resumem a permanência dos alunos nos colégios. Assim como em São Paulo, diversas escolas no Rio articulam atividades como aulas públicas, oficinas e debates. É o caso da Ocupa Cairu, feita no Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier, zona norte da capital.

“O pessoal das atividades cuida dos cronogramas, com oficinas e workshops que são feitos na escola. Nós costumamos fazer na parte da manhã os aulões, normalmente voltados para o vestibular, mas que são abertos para todos os estudantes. Na parte da noite a gente faz os workshops de teatro, dança e fotografia”, explica Gabriel, um dos alunos que participa a ocupação.

As atividades são organizadas pelos 20 estudantes que atuam mais ativamente da ocupação e contam com o apoio de professores do colégio e pessoas de fora. Segundo Gabriel, a adesão de alunos só não é maior pelos empecilhos que a realidade impõe. Como muitos dos estudantes trabalham de noite ou moram longe da escola, “fica difícil ter os recursos para ficar em tempo integral. Mas, durante o dia, costumam participar cerca de 150 alunos no colégio”, conta.

“Para nós, o maior ato de rebeldia é você ser um aluno pobre, que veio de um colégio público e entrou em uma universidade federal. E é isso que a gente tá correndo atrás”

No Méier ou em Niterói, a luta de Igor, Gabriel, dos professores e de tantos outros secundaristas acaba se unindo em uma pauta comum, que reivindica melhorias em um ensino público historicamente precarizado. O estudante de Niterói explica:

“Queremos um futuro melhor, não só para a gente, mas para nossos irmãos mais novos, para os nossos filhos. Porque, para mim e para todos alunos, o maior ato de rebeldia é você ser um aluno pobre, que veio de um colégio público e entrou em uma universidade federal. É isso que a gente tá correndo atrás e isso que queremos para todos os alunos.”

Ele ainda avisa que as ocupações não vão parar enquanto as reivindicações levantadas pelos estudantes não forem atendidas: “O governo falou que iria conversar com a gente se nós desocupássemos. Mas nós não vamos desocupar se eles não cumprirem nossas pautas, até porque sabemos como que aconteceu o movimento em São Paulo”.


Em São Paulo


Mesmo com a vitória parcial dos estudantes secundaristas de São Paulo, que barraram em 2015 um projeto de reorganização escolar que iria fechar mais de 90 instituições de ensino, o governador do estado, Geraldo Alckmim (PSDB), não titubeou em dar sequência ao plano. De acordo com o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), até o final de fevereiro mais de 1.300 salas foram fechadas pela gestão de Alckmin. No final de abril, a Justiça do estado exigiu explicações do governo sobre a extinção das turmas, o que estaria configurando uma “reorganização gradual e disfarçada”.

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Não bastasse isso, em janeiro, a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo deflagraram a Operação Alba Branca, que investiga um esquema de superfaturamento em contratos de fornecimento da merenda escolar. Entre os principais envolvidos, está o deputado Fernando Capez (PSDB), aliado de Alckmim e presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP).

| Para entender melhor a atual situação das merendas nas escolas, leia: O que está sendo servido nas escolas públicas?

Em resposta aos fechamentos e à máfia das merendas, os secundaristas voltaram a se mobilizar. Hoje, já são ao menos 12 ETECs e outras duas escolas estaduais ocupadas. “O plano de reorganização está rolando. Várias escolas estão com muitas salas fechadas e, além disso, tá tendo o desvio de merendas. Estamos pensando uma forma de mostrar isso para a galera”, relata Alan, cujo o depoimento ilustra o início desta matéria.

Gislaine Gomes, estudante secundarista da Escola Estadual Plínio Negrão, na zona sul, concorda. Para ela, “ao invés de fechar escolas, ele [o governador] passou a fechar salas. Está o maior transtorno. A nossa página do Facebook, Plínio Negrão em Luta, está bombardeada de reclamações: alunos sendo remanejados, turmas sendo fechadas. Até os pais estão reclamando”.

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Mais de 300 estudantes ocuparam a Assembleia Legislativa reivindicando a instalação da CPI – Foto: Leandro Moraes

Além da retomada das ocupações, os secundaristas passaram a organizar uma série de mobilizações pela cidade. A última ação foi a tomada do plenário da ALESP por mais de 300 alunos, na terça-feira (3). Os estudantes prometem ocupar a Assembleia enquanto não for instalada uma CPI para apurar crimes e punir os envolvidos na máfia da merenda.

Capez, o presidente da Casa, afirmou em entrevista coletiva na manhã desta quarta-feira (4) que vai isolar o prédio, impedir a entrada e saída de pessoas e, ironicamente, o fornecimento de alimentos e água para os estudantes que ocupam o plenário. O deputado lançou as medidas como parte do que ele chama de “operação saturação”, que visa “vencer os jovens pelo cansaço”. Integrante da chamada “bancada da bala” de São Paulo, Capez também elogiou a atuação da Tropa de Choque, o trabalho da Polícia Militar e entrou com um pedido de reintegração do prédio. A Justiça acatou, e os secundaristas tem até amanhã (6) para desocupar o edifício, caso contrário, será aplicada multa de R$ 30 mil por estudante que ocupa a Assembleia.

A Vaidapé registrou a entrevista de Capez no vídeo abaixo e adicionou imagens da atuação da PM em uma manifestação organizada pelos estudantes no ano passado. A repressão policial contra os secundaristas foi criticada por órgãos e entidades internacionais, chegando a pautar denúncias na última Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington.


‘A luta é uma só’


Na última quinta-feira (28), antes da ocupação da ALESP, cerca de 300 estudantes também entraram no Centro Paula Souza, autarquia responsável pelas escolas técnicas do estado. Logo após o ocorrido, o Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, acionou a Tropa de Choque que se posicionou no local. A ação foi feita sem autorização da Justiça, que exigiu que os PMs saíssem da ocupação (veja no vídeo abaixo). Ainda assim, um mandado foi emitido e a reintegração deve acontecer nessa sexta-feira (6).

“A luta é uma só: é a luta pela educação. Sabemos a importância desses secundaristas que estão mobilizados nas ocupações para a gente conseguir, pelo menos, melhorar um pouco o sistema de ensino

Inaê Lima é uma das estudantes que está ocupando o Centro Paula Souza. Pouco antes da saída da Tropa de Choque do prédio, ela conversou com a Vaidapé sobre o momento que os secundaristas vivem, não só em São Paulo, como em outros estados.

“A luta é uma só: é a luta pela educação. Sabemos a importância desses secundaristas que estão mobilizados nas ocupações para a gente conseguir, pelo menos, melhorar um pouco o sistema de ensino. Para nós, pequenas vitórias já valem muito. Tipo, ter uma ocupação no Ceára, já é uma puta vitória para a gente. No Rio foi uma ocupação, de repente eram duas e hoje já são quase 80 escolas ocupadas. Ano passado, em São Paulo, foi uma, duas, três, 30, 60… meu, tem 200 ocupações, caralho!”, conta com empolgação.

Ela continua recapitulando os momentos de aprendizado que as ocupações proporcionaram, dos momentos de convivência coletiva e divisão de funções, à conscientização política e o empoderamento dos estudantes. “No momento em que você faz parte de uma ocupação, é incrível como você acaba pertencendo a um lugar que sempre foi seu. Nós começamos a entender que podemos fazer parte das decisões da escola, podemos falar: ‘Não, a gente não quer esse projeto aqui’. E é uma mobilização que vai além do político. Atinge o pessoal. A gente começa a entender o que é o coletivo, o que é uma ocupação de verdade. E é muito importante a ligação que temos com os outros alunos, porquê nós sabemos que unidos nós conseguimos muito mais do que cada um na sua escola, na sua mobilização. A mobilização conjunta, feita em coletivo, é muito mais enriquecedora, tanto para cada um, quanto para nossa luta e para o movimento.”

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